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O que hoje é verdade, amanhã é mentira. Esta é uma máxima cada vez mais adequada ao futebol português. E nem estou a falar do que se passa fora das quatro linhas. Já dentro do terreno e dos aspetos do jogo, a água vira vinho com tanta facilidade que nem é necessária a intervenção de Cristo. Se bem que Jesus já cá está…

O céu e o inferno estão à distância de 90 minutos. O hat-trick de hoje pode não valer nada amanhã se falhares de baliza aberta ou desviares a bola para a baliza errada. O mesmo se aplica aos treinadores; se conquistaste um, dois ou três títulos num ano não te sentes à sombra. Para o ano podes ter de fazer as malas.

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Os exemplos de longevidade de Sir Alex Ferguson e Arsene Wenger são, hoje, meros dados históricos, sem qualquer paralelo no presente. E bem se vê a dificuldade que os seus sucessores têm tido para se aproximarem do sucesso.
Para o adepto de hoje, impaciente e ávido de títulos, o treinador deve preparar uma época num par de meses e chegar aos primeiros jogos oficiais e atropelar os adversários por 5-0, no mínimo. Não olha a rotinas, treinos, entrosamentos; nada menos que 5-0 ou o lugar já fica em risco.

E as direções, trémulas, frágeis e guiadas pela necessidade de angariação de votos, abrem o alçapão e lá vai mais um treinador para o desemprego, por vezes sem sequer ter completado uma mão cheia de jogos ao leme da equipa.
Para se ter uma pequena ideia da autêntica dança de cadeiras que assistimos nesta temporada, num campeonato absurdamente alargado a 18 equipas, pudemos assistir a 38 lideranças diferentes.

Não, não há qualquer erro de escrita ou cálculo. Foram 38 treinadores principais, alguns interinos, em apenas 18 clubes. Em média, cada clube teve pelo menos dois técnicos, o que diz muito da estabilidade que reina no Futebol Português.
Os resistentes do início da época são Sérgio Conceição (FC Porto), João Pedro Sousa (FC Famalicão), Carlos Carvalhal (Rio Ave FC), Ivo Vieira (Vitória SC), João Henriques (CD Santa Clara), Vítor Oliveira (Gil Vicente FC) e Natxo González (CD Tondela). O mesmo é dizer que mais de metade dos treinadores não terminou a época (aproximadamente 38 porcento).

Com apenas uma troca durante a época temos o caso das águias, dos cónegos, dos axadrezados, dos pacenses e do CS Marítimo. Trocaram por duas vezes de treinador em 2019/2020 o Portimonense SC, Belenenses SAD e CD Aves. Acima destes, só Sporting CP, SC Braga e Vitória FC que trocaram por três vezes de timoneiro.

Os resultados, esses, estão à vista: a generalidade das equipas que mantiveram o seu treinador conquistaram os seus objetivos. Destaque para Sérgio Conceição, que chegou a colocar o lugar à disposicção, para a classificação fantástica do “Fama” de João Pedro Sousa e para a pontuação histórica dos vilacondenses de Carvalhal.
Por outro lado, nem bracarenses nem leões retiraram objetivos fantásticos da ventania que varreu os seus treinadores. O CD Aves foi a primeira equipa a confirmar a descida no primeiro escalão do Futebol Português e os sadinos, os que mais mexeram no banco de suplentes, nunca se libertaram do fantasma da descida e vão à última jornada lutar com algarvios e tondelenses pela sobrevivência.

As razões que levam ao despedimento são variadas e, diga-se, algumas bem justificadas e fundamentadas. Noutras situações não se trata de despedimento, mas sim de uma mudança de clube, seja por acordo mútuo ou porque houve uma contratação direta. Mas nada justifica os despedimentos precoces, como o de Filipe Rocha à quarta jornada.

É certo que somava três derrotas e um empate, mas terá valido assim tanto a pena? Recorde-se que o FC Paços de Ferreira só garantiu a manutenção na penúltima jornada do campeonato. Terá sido uma decisão assim tão proveitosa? Resultou, como podia não ter resultado. E no entretanto tivemos um treinador coma época preparada a deixar tudo ainda em setembro e outro, Pepa, que corajosamente assumiu o seu lugar e trabalhou com o que tinha e encontrou.

A título comparativo, a Primeira Liga teve 20 despedimentos ou trocas de treinador, bem longe das Ligas Italiana (12), Espanhola (10), Inglesa (9), Alemã (7) e Francesa (7). Se queremos constantemente comparar-nos às melhores ligas europeias, então que o façamos em toda a linha. E aqui ficamos, claramente, para trás. Se formos ainda mais longe na análise, só Sérgio Conceição e João Henriques transitaram da época passada e vão terminar a presente temporada ao serviço do mesmo clube. O líder dos dragões é, na verdade, o técnico da nossa Liga há mais tempo consecutivo na liderança do mesmo clube, terminando agora a terceira temporada.

Estabilidade não é algo que se pode utilizar para caracterizar o Futebol Português e os nossos clubes são o perfeito reflexo de uma Liga confusa, sobrelotada e com pouca memória. O treinador que hoje é levado em braços e apelidado de novo Klopp ou novo Guardiola, amanhã estará pendurado no pelourinho à espera de um julgamento público e televisionado.

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