Que destino para o Jamor?

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Num dos estádios com mais mística do país, não fosse um dos mais antigos, sente-se e respira-se o peso da história, auxiliado pela área arborizada que circunda o complexo e lhe oferece uma bonita paisagem, e que faz da zona envolvente a mais conhecida do país para piqueniques lá para finais de maio, representando a ligação emocional que transporta.

De facto, a tradição está bem patente quando se olha para este gigante branco e se nota o seu “corpo” bem enrugado devido aos muitos anos de vida que já conta. Por ser a céu aberto, notam-se melhor as marcas de guerra provenientes de fatores naturais, onde algumas zonas parecem estar afetadas. Pode uma pessoa nunca lá ter pisado, mas as imagens dão conta. Admito que é um estádio que tem o seu encanto, possui uma aura afetiva e é, provavelmente, o mais respeitado entre os adeptos. Muitos destes já ali viveram grandes momentos e têm muitas e boas recordações deste templo do futebol nacional – afinal, já ali se disputaram grandes jogos que culminaram em vitórias históricas para diversas equipas e partilharam momentos de alegria e tristeza – tal e qual representa um jogo de futebol.

A Taça de Portugal está, diretamente, associada a este estádio, que acolhe a final praticamente desde o seu início. Todos estávamos habituados a ver o Jamor uma única vez por ano, normalmente em dias solarengos, em tardes de calor intenso, sempre invadido por um clima de festa e harmonia onde as pessoas se juntam para ver o seu clube e celebram um dia sempre especial. Porém, esta realidade alterou-se desde a época passada, uma vez que passámos a ter contacto com o referido recinto várias vezes por ano. A conhecida divisão no clube de Belém resultou neste mesmo processo, que é todo ele infeliz.

Confesso que me faz confusão sempre que vejo um jogo do Belenenses SAD como visitado e ao redor não mais se vê do que um gigante branco adormecido, quase sem vida, indo precisamente ao encontro de uma das piores coisas no futebol que são os estádios vazios. Quem vê o jogo pela TV é fácil percecionar muitas vezes os diálogos entre os jogadores, quase como se estivessem num simples treino. Ou seja, tudo aquilo que não representa o Jamor, que é visto como um palco de momentos vibrantes e agora se depara com esta triste realidade, ao ser utilizado num ambiente amorfo e muito pouco convidativo.

Aguardo uma resolução definitiva do diferendo para os lados de Belém e gostaria que fosse encontrado um novo recinto para a equipa principal, embora a complexidade de todo este processo não augure muito nesse sentido.

O Belenenses SAD tem jogado no Jamor nos jogos em casa
Fonte: Bola na Rede

A verdade é que a imagem deste local querido do futebol português está a ser bastante mal utilizada e é um dos pontos negativos do nosso futebol atual, perpetuado pelo imbróglio vivido pelos azuis. Porque é mau demais quando o plano televisivo mostra a imensidão de bancadas brancas despidas durante um jogo de uma Primeira Liga.

Posto isto, sou daqueles que defendem a remodelação do Estádio Nacional. Penso que está na altura de dar uma nova cara àquele que seria suposto ser o estádio de todos os portugueses. Apesar de todo o misticismo que o envolve, a evolução é uma necessidade que iria colmatar os aspetos negativos que lhe são apontados, como as poucas condições de segurança, o pouco conforto e os acessos deficitários. Uma vez que o país é dotado de diversos estádios modernos, penso que faria todo o sentido modernizar também o Jamor. Naquilo que seria uma profunda remodelação, talvez houvesse mudanças na estrutura da zona envolvente, mas a famosa área arborizada poderia continuar a existir, tanto quanto possível.

Até por ser um recinto historicamente associado a grandes ambientes, julgo que deve ser melhor tratado do que está a ser atualmente. Penso também que deveria tornar-se a casa oficial da Seleção Nacional, onde esta disputaria os seus jogos oficiais. Claro que isto iria alterar o panorama atual, visto que a equipa das quinas deixaria de jogar pelo resto do país em jogos a sério. No entanto, e depois da construção da Cidade do Futebol, julgo que fornecer à Seleção uma casa própria para os seus jogos constituiria um registo mais profissionalizado e um importante marco para o futebol nacional.

Além disso, a final da Taça poderia continuar ali a disputar-se, dando seguimento ao registo mais tradicional. Em tempos em que o progresso é uma condição vital, penso que seria viável a referida remodelação num espaço que carece de modernização. Isto é apenas aquilo que eu gostaria de ver acontecer, pois acredito que iria acrescentar valor a um local respeitado por todos.

Enquanto não é possível avançar nesse sentido, continuaremos a ver um espaço desproporcional para o número atual de frequentadores, apenas atenuado pelo convívio anual que lá se proporciona no mês de maio.

Foto de Capa: FPF

Artigo revisto por Joana Mendes

 

 

 

André da Silva Amado
André da Silva Amadohttp://www.bolanarede.pt
O desporto em geral atrai este jovem aveirense mas é o futebol a sua maior paixão. As conversas com amigos e familiares costumam ir dar ao futebol, hábito que preserva desde sempre. Poder escrever sobre esta vertente é o que o satisfaz, com o intuito de poder acrescentar algo de positivo ao ambiente em torno do futebol nacional.                                                                                                                                                 O André escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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