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Futebol positivo

José Pedro Pais · 3 min

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O futebol português está de luto.

Na madrugada de Sábado, na véspera do Sporting-Benfica, um adepto do Sporting foi mortalmente atropelado na sequência de confrontos entre adeptos das duas equipas.

Este trágico episódio não constitui qualquer surpresa para as pessoas que acompanham o fenómeno futebolístico em Portugal, que atingiu este ano níveis de ódio e animosidade nunca antes vistos.

A culpa, essa recai inteiramente sobre os dirigentes de Benfica, Porto e Sporting (e respetivos diretores de comunicação), que têm alimentado diariamente ao longo do último ano um verdadeiro clima de guerra. Guerra contra os adversários, guerra contra os árbitros, guerra contra tudo e contra todos.

Fonte: UEFA
Fonte: UEFA

Não sejamos hipócritas, seja pela boca dos próprios treinadores, diretores de comunicação ou presidentes, ou seja pela boca dos seus comissários encartilhados, todos são igualmente responsáveis pelo episódio de sábado, e esse peso deverá recair sobre as suas consciências (se as tiverem) até ao fim dos seus dias.

Todos nós portugueses adoramos e vivemos o futebol como poucos. Essa nossa devoção permite-nos atingir feitos quase impossíveis atendendo à nossa pequena dimensão geográfica, como o facto de já termos tido três vencedores da Bola de Ouro ou até sermos os atuais campeões europeus de seleções. Mas também acarreta sérias responsabilidades aos nossos dirigentes, que falam diretamente com o seu público exclusivo e fiel, e que se revêm em tudo o que dizem.

Coloca-se então a questão de como podemos colocar um travão a esta loucura, de como podemos tornar o fenómeno do futebol um espetáculo seguro para os adeptos e famílias. A resposta é simples: cumprindo com o que já está estipulado na lei e alterando os regulamentos disciplinares que são insuficientes.

O Art. 3º n. º 2. da Lei de Bases do Desporto (Lei n.º 5/2007, de 16 de Janeiro) prevê o Princípio da Ética Desportiva onde “Incumbe ao Estado adotar as medidas tendentes a prevenir e a punir as manifestações antidesportivas, designadamente a violência, a dopagem, a corrupção, o racismo, a xenofobia e qualquer forma de discriminação.”

Quer isto dizer que é responsabilidade absoluta do Estado intervir para garantir a todo o custo a defesa dos valores do desporto.

Já o Decreto -Lei n.º 248 -B/2008, de 31 de Dezembro (Lei das Federações Desportivas), prevê nos artigos 10.º e seguintes, as regras para atribuição, manutenção e fiscalização do Estatuto de Utilidade Pública Desportiva, que claramente não estão a ser cumpridas pela Federação Portuguesa de Futebol.

Assim, cabe ao Estado garantir que a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal criam os regulamentos disciplinares suficientes para resolver o problema de base, punindo severamente todos os agentes desportivos que desrespeitem outros intervenientes do futebol.

Apenas castigando severamente todos os treinadores, dirigentes ou jogadores que desrespeitem ou tentem condicionar o trabalho dos árbitros ou equipas adversárias, podemos esvaziar o futebol português de todo o seu conteúdo tóxico, que por sua vez levará obrigatoriamente os espectadores a falarem sobre apenas uma coisa: o próprio futebol.

O Boavista FC quer dar um passo rumo ao futebol positivo Fonte: Boavista FC
O Boavista FC quer dar um passo rumo ao futebol positivo
Fonte: Boavista FC

Ninguém quer saber verdadeiramente da opinião da maioria dos comentadores desportivos que pairam na televisão, até porque estes nada acrescentam ao futebol. Estes ignóbeis representantes dos três grandes, apenas ganham importância porque alimentam as polémicas criadas pelos próprios presidentes e treinadores dos clubes.

Caso esta mudança dos regulamentos disciplinares (da FPF e LP) colida com os princípios da liberdade de expressão, deve então o governo intervir de uma vez por todas para garantir a sua implementação, tendo por base a defesa dos valores do Desporto, e como exemplo a seguir o caso inglês e alemão.

No Sábado, o Boavista, através de uma “carta aberta ao país desportivo” do seu presidente, parece ter dado inicio a esta reflexão. Estou seguro que outros clubes seguirão o seu caminho.

Está na altura de atuar, por um futebol positivo.

Foto de Capa: SJPF

José Pedro Pais

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