Os efeitos da “Síndrome Continental”

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Cabeçalho Futebol NacionalO apuramento para as competições europeias é sempre um feito histórico para qualquer clube de segunda linha a nível nacional. No entanto, esse apuramento para as competições europeias, pode ser um sinal de reconhecimento do trabalho realizado pelo clube ao longo da época, mas é também um acréscimo de responsabilidade.

O quinto e o sexto lugar do nosso campeonato (ou a chegada à final da Taça de Portugal no caso de uma equipa fora do top-6) dão acesso às pré-eliminatórias da Liga Europa, eliminatórias essa que começam ainda no mês de Julho. Ora, o que é que isto vai originar? Isto irá fazer com que as equipas comecem a preparação da época mais cedo que o habitual, submetendo os jogadores a maior carga física nos treinos. Adicionando a isso as longas viagens que a equipa já faz nessa altura inicial da época, tudo isso acrescenta já um grande desgaste físico, e a equipa acusa esse mesmo desgaste nos primeiros jogos do campeonato.

Na época passada, essa questão foi muito debatida pegando no exemplo do FC Arouca. O clube do distrito de Viseu conseguiu um histórico apuramento para as competições europeias, três anos após a estreia na primeira divisão. E após as deslocações à Holanda e à Grécia, a equipa beirã acusou o desgaste físico e teve um início de campeonato muito à quem das expectativas.

Apesar disso, Lito Vidigal sempre se mostrara pouco preocupado com a má fase da sua equipa, estando convicto de que a sua equipa iria entrar nos eixos. E de facto, isso estava a acontecer. Aquando da deslocação à Luz na 21ª jornada, naquele que seria o último jogo do treinador angolano ao serviço da equipa, o FC Arouca atravessava a sua melhor fase da época com quatro vitórias nos últimos seis jogos. Após a saída de Lito Vidigal, a equipa nunca mais assentou e acabou mesmo por descer de divisão, mas aí os problemas já eram outros.

Outro exemplo de um clube que não conseguiu gerir a equipa com a participação nas competições europeias até se sucedeu num clube que já estava habituado a estas lides. Falo do Vitória de Guimarães na temporada 2005/2006. Após ter eliminado os polacos do Wisla Cracóvia na 3ª pré-eliminatória da Taça UEFA, na Fase de Grupos ficaria em último lugar num grupo que contava com Zenit, Bolton, Sevilha e Besiktas. Com a preparação para a competição europeia, a equipa vitoriana também não conseguiu assentar no campeonato, acabando por terminar um campeonato num inesperado 17º lugar.

O Estoril de Marco Silva foi um exemplo de boa gestão de equipa entre campeonato e Liga Europa. Fonte: Lusogolo
O Estoril de Marco Silva foi um exemplo de boa gestão de equipa entre campeonato e Liga Europa.
Fonte: Lusogolo

Houve outros casos que não foram radicais ao ponto de levarem à descida de divisão, mas também tiveram os seus efeitos. Na temporada 2010/2011, o CS Marítimo (outro clube habituado a estas andanças) disputou as pré-eliminatórias da Liga Europa, a primeira das quais em meados do mês de Julho. Fez deslocações à Irlanda, ao País de Gales e à Bielorússia, onde seria eliminado pelo BATE Borisov, e com o desgaste acabaria por realizar um mau início de campeonato, com várias jornadas abaixo da linha de água. Situação que levaria ao despedimento de Mitchell van der Gaag, sendo substituído por Pedro Martins, técnico que acabaria por levar o clube insular a um bom porto.

No entanto, também existem exemplos em que a gestão é feita de forma exemplar e em que os clubes não se ressentem da participação nas pré-eliminatórias da Liga Europa. Um bom exemplo disso mesmo é o caso do GD Estoril Praia em 2013/2014, que após o histórico quinto lugar da época anterior, disputou a terceira pré-eliminatória e o play-off de acesso à Fase de Grupos da Liga Europa. Eliminou os israelitas do Hapoel Ramat Gan e os austríacos do Pasching. E mesmo assim, a equipa manteve-se forte e competitiva no campeonato, superando-se em relação à época anterior.

Outro bom exemplo disso mesmo foi o Rio Ave FC em 2014/2015. Na sua esteia nas competições europeias eliminou duas equipas suecas: o IFK Gotemburgo e o Elfsborg. Acabaria por realizar um campeonato algo irregular, terminando na 10ª posição, mas longe das aflições que outros clubes na mesma situação atravessaram.

Gerir uma equipa ao longo de uma época não é tarefa fácil. Principalmente quando clubes de segunda linha atravessam situações a que não estão habituados. Como tal, esta situação também me deixa expectativas quanto à prestação do Marítimo nesta temporada, ainda para mais, perante a perda de vários jogadores influentes. O treinador Daniel Ramos já mostrou a sua competência no clube madeirense e compete-lhe dar continuidade ao crescimento a que submeteu o clube.

 

Foto de Capa: CS Marítimo

Tiago Serrano
Tiago Serranohttp://www.bolanarede.pt
O Tiago é um jovem natural de Montemor-o-Novo, de uma região onde o futebol tem pouca visibilidade. Desde que se lembra é adepto fervoroso do Sport Lisboa e Benfica, mas também aprecia e acompanha o futebol em geral. Gosta muito de escrever sobre futebol e por isso decidiu abraçar este projeto, com o intuito de crescer a nível profissional e pessoal.

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