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Foi anunciado há pouco tempo que a final da Taça de Portugal de 2020, se realizará a 1 de Agosto. Já sabemos que o vencedor será um dos dois candidatos ao título, FC Porto ou SL Benfica. No entanto, a magia da Prova-Rainha reside nas surpresas que ela nos dá; apesar dos ditos clubes “grandes” coleccionarem estes troféus, às vezes caem com estrondo perante “pequenos”. E ainda bem.
Numa final que tem como palco o histórico estádio do Jamor, quando um clube modesto ultrapassa todos os obstáculos para chegar à final, tem em si todos os sonhos do mundo e precisamente por causa disso, merece vencer. Recordemos, portanto, os jogos em que David derrotou Golias, nos últimos 15 anos.
5.
Vitória FC x SL Benfica (2004/2005) – Corria a longínqua época de 2004/2005; o Benfica de Giovanni Trapattoni voltava a conquistar o título de Campeão Nacional depois de uma década de desilusões e tinha naquela tarde no Jamor, a oportunidade de fazer a dobradinha, tendo para isso de derrotar um Vitória FC poderoso, com jogadores sonantes como Jorginho ou Meyong.
Muito dificilmente o jogo poderia ter começado melhor para os encarnados, com Simão Sabrosa a colocar a equipa em vantagem logo aos quatro minutos de grande penalidade. Os adeptos do Benfica rejubilavam com a possibilidade de juntarem mais uma Taça de Portugal ao museu num ano tão marcante. Mas nunca se deve deitar foguetes antes da festa. O Vitória arregaçou as mangas e foi à procura do empate; aos 26’, após uma bela jogada colectiva abrilhantada pelos pezinhos de lá de Jorginho, a bola sobrou para Manuel José que não se fez rogado, atirou do canto direito da área, a bola desviou em Ricardo Rocha e enganou Moreira.
Estava feito o empate no Jamor. A partir daí o Vitória FC carregou, mas o Benfica foi aguentando e sacudindo a pressão, terminando a primeira parte a tentar o voltar à vantagem. Na segunda-parte, mais do mesmo, com o metro quadrado a pagar-se caro e com ambas as equipas a procurarem mais a meia-distância e o cruzabol. Até que aos 72’, Moreira não segurou um remate de longe e na recarga, Meyong não tremeu e colocou os sadinos a vencer por 2-1, resultado que não se viria a alterar até ao final. Um jogo cheio de raça dos de Setúbal permitiu-lhes derrotar o campeão nacional; assim, ainda deve ter sabido melhor.
4.
Académica OAF x Sporting CP (2011/2012) – Como em todas as as finais da Prova Rainha do futebol português, o Jamor estava cheio para receber o favorito Sporting, a tentar conquistar um título que já escapava há quatro anos e a Académica que procurava levar o caneco para a cidade dos estudantes, 73 anos depois da última vez que o conseguiu. Mais uma vez, o golo surgiu muito cedo e para os estudantes: aos quatro minutos, Diogo Valente cruzou com conta, peso e medida para o golo de cabeça do baixote Marinho que causou uma explosão de alegria para os de Coimbra.
Essencialmente, isso foi a primeira parte deste jogo. Já a segunda, recomeçou com muita emoção com Edinho perto de aumentar a vantagem sobre os leões por diversas vezes, e ao longo do jogo, o Sporting esteve muito perto de empatar, mas Van Wolfswinkel, o avançado dos leões não esteve nos seus dias e Ricardo, guardião da Académica foi um muro intransponível. Os estudantes conseguiram segurar a vantagem até final e puderam finalmente, sete décadas depois, levar a Taça para Coimbra.
3.
Vitória SC x SL Benfica (2012/2013) – Na época 2012/2013, tudo correu mal ao Benfica de Jorge Jesus, que procurava desesperadamente terminar a época com pelo menos um troféu, o da Taça de Portugal, enfrentando o Vitória comandado por Rui Vitória. Depois de cair nas meias-finais da Taça da Liga frente ao SC Braga, de perder o campeonato no Dragão, com o célebre golo de Kelvin aos 92’, depois de cair nos descontos na final da Liga Europa frente ao Chelsea FC, a Prova-Rainha era a oportunidade de redenção.
As coisas até pareciam bem encaminhadas na Taça de Portugal, quando aos 30’, um alívio deficitário de Kanú bateu no pé de Nico Gaitán e acabou no fundo da baliza de Douglas. Finalmente, parecia que a sorte estava do lado dos lisboetas. Apesar das tentativas de ampliar a vantagem, o Benfica foi para o intervalo a vencer pela vantagem mínima. Na segunda parte, os encarnados facilitaram, deixaram de procurar o golo, baixaram o ritmo e isso encheu os nortenhos de esperança.
E como enquanto há vida, há esperança, o Vitória lá chegou ao empate, aos 79’. Péssimo alívio de Arthur Moraes, o guarda-redes benfiquista, a oferecer a bola a Crivellaro, que serviu Soudani para o golo do empate. Balde de água fria no Jamor, para os milhares de benfiquistas. E como uma desgraça nunca vem só, dois minutos depois, o lateral vimaranense Ricardo Pereira, encheu-se de fé e atirou à entrada da área, com a bola a tocar em Luisão e a terminar no fundo das redes encarnadas. O Benfica foi incapaz de responder e terminou o ano em grande. Grande desgraça. Um “annus horribilis” para Jorge Jesus e mais uma desmonstração da tremenda alma vimaranenses que os adeptos portugueses tão bem conhecem.
2.
SC Braga x FC Porto (2015/2016) – Se no texto anterior vimos como foi o “annus horribilis” do Benfica de 2012/2013, vejamos agora como foi o do FC Porto. À medida que as coisas iam correndo mal, o clube trocava de treinador, acabou por ter três: Julen Lopetegui, Rui Barros e José Peseiro. No final da temporada, com Peseiro ao leme, os dragões já tinham perdido o campeonato, as eliminatórias da Taça da Liga, da Liga Europa e da Champions. Restava a Taça de Portugal, onde defrontaria o SC Braga de Paulo Fonseca, à procura de levar a taça para a cidade dos arcebispos, 50 anos depois.
Começaram melhor os bracarenses; aos 12’, numa bola para as costas da defesa do Porto, Chidozie, Marcano e Helton ficaram a treinar telepatia, em vez de sacudir a bola e Rui Fonte, avançado do Braga, aproveitou esta monumental falta de comunicação do adversário para fazer o primeiro golo da partida. Aos 58’, mais uma distracção inacreditável de Marcano que perdeu a bola onde não devia e permitiu a Josué fazer o segundo para os guerreiros do Minho. No entanto, isto pareceu acordar os do Porto, e dois minutos depois, após um remate de Brahimi que Marafona defendeu como pôde, André Silva na recarga reduziu a diferença no marcador. As tentativas desenfreadas do Porto para ainda conseguir o empate deram fruto, aos 90 minutos.
Após um canto em que até Helton já atacava, a bola sobrou para Herrera, que ainda conseguiu cruzar para uma bicicleta de, mais uma vez, André Silva, restabelecer o empate no marcador. No prolongamento, só deu Porto; o Braga estacionou um autocarro à frente da baliza e segurou o resultado para as grandes penalidades. Nos penáltis, o Braga contou com um Super Marafona entre os postes, que defendeu os remates de Herrera e de Maxi Pereira. Ficou tudo nos pés de Marcelo Goiano, que com muito sangue frio, bateu Helton e ajudou o Braga a conquistar a Prova-Rainha 50 anos depois e a dar mais um passo, rumo à galeria dos “grandes” do futebol português.
1.
CD Aves x Sporting CP (2017/2018) – Os maus anos em termos de resultados podem afectar qualquer clube de futebol, seja “grande” ou “pequeno”. Agora um ano em que plantel e equipa técnica são selvaticamente agredidos, já é, felizmente, mais raro. Infelizmente, isso aconteceu ao Sporting nessa temporada. Pessoalmente, nunca percebi porquê que os lisboetas não pediram um maior adiamento deste jogo. Seria completamente compreensível; mas a verdade é que ele se realizou e opôs o Sporting na fase menos boa da época, depois de já ter conquistado a Taça da Liga, e um Desportivo das Aves liderado por José Mota, com o sonho de levar o troféu para a Vila das Aves. O Sporting até começou melhor com duas oportunidades nos pés de Gelson Martins, mas o Aves respondeu e aos 16’, Alexandre Guedes respondeu a um cruzamento largo de Braga para assinar o 1-0.
Os lisboetas tentaram responder, mas até ao intervalo, o resultado não mudou. O Sporting voltou do descanso com vontade de inverter a situação, e por várias vezes ameaçou a baliza de Quim, mas foi o Aves quem acabou por ampliar a vantagem, com uma recuperação de bola, bola para as costas da defesa leonina e Alexandre Guedes, o herói avense da final, a bisar no encontro, com muita categoria. Seis minutos depois, um lance que demonstra o estado mental dos jogadores do Sporting, em que com a baliza aberta, Bas Dost, o goleador do Sporting, atirou à trave.
Aos 84’, o Sporting reduziu por Fredy Montero, com um golo de belo efeito. No entanto, a pressão final do Sporting, mais com o coração do que com a cabeça, acabou por esbarrar numa defesa solidária e muitíssimo bem organizada dos nortenhos. No final, e apesar das circunstâncias em que o Sporting jogou, o CD Aves fez por merecer a vitória na Taça de Portugal, num jogo que ficará para a memória dos habitantes de Vila das Aves.












