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Quando o músculo se sobrepõe ao cérebro

Tiago Serrano · 3 min

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Esta década ditou uma revolução no futebol mundial. Actualmente, vivemos numa era em que o futebol apoiado é o modelo para muitas equipas de futebol espalhadas pelo mundo fora. Um futebol dominante assente em três aspectos de jogo: pressão, posicionamento e posse de bola. Os jogadores que encaixam melhor nesse modelo não são aqueles que se destacam pela sua presença física mas sim aqueles que tratam melhor a bola, que se destacam pela sua técnica, criatividade e capacidade de definir os lances.

No entanto, nem todos os treinadores são apologistas da máxima de que o músculo mais importante é o cérebro. Em Portugal, encontrámos uma equipa que conseguiu mostrar que era possível dominar de outra forma, com um futebol agressivo, aguerrido e que corresponde ao ADN do seu clube.

O FC Porto e sobretudo o treinador Sérgio Conceição foram campeões nacionais com todo o mérito e justiça, muito graças à postura dominante da sua equipa assente na força física e mental da mesma. O técnico que já tinha deixado marca no seu clube enquanto jogador, chegou a um clube intervencionado pela UEFA e com pouquíssima margem para investir, pegou num plantel curto mas com muitos jogadores de elevada capacidade/disponibilidade física e conseguiu construir uma equipa dominadora, consistente e capaz de extrair o melhor de cada jogador.

Sérgio Conceição transformou a mentalidade do clube azul e branco
Fonte: FC Porto

Para além daquilo mostrado dentro das quatro linhas, Sérgio Conceição soube dar outra mentalidade à equipa, tornando-a mais forte. Graças a essa mentalidade, a equipa soube quase sempre superar as baixas devido às lesões (principalmente a de Danilo) e a maioria dos jogadores que entravam na equipa como segundas linhas respondiam à altura do desafio.

Do outro lado, estava uma equipa que, para além do desinvestimento no plantel e das limitações do treinador, também mostrou não estar física e mentalmente a altura das exigências da última época. Uma das imagens de marca da equipa encarnada na última temporada foram as exibições personalizadas na primeira parte e as grandes quebras de ritmo na segunda.

Apesar das deficiências de Rui Vitória a ler o jogo e as suas substituições também não ajudarem e desmotivarem a equipa, o problema não é só esse. A meu ver, a principal causa desta quebra era a fraca capacidade/disponibilidade física da equipa, principalmente do meio-campo para a frente. Essa causa é bem notória quando, por exemplo, a equipa na segunda parte perdia mais duelos e disputas de bola.

É verdade que nos dias de hoje é muito importante numa equipa de futebol ter jogadores inteligentes que tomem as decisões certas e saibam sempre o que fazer com a bola nos pés e o Benfica tem desses jogadores tais como Jonas, Pizzi e Krovinovic. Mas também não é menos verdade que, para que uma equipa seja regular e tenha uma atitude dominadora ao longo dos 90 minutos, é necessário um suporte físico consistente.

O Benfica de Rui Vitória apresentou deficiências físicas na época passada
Fonte: SL Benfica

Se formos verificar, reparamos que no plantel, os avançados Jonas, Seferovic e Raúl Jiménez são os únicos jogadores do plantel com mais de 1.80m e isto é bem mais importante do que muita gente pensa. Este problema não é de agora. As deficiências físicas do plantel começaram a tornar-se mais visíveis após as saídas de Renato Sanches e Gonçalo Guedes, dois jogadores com uma capacidade física acima da média para as suas idades e que os ajudou muito a sobressair na equipa principal.

Ao observarmos as duas equipas no jogo do título, podemos muito bem ver a diferença: de um lado estava Grimaldo, Zivkovic, Rafa e Cervi (sem colocar em causa a qualidade destes jogadores); do outro estavam Alex Telles, Herrera, Sérgio Oliveira e Marega. De um lado estava uma equipa de ‘meninos’, do outro estava uma equipa de ‘homens’, de ‘animais de competição’.

No desporto de alta competição é preciso força física e mental. Física para levar a melhor nos duelos e disputas de bola em jogos de maior intensidade, mental para suportar as exigências de uma época inteira em várias frentes. E, no nosso último campeonato, esses factores tiveram um peso decisivo.

Foto de Capa: FC Porto

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Tiago Serrano

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