Vanderlei Fernandes Silva, mais conhecido como Derlei, nasceu e cresceu na pobreza do pacato município de São Bernardo do Campo, chegando a Portugal através da União de Leiria, clube que o acolheu e onde encontrou um “treinador especial” que retirou o melhor dele. Tal como um Ninja, alcunha adquirida ainda nos tempos de Leiria, Derlei aplicou golpes certeiros e foi o goleador máximo da histórica Taça UEFA em 2003. Depois da lesão grave no ano seguinte, veio a consagração em Gelsenkirchen. Com a saída atribulada do Dragão, seguiu-se a experiência em solo russo, uma passagem apagada na Luz e o reaparecimento em Alvalade. Numa entrevista recheada, Derlei abriu o livro de histórias e não deixou nada por contar, pautando todos os momentos com uma humildade notável.
– Da pobreza das favelas aos anos em Leiria com Mourinho a tirar o melhor do “Ninja”-
“Quando Mourinho assumiu a equipa do União de Leiria, ele já conhecia muito bem os jogadores”
Bola na Rede [BnR]: Chegaste a vencer o prémio de melhor jogador do São Bernardo do Campo e ir jantar à famosa churrascaria da cidade, que era um sonho teu quando eras miúdo?
Derlei [D]: (risos) Não, não. Quando eu sonhava com isso era muito jovem e conforme eu fui crescendo praticamente não deu tempo de jogar no São Bernardo. A churrascaria ainda existe e o importante é que eu já fui lá algumas vezes e não precisei de ter recebido a eleição de melhor jogador.
BnR: Os puxões de orelhas que recebias do teu pai quando chegavas atrasado à mesa por estares a jogar futebol foram importantes na transmissão dos teus valores da família?
D: Claro, com certeza. Isso são as regras e nós temos que respeitá-las. Foi isso que o meu pai me ensinou desde sempre. Então ele colocou uma regra em casa: ele chegava por volta das 18h30/19h depois do trabalho, tomava um banho e gostava que nós estivéssemos juntos quando o jantar estava a ser servido. Essa regra basicamente era só para mim (risos) … porque eu ia para o campo jogar à bola e no verão eu perdia a noção da hora e daí vinha aquele velho puxão de orelha. Mas tenho uma gratidão imensa ao meu pai.
BnR: O futebol era um escape para não pensares na pobreza à tua volta e da dura realidade da favela onde vivias?
D: Quando eu era criança me lembro que não tinha saneamento básico, água canalizada e não tinha luz no bairro onde eu nasci. O que fica são os valores que os teus pais te vão passando e conforme você vai crescendo, você vai sabendo o porquê de estar ali e o porquê de não ter as condições dos outros lugares e só existe uma forma de sair dali: estudando. Através do conhecimento é mais fácil você se libertar, juntamente com o trabalho. Durante o meu caminho fui vendo algumas pessoas que buscaram o “mau caminho”, que é o caminho mais curto e mais fácil. Infelizmente tive muitos amigos que se envolveram com drogas e assaltos. Mas também tenho muitos amigos daquele tempo, pais de família e trabalhadores, que seguiram o seu caminho dentro da lei e é um orgulho enorme para nós.
BnR: Lembras-te do nome do treinador que te passou de número 10 para número 9?
D: É difícil, porque eu desde muito jovem jogava no meio-campo a trinco e aos poucos fui subindo. Lembro que quando jogava nos juvenis eu já jogava mais à frente. Só sei que me colocaram a jogar a avançado e as coisas correram bem.
BnR: Tens ideia do momento exato em que o sonho de ser jogador de futebol passa a tornar-se cada vez mais uma realidade para ti?
D: O sonho permanece desde criança, você sonha ser jogador profissional porque vê os atletas na televisão. Essa realidade foi por volta dos 17 anos, talvez até mais tarde, porque nessa idade ainda tinha outros caminhos. Mas o futebol sempre foi a primeira opção.
BnR: Três épocas no América-RN, uma passagem despercebida no Grémio Mauaense, com o Biro Biro como treinador. Depois estás muito perto de ir para o Corinthians, mas o Guarani joga na antecipação e assegura a tua contratação. Achas que tudo teria sido diferente se tivesses assinado pelo Corinthians?
D: É difícil falar em suposições, há pessoas que acreditam que há coisas pré-programadas, mas eu não acredito que tem um destino que você está fadado a passar por aquilo. Acredito que conforme as nossas decisões e aquilo que se vai escolhendo, as coisas vão acontecendo. Talvez se eu tivesse escolhido ir para o Corinthians, possivelmente iria ser emprestado e talvez nem iria ter oportunidade de jogar por eles.
BnR: Também ias ter muita concorrência lá na frente com Edilson, Mirandinha, Donizete…
D: Isso, naquela época o Corinthians tinha uma grande equipa!
BnR: Fazes dois meses no Madureira, a convite do teu amigo Dauri, em que marcas sete golos em sete jogos. Essa experiência foi determinante para a tua vinda para Portugal?
D: Com certeza. A gente aqui de São Paulo só conhecia o campeonato Carioca pela televisão e a visão que tínhamos era que esse campeonato era só Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo e América FC. Quando surge o Madureira eu nem se quer conhecia. Acabei por ir para lá e foi uma oportunidade para jogar com mais frequência. Era um clube pequeno, mas muito organizado. Felizmente, em sete jogos fiz sete golos, fiz golos aos quatro grandes clubes e isso chamou a atenção. O Presidente do Madureira, Elias Duba, que tinha uma boa ligação com o Presidente do Vasco da Gama, acabou comprando os meus direitos federativos ao Guarani e eu assinei contrato. Entretanto tinha tudo acertado para assinar pelo Vasco da Gama e apareceu o convite do Jorge Baidek, que trabalhava na altura com o José Veiga, para ir para Portugal e aí acabei por ir para o União de Leiria onde começou tudo.
BnR: O teu ídolo de infância era o Careca. A passagem dele pelo Nápoles, alimentou o teu sonho de vires para a Europa um dia?
D: O que pesava mais até era a questão financeira porque naquela época no Brasil, tirando os clubes grandes, os clubes pequenos pagavam muito pouco. Para além da questão financeira era a oportunidade de entrar no mercado europeu.
BnR: Tenho aqui um dado curioso para ti: sabias que o Careca também venceu uma Taça UEFA em 88/89 e que, tal como tu, marcou dois golos na final?
D: Sim, sim, eu me lembro que eu era muito jovem e acompanhava muito de perto, mais pelos jornais porque na televisão só apareciam os melhores momentos. Por isso eu não tive oportunidade de assistir o jogo completo, mas assisti os golos dessa final. Ele e o Maradona formavam uma dupla sensacional de se ver.
BnR: Chegas a Portugal com 24 anos e é o União de Leiria que te abre as portas em Portugal, onde jogas três épocas. É um clube que tem um lugar especial no teu coração?
D: Muito, muito grande! Se você jogar três anos num clube como o União de Leiria e você jogar apenas um ano num clube como o FC Porto, ele não apaga aqueles três anos que você fez em Leiria. Geralmente o nível que se atinge ao jogar num grande clube, principalmente com conquistas, leva o adepto a lembrar-se do atleta que esteve no auge e dificilmente se lembra do atleta do clube menor. Sem falar na quantidade de adeptos. Por exemplo, os adeptos do FC Porto falam de conquistas enquanto que os torcedores do Leiria focam na situação em que o clube vive. É um clube que tem um peso enorme e que eu guardo no meu coração, porque sem a União de Leiria nada disso teria acontecido e os três anos que lá passei foram fantásticos.
BnR: No Leiria cruzas-te com Paulo Alves, Silas, Maciel, Nuno Valente, Jacques e Krpan lá na frente. Quem era mais rápido, tu ou o Krpan?
D: O Krpan. Eu tinha que dar dois passos para dar um passo do Krpan na corrida. O Maciel também era muito rápido. Eu até gostava de os ter juntos na mesma época para ver quem corria mais. O Krpan era muito rápido, nos primeiros 20 metros era até mais rápido do que o Maciel.
(UD Leiria 3-1 FC Porto- Liga Portuguesa 2000/01: Golo de Derlei aos 0:27)
BnR: No Leiria o plantel tinha uma média de idades alta de 27 anos. A experiência da equipa aliada à experiência do Manuel José foram o segredo por detrás do histórico quinto lugar do União de Leiria?
D: Eu sempre creio que a experiência é essencial num grupo de trabalho. Não é uma regra, nós vemos, por exemplo, o Leipzig tem uma média de idades muito jovem e têm feito um trabalho fantástico. Mas eu acredito que em momentos essenciais da temporada falta um pouco de experiência e essa experiência decide muitos jogos. Por isso esses jogadores do Leiria tinham muito conhecimento da liga e havia jogos que nós íamos jogar fora de casa e sabíamos: “hoje temos que levar pelo menos um ponto daqui”. Em determinados momentos do jogo, você acaba por usar essa experiência para segurar um pouco mais o jogo, para sofrer menos ataques e manter um pouco mais a bola. A experiência ali na equipa tinha um papel fundamental aliadas também às ideias do treinador.
BnR: Na tua terceira época em Leiria alcanças a tua melhor marca de golos na carreira em Portugal com 21 golos. Por coincidência ou não, essa tua melhor época coincide com a época de estreia de Mourinho. Como era esse Mourinho de 38 anos que em apenas 20 jogos já tinha colocado o Leiria no quarto lugar?
D: Eu me lembro que quando ele saiu para o FC Porto, se nós vencêssemos o Sporting CP nós passávamos para o terceiro lugar. Ele era um treinador jovem que chegou com uma metodologia totalmente diferente. Desde o primeiro dia era totalmente diferente do Manuel José e do Mário Reis. A pré-temporada do Manuel José e do Mário Reis era muito mais focada na parte física e a gente corria muito. A forma que o Mourinho encontrou para trabalhar essa parte física era sempre com bola e isso acaba por “enganar” o cérebro do atleta porque ele continua correndo na mesma, a diferença é que está com a bola. Desde o primeiro dia a equipa assimilou muito bem a ideia de jogo dele. Quando ele assumiu a equipa do União de Leiria, ele já conhecia muito bem os jogadores individualmente, através de vídeos ou jogos, para que pudesse montar ao máximo a sua equipa e explorar os seus jogadores. Acredito que desde o princípio, ele tenha visto em mim algumas características que ele podia aproveitar que não tenham sido aproveitadas até então.
BnR: Outra curiosidade: tu realizas o mesmo número de jogos pelo Leiria e pelo FC Porto, 92 jogos, e acabas por marcar mais golos no União de Leiria, 42, do que no Porto, 39. Antes de passar para o FC Porto, queria te relembrar que na tua última época no Leiria fazes 21 golos e és o segundo melhor marcador do campeonato. Lembras-te quem foi o primeiro?
D: Lembro sim. Na verdade, eu me considero o melhor marcador do campeonato porque o Jardel não estava neste planeta. Ele fez 30 jogos e fez 42 golos. Sempre houve grandes jogadores, mas naquela altura dificilmente aquilo aconteceria.Em uma palavra eu acho que o Jardel era letal. Dentro daquilo que eu pude ver, eu acho que o Jardel foi o maior goleador que a Liga Portuguesa já viu atuar. Tinhas o Fernando Gomes, o próprio Nuno Gomes que eu também gosto muito, mas igual ao Jardel não há.
-Chegar, ver e vencer: Da conquista do campeonato à campanha épica na Taça UEFA –
“Aquela final foi a realização de tudo aquilo que se tinha proposto durante toda a temporada”
BnR: No fim dessa época, tu e Nuno Valente são os eleitos de Mourinho para seguir viagem de Leiria para o Porto. Como foi ter sido escolhido a dedo por Mourinho e que características é que achas que ele via em ti que podiam encaixar tão bem naquele FC Porto?
D: Eu acho que era mesmo a liberdade. Na União de Leiria eu jogava pelo lado esquerdo e ele deu-me liberdade de jogar por aquele setor sem ter aquela obrigação de acompanhar o lateral até à última linha. Ele só me dizia: “Olha, tens de controlar o defesa lateral porque ele não pode sobrecarregar o Nuno Valente”. Eu sempre gostei de jogar assim, de chegar na área, mais do que jogar fixo na área e ele potencializou isso. Na equipa do Leiria nós tínhamos o Silas, que jogava como 10 e era outro craque, fosse com a perna direita ou esquerda, com uma visão de jogo fantástica e fazia com que eu, o Jacques e o Maciel recebêssemos as bolas em condições de finalização. O Mourinho conseguiu-me mostrar que essa forma de jogar para mim era a mais indicada.
BnR: Chegas com 27 anos ao Porto. Achas que essa foi a idade certa ou sentes que podias ter dado um salto para um grande mais novo?
D: Tratando-se de carreira em si, eu acredito que cheguei no momento certo. Três anos no União de Leiria foram uma base essencial para mim para chegar e me assumir no FC Porto de vez. Mas também acredito que se tivesse chegado uns dois anos mais cedo ao FC Porto, teria potencializado bastante as minhas características e também teria ajudado um pouco mais o FC Porto.
BnR: Quando chegas àquele balneário, o FC Porto não vencia o campeonato há três épocas. Apesar disso, sentias que se tratava de um balneário de campeões?
D: Sim, com certeza. Até porque a maioria eram jogadores consagrados com muitos títulos no currículo. Basicamente metade do plantel chegou naquela época e a outra metade permaneceu. Essa metade que permaneceu era de jogadores que tinham sido pentacampeões. Eram jogadores que estavam acostumados com títulos, com a pressão e tinham uma coisa que sempre houve no FC Porto: a mística.
BnR: Jogadores como Vítor Baía, Jorge Costa, Paulo Santos, foram determinantes para transmitir essa famosa mística e ensinar-te o que é ser um jogador à Porto?
D: Sem dúvida. Eu sempre fui um atleta que tive como característica essa determinação e garra. E isso no FC Porto se evidencia. Logo que nós chegamos, a forma como eles receberam todos os atletas foi incrível. Desde o princípio foi criada uma família ali. A forma como o treinador conduziu essas situações também é importante, porque o Mourinho deu-lhes a liberdade de moldar o plantel dentro do balneário também.
BnR: Já sei que te conseguiste escapar da praxe dos jogadores mais antigos, mas recordas-te de algum episódio engraçado no balneário?
D: Eu e o Nuno Valente tivemos a felicidade de escapar ao batismo e acabaram outros atletas sofrendo as consequências (risos). Temos muitas histórias de balneário engraçadas. Por exemplo, nesse primeiro ano, o Cândido Costa era um jogador jovem e ele era um dos jogadores mais caricatos que existiam. Ele brincava muito com o treinador, brincava com a gente e ele falava: “Oh eu hoje vou jogar”. Só que passando um pouco, ele olhava quando se começavam a distribuir os coletes, via que não jogava e falava: “Ui, caiu” (risos). Tudo sem maldade, na brincadeira mesmo.
BnR: Estreias-te logo no primeiro jogo contra o Belenenses, mas empatam no Dragão. Acabas por fazer o lugar do Deco e chegas a dizer “pude perceber a diferença entre Deco e Derlei”. Qual era essa diferença? Deco estava acima de todos os outros a nível de qualidade?
D: Isso aí é inegável, não existe dúvidas. Eu acho que o único jogador daquela equipa que poderia fazer de Deco ali era o Alenitchev, que a nível técnico era um jogador esplêndido, inteligentíssimo e acostumado a jogar naquela posição. Mas o Deco, naquela altura, tecnicamente, já era o jogador mais preparado para comandar aquela equipa.
BnR: Nessa época Mourinho cumpre a promessa do ano anterior e o FC Porto é campeão de forma convincente e muito superior aos seus adversários. Dessa campanha no campeonato, qual é o primeiro jogo que te vem à cabeça?
D: Tem o último jogo contra o Santa Clara. Na verdade, o que aconteceu na primeira época foi uma sucessão evolutiva, a equipa foi evoluindo e ganhando força conforme os jogos, por causa dos treinamentos. Dentro de campo nos jogos, a equipa conseguia colocar em prática aquilo que era predeterminado durante a semana. Chegou um período, passado uns quatro meses de trabalho, que nós já sabíamos o que ia ser o treinamento das duas próximas semanas conhecendo os adversários que tínhamos pela frente. Psicologicamente, esse tipo de coisa faz com que você sinta que faz parte da cabeça do treinador e passa a entender como pensa o treinador.
BnR: Paralelamente à excelente campanha no campeonato, o FC Porto soma e segue na Taça UEFA. Foi difícil fazer essa gestão do esforço físico entre o campeonato, as taças internas e a Taça UEFA ou achas que Mourinho tinha o plantel certo para fazer essa gestão?
D: Não acho que foi difícil, até porque ele tinha um conhecimento muito grande de todos os jogadores, das suas qualidades técnicas e das suas capacidades para jogar determinado jogo. Havia jogos em que nós, por exemplo, tínhamos o Mário Silva que era defesa esquerdo e jogava o Ricardo Costa quando o Nuno Valente estava lesionado, mesmo com o Mário Silva bem fisicamente. O Mourinho tinha o controlo do plantel e ele explicava a todos nós o porquê das mudanças.
BnR: Na altura, nas primeiras quatro rondas vocês fazem vinte golos, dos quais cinco foram teus. Lá na frente, Mourinho alternava facilmente do 4-3-3 para o 4-4-2, fazendo várias combinações contigo, Jankauskas, Postiga, Capucho e Clayton. Sentias que vocês no ataque funcionavam como uma máquina bem oleada e com um entendimento perfeito?
D: Sim, nós conhecíamos muito bem as características individuais de cada um. Nós treinávamos muitas vezes com jogadores diferentes. Por exemplo, treinava eu, Capucho e Postiga, muitas vezes era eu, o Clayton e o Jankauskas ou eu, o Clayton e o Cândido Costa. Nós tínhamos muitas combinações durante os treinamentos e os jogadores vão se conhecendo. A equipa tinha um padrão de jogo pré-determinado e existia liberdade para os jogadores criarem dentro de campo no último terço do campo e com a qualidade técnica que partia do Maniche, do Deco e dali para a frente era muito mais fácil jogar.
BnR: Nos quartos de final sofreram a vossa primeira derrota em casa frente ao Panathinaikos, uma equipa cheia de qualidade, com jogadores que um ano mais tarde viriam a vencer o Euro 2004: Nikipolidis que teve um a noite inspirada, Seitaridis e Karagounis, que mais tarde viriam a ser teus colegas de equipa, entre outros. Como é que se explica a reviravolta na Grécia, num ambiente tão hostil, com aqueles adeptos fervorosos e num estádio onde eles nunca tinham perdido?
D: Na primeira partida nós tivemos algumas falhas técnicas, principalmente na finalização. Eles defenderam muito bem e fizeram um golo num contra-ataque. O que aconteceu no primeiro jogo deu-nos a confiança para vencermos lá. Quando fomos jogar lá, passaram tudo para nós, “eles nunca perderam aqui” e o estádio parecia mais uma prisão porque na parte de cima do estádio tinha arame farpado. Esse tipo de coisas também motiva. Na altura, acho que até foi o Mourinho que disse: “Os tabus são para ser quebrados. Eles nunca perderam? Então vai ser hoje”. Era o tipo de coisa que essa equipa tinha. Mas esse foi um dos grandes jogos. Eles jogavam muito e eles ao ganharem o primeiro jogo pensaram: “Vamos para cima deles e vamos ‘matá-los’.” Nós a meio da primeira parte fizemos o 1-0 e isso também os colocou no lugar deles.
BnR: E como é que tiveste forças para fazer aquela arrancada aos 103 minutos?
D: Eu me lembro que no prolongamento, o Mourinho mudou o sistema de jogo de 4-3-3 para 4-4-2 e eu passei a jogar mais entre as linhas da defesa. Depois tínhamos o Deco que tinha um grande conhecimento a meu respeito e quando ele recebe a bola, eu parti para dar uma opção para ele no ataque. Na hora que eu saio para correr entre o Seitaridis e o defesa central, o Deco mete a bola justamente nesse espaço e o Seitaridis só vê a bola sair e sai para me acompanhar correndo, só que o pensamento dele está só para observar os meus movimentos e com isso a bola bateu nas costas dele e eu como estava de lado para o lance consegui ver a trajetória da bola, ganhei a bola, entrei na grande área e consegui marcar o segundo golo. Mais tarde quando joguei com ele falei: “Você me consagrou naquele dia porque se a bola não bate nas suas costas, ficava mais difícil”. Depois é como você frisou, eles acabaram por jogar com Portugal no Euro 2004 e basicamente foi a base da equipa do FC Porto contra a base da equipa do Panathinaikos.A final do Euro 2004 foi o que aconteceu no Estádio das Antas. Portugal em cima da Grécia, nós também em cima deles, basicamente foi igual.
BnR: Naquela altura vocês pareciam uma equipa invencível e a vitória frente à Lazio por 4-1 é prova disso. Quando vencem de forma tão categórica a Lazio de Simeone, Claudio Lopez, Fernando Couto, sentiram que tinham tudo para ganhar o troféu?
D: A Lazio tinha grandes jogadores da seleção Argentina, Simeone e Claudio Lopez, tinham ainda Mihajlovic e o próprio Peruzzi. A equipa da Lazio era uma das grandes seleções do Mundo e das equipas que estavam na meia-final, para mim era a favorita. Nós fomos jogar de igual para igual, frente ao Fernando Couto e Mihajlovic na defesa. Eu me lembro que até o Jorge Costa me falou: “Cuidado com o Fernando Couto, que ele não brinca” (risos). Ele tinha essa raça e dureza que cultivou no FC Porto, mas a dupla de defesas também tinha muita técnica. O Postiga até comentava: “Hoje vou apanhar como uma criança” (risos). Mas em nenhum momento, nem o Fernando Couto, nem o Mihajlovic foram desleais. Nenhum jogador da Lazio fez algo fora do normal. Acho que dessa campanha esse foi o jogo quase perfeito que fizemos.
BnR: Na última sexta fez 17 anos desde a final épica de Sevilha, digna de filme. Cinco golos, num jogo sem Postiga e Jankauskas, em que tu e o Larsson fazem dois golos e são os melhores marcadores da prova. O Jorge Costa sai lesionado e o Nuno Valente acaba expulso. Como é que te sentiste quando marcaste o terceiro golo e deixaste Mourinho e Pinto da Costa a chorar e trazes a primeira Taça UEFA para a sala de troféus do FC Porto?
D: Quando se fala desses momentos, do próprio Mourinho emocionado e do próprio Presidente, que esperou desde 1987 para viver uma conquista europeia novamente, o que me vem à memória é: “Nós conseguimos!”. Naquela equipa não existia nenhum jogador que tinha um tratamento diferente ou que se preservava. Todos se davam da mesma forma e aquela final foi a realização de tudo aquilo que se tinha proposto durante toda a temporada. Toda a dedicação e o sacrifício enquanto grupo ela estava a ser evidenciada ali.
– Uma história de superação: Da grave lesão à glória em Gelsenkirchen –
“Eu estou vindo para cá, mas não vim para passear. Eu estou vindo para fazer a diferença”
BnR: No ano seguinte vencem a Supertaça e são bicampeões, mas é a campanha na Liga dos Campeões que merece mais destaque. Quando são sorteados no grupo F com Partizan, o Marselha de Drogba e os galácticos do Real Madrid, qual foi o pensamento do grupo?
D: Eu me lembro que nós vimos o sorteio e nós começamos a ver as possibilidades de ultrapassar esses adversários. “Dá para chegar na frente do Marselha e do Partizan, então dá para classificar”. Com todo o respeito que tínhamos por essas equipas, o Real Madrid era aquela equipa que dificilmente iria ficar pelo caminho e que ia roubar pontos a todos. No nosso caso nós até conseguimos conquistar um ponto contra o Real.
BnR: Até acabas por ser tu a marcar o golo de penalty. Como é que foi para ti marcar no Santigo Bernabéu frente ao Real Madrid de Figo, Zidane, Ronaldo e muitas mais estrelas?
D: Quando sabemos que temos o Real Madrid no grupo, a primeira coisa que a gente pensa é de desfrutar dos jogos. O Real Madrid nesse ano tinha os três ou quatro melhores de elite pela FIFA. Nós sabíamos que o ambiente no estádio ia estar fantástico, dentro do campo também ia ser um jogo bem disputado. Quando fomos jogar a Madrid já estavam as duas equipas qualificadas e nós tínhamos a possibilidade de ficar em primeiro lugar no grupo e era essa a nossa motivação. Nós queríamos ter vencido esse jogo de qualquer forma para não apanhar o Manchester United, que era outro Real Madrid.
BnR: Apesar de esse ter sido o ano da consagração do FC Porto, esse também é o ano da lesão do Derlei, naquele que consideras o “momento mais difícil no FC Porto”. Quatro meses parado, 12 golos em 15 jogos e falhas os oitavos e quartos de final da Champions. O que te custou mais nessa altura?
D: Eu acredito que nessa temporada eu estaria “brigando” com o Benni [Mccarthy] pela artilharia do campeonato. Eu ia fazer mais golos do que no campeonato anterior. Quando vem a lesão eu até tinha marcado o 13ºgolo e tenho um amigo que brinca: “Está vendo? Se você não tivesse marcado o 13ºgolo naquele dia, não teria tido esse azar” (risos). Veio a lesão e eu já sabia que não ia jogar mais aquela época. O diagnóstico que eu tive foi: “Vamos fazer a recuperação, mas esta época está descartada”. Para você ter uma ideia, eu me lembro que nós fomos de Alverca para o Porto e eu fui no autocarro sentado lá trás, só que eu fui tomando cerveja tranquilamente e eu coloquei na cabeça: “Vou fazer a cirurgia e fazer o que tem de ser feito”. Conforme se foi dando a recuperação, o Dr. José Carlos Noronha, que também tinha operado o César Peixoto com a mesma lesão, aplicou fatores de crescimento e o meu organismo reagiu bem melhor do que o do César Peixoto. Tanto que depois de dois meses de lesão eu já tinha alcançado o César Peixoto a nível de recuperação. Então com essa evolução, ao fim de quatro meses eu já estava em campo e pude chegar ainda no último jogo da meia-final.
BnR: Poucos sabem, mas essa lesão também acaba por atrasar e impedir a tua naturalização por Portugal. Podes falar um pouco mais sobre isso?
D: O processo tinha-se iniciado no ano anterior e a princípio, se tudo corresse bem, no início desse ano de 2004, eu já poderia ter recebido a naturalização. Esse processo foi iniciado para poder jogar na seleção nacional. O próprio Scolari via que eu tinha características para poder ajudar a seleção nacional. Eu acho que é a honra máxima um atleta poder representar a seleção. Jogar pela seleção portuguesa seria para mim uma honra muito grande porque Portugal deu-me tudo e devo a Portugal o atleta que me tornei. Neste momento ainda só não estou a morar em Portugal por causa de questões familiares, mas sempre que posso vou a Portugal.
BnR: Regressas frente ao Alverca e o Paulo Ferreira chegou a dizer que até ficou arrepiado quando entraste e todo o estádio entoou a tua música. Sentiste, de facto, que esse foi um momento arrepiante e que os adeptos tinham um grande carinho por ti?
D: Para mim é o momento mais importante da minha carreira. É como marcar um golo. A forma como o estádio e os adeptos me abraçaram fez com que esse fosse o ponto mais alto da minha carreira.
BnR: Foi melhor do que aquele golo de penalty na meia-final ao Molina frente ao Corunha que carimbou a passagem à final?
D: O golo é muito mais importante para a equipa em si e muitos dos golos ficam marcados na memória dos torcedores, mas para o atleta, no meu caso, o regresso da lesão foi o momento mais alto da minha carreira. Quando você é desejado e aplaudido por todos unanimemente, você sabe que atingiu o topo da carreira.
BnR: Aquele penalty acaba por ser um remate de raiva face à longa paragem?
D: Não, de forma alguma. Eu sempre lidei muito bem com as lesões que eu tive. Nunca pensei que tinha perdido tempo, pelo contrário, acho que amadureci e que foi um período de aprendizagem. A única coisa que eu tinha na cabeça no momento do penalty foi marcar o golo, a concentração estava máxima. Se vocês notarem nas filmagens, quando o Deco cai e ganha o penalty, eu já vou caminhando em direção à área já me concentrando no que eu ia fazer. É evidente que o Molina, com aquele tamanho todo, eu tinha que cobrar bem se não ele pegaria.
BnR: Fez ontem 16 anos desde a vitória em Gelsenkirchen, numa das finais mais surpreendentes da Champions, onde defrontam o Mónaco e vencem 3-0 de forma categórica. Para um rapaz que cresceu nas favelas, que se viu obrigado a parar quatro meses e que recupera a tempo de contribuir e vencer a final, o que significou este troféu para ti?
D: Para as pessoas que acompanham a tua carreira, as pessoas imaginam que esse é o momento mais alto da carreira de um atleta profissional, ganhar o título da Champions League é o que todos os atletas desejam. Ali eu estava chegando no topo da minha carreira. Mas o momento mais importante foi mesmo voltar da lesão. A nível de carreira num todo, certamente que só pode tocar naquela Taça quem é campeão. É um privilégio enorme jogar uma final da Champions e poder levar o troféu para casa.
BnR: “Eu não vou para o FC Porto para passear nem ser mais um”. Sabes quem disse esta frase?
D: Esse aí fui eu, de certeza!
BnR: Foste uma das figuras centrais e dos mais decisivos da época de ouro mais brilhante dos azuis e brancos vencendo dois troféus europeus seguidos. Podemos mesmo dizer que não foste “apenas mais um”.
D: Com certeza. Essa era a confiança que eu tinha no meu trabalho. Na altura muitos jogadores brasileiros tinham passado pelo FC Porto, grandes jogadores consagrados e muitos não tinham vingado lá, inclusive no ano anterior o FC Porto acabou por dispensar vários jogadores brasileiros de excelente qualidade. Quando as pessoas falaram: “Vem mais um brasileiro dos clubes pequenos”. E eu falei: “Eu estou vindo para cá, mas não vim para passear. Eu estou vindo para fazer a diferença”.
BnR: Sentes que o futebol português mudou com essas conquistas de 2003 e 2004?
D: Sem dúvida e a prova disso é que logo em 2004 a seleção nacional chegou à final do Europeu. A base dessa equipa e a forma de jogar desses jogadores era do FC Porto. Portugal evoluiu tanto, que hoje, os melhores treinadores do Mundo são portugueses. Um país com uma densidade populacional tão pequena ter tantos treinadores treinando no topo do futebol nacional é incrível. Foi uma revolução! Estamos a falar de treinadores jovens que absorveram a experiência dessa geração para se transformarem hoje nos treinadores que são.
BnR: Nessa altura, Mourinho construiu uma super-equipa com jogadores da Liga Portuguesa. Achas possível, hoje em dia, repetir um feito europeu semelhante só com jogadores vindos de equipas da Primeira Liga Portuguesa?
D: Se formos analisar, o pensamento do Mourinho era ser campeão nacional. Ele queria jogadores que estavam adaptados ao futebol português. A obrigação era ser campeão nacional. Ser campeão da Europa, estava em segundo plano. Os atletas também evoluíram muito, tanto que o Paulo Ferreira, o Ricardo Carvalho, Nuno Valente e tantos outros, acabaram por ir para grandes clubes pela Europa fora.
-Da saída conturbada do FC Porto ao regresso a Portugal ao serviço dos rivais da Segunda Circular-
“Quando eu pedi para regressar a Portugal, a minha intenção era regressar ao FC Porto”
BnR: Pelo FC Porto ainda vences a Taça Intercontinental antes de rumares ao Dínamo de Moscovo. Hoje em dia, ainda guardas alguma mágoa com Victor Fernandez por teres saído do FC Porto daquela forma?
D: Eu nunca guardei mágoa de ninguém na minha vida. É como eu falei: você toma as decisões e as consequências vêm no futuro. Tenho muito respeito pelo SL Benfica que foi campeão nacional naquela temporada, mas se algumas abordagens ao nível do balneário do FC Porto tivessem sido diferentes, com certeza que o FC Porto teria sido campeão nacional. Se não me engano, nesse ano o FC Porto trocou três vezes de treinador. Perdeu-se o título porque, na minha modesta opinião, as coisas estavam mal geridas dentro da equipa. Se o treinador, tivesse consertado esses erros logo no princípio, com certeza a equipa teria sido campeã nacional.
BnR: Gostavas de ter tido mais apoio do Presidente?
D: Na verdade o Presidente não pôde fazer nada. O Presidente sempre me apoiou desde o primeiro dia que cheguei até ao último dia que saí. A própria direção do FC Porto nunca foi contra o Derlei, pelo contrário, sempre me apoiaram. Mas pela forma como eles dirigem o clube e sabem que em primeiro lugar está a instituição, eles respeitaram a decisão do treinador, porque ele também tem essa autoridade. Eu converse e falei: “Desculpe, mas com esse treinador eu não vou trabalhar mais. Eu não tenho futuro no clube enquanto ele estiver aqui”. A decisão de sair partiu da minha pessoa porque eu sabia que se eu ficasse ali, eu ia causar um mal-estar dentro do plantel. A partir do momento em que ele me afasta, me acusando de uma coisa que eu não fiz, em que eu tive que acatar isso e depois de quatro/cinco dias me envia um recado a dizer que eu podia treinar novamente e que eu poderia ser útil no fim de semana, talvez até ele tenha percebido que tinha sido injusto, mas eu já tinha tomado a decisão de que não trabalharia mais daquela forma porque eu não sou desleal com ninguém.
Fonte: Facebook de Derlei
BnR: Terias terminado a carreira no FC Porto?
D: Com certeza. Na verdade, eu quis sair do Dínamo no segundo ano porque eu percebi que na metade da segunda época as coisas tinham ficado difíceis para a equipa se fortalecer, pelo contrário, a equipa estava enfraquecendo. Também já existiam alguns problemas na parte da direção porque o Fedorychev, que era o dono maioritário do clube, já estava pensando em vender o clube novamente. Quando eu pedi para regressar a Portugal, a minha intenção era regressar ao FC Porto. A primeira opção era voltar para o FC Porto, mas naquela altura o FC Porto tinha um ataque muito forte com o Lisandro Lopez e em vez de contratar avançados o FC Porto estava vendendo. Quis regressar ao FC Porto, mas não estavam dispostos a isso, em contratar um jogador como eu, até pelas questões salariais e pelo que eu poderia produzir dentro um plantel que já estava formado e bem preenchido. Já com o SL Benfica na altura, o Fernando Santos precisava de reforçar com avançados porque o Miccoli vinha sofrendo com muitas lesões e eu fui para lá. Infelizmente as coisas não correram totalmente do jeito que eu imaginava.
BnR: Apesar de na altura da tua saída do FC Porto já estares perto dos 30 anos, nunca tiveste uma proposta de um grande clube europeu depois de teres vencido a Taça UEFA e a Liga dos Campeões?
D: Se eu quisesse sair do FC Porto, principalmente no início da época, tinha propostas de outros clubes de dimensões maiores. Porém, o que aconteceu naquele momento é que ninguém colocava em questão o Derlei sair do FC Porto. O que aconteceu foi que o treinador criou uma situação dentro do clube onde eu me senti lesado e falei para o Jorge Mendes e para o Presidente que não queria mais ficar. Na altura surgiu o Corinthians, mas a minha esposa disse que não era o momento de voltar para o Brasil. Depois o Jorge falou que o Fedorychev estava criando uma super-equipa na Rússia na altura em que estava abrindo a janela do mercado. Tanto que, quando o Jorge falou com o Presidente que eu queria sair, o Presidente falou: “Não, ele não vai sair. Nesta altura o clube não quer vender ninguém, só no final da temporada”. Mas eu falei “Presidente, eu quero sair. Não posso ficar, nem treinar com esse treinador”. O treinador me acusou de uma situação que eu não causei e que eu não fiz. Não é por causa de um treinador que se troca de jogador, é mais fácil que um jogador saia e então foram abertas as portas para que eu pudesse sair e pela situação eu queria sair o mais rápido possível, para não alimentar especulações dentro do clube.
BnR: Reencontras o Nuno Espírito Santo em Moscovo. Porque é que ele foi o “tipo mais inteligente” com quem te cruzaste no futebol?
D: O Nuno, intelectualmente falando, era muito evoluído. Gosta de ler muito, presta muita atenção nas coisas. Ele sempre foi um atleta muito diferente. Ele trabalhava e treinava muito para aqueles momentos em que o Vítor Baía não ia jogar, tanto que ele passou muito tempo na reserva do Baía. Ele sabia muitas vezes que não ia jogar e aproveitava esse tempo para estudar e desenvolver alguma coisa. Antes de ele terminar a carreira como atleta, o Nuno já pensava no que ia fazer no futuro. Via-se que ele podia se transformar, tanto num grande dirigente, como num grande agente, algo ligado ao futebol, tal como tem sido agora um grande treinador.
BnR: Estavas a ter um bom desempenho na Rússia com 24 golos em duas épocas. Na segunda época és o segundo melhor marcador do campeonato e por isso foi uma surpresa quando regressas a Portugal para o…Benfica. Porquê voltar a Portugal e porquê o Benfica?
D: Tive dois anos maravilhosos na Rússia a nível individual. Quando fui de férias sabia que, num futuro próximo, o Dínamo já não seria como era a nível de administração. Conversei com o meu empresário e falei: “Jorge quero voltar a jogar a Champions League e campeonatos europeus”. O Fedorychev entendeu e até me fez uma proposta para jogar na Suíça, que ele tinha lá investimentos. Mas eu gostava era de ir para Portugal e o Jorge falou com o Presidente do SL Benfica, que falou com o Fernando Santos e ele disse que me queria. O problema foi o timing, porque se fosse logo depois que eu saí da Rússia, eu vinha treinar para Portugal até ser inscrito. Então eu fiquei três meses sem jogar e a situação com o Benfica foi fechada na segunda metade do mês de janeiro. Basicamente eu iniciei a competição fazendo uma pré-temporada enquanto todos estavam a 200% e isso prejudicou bastante o meu desempenho e fiquei triste por não poder colaborar mais com a equipa, mas feliz por os companheiros que encontrei lá e pela forma como o clube me recebeu. Até hoje, tenho um respeito muito grande pelo Presidente e pelas pessoas.
BnR: Na época seguinte segue-se o Sporting CP. Foi para ti uma questão de orgulho ferido regressar uma vez mais a Portugal para de alguma forma corrigir a prestação mais apagada que tiveste no SL Benfica?
D: Não, até porque eu nem imaginava que o Sporting CP estaria interessado pelo meu desempenho nos últimos meses no SL Benfica, que realmente não foi uma prestação ao nível do Derlei. Quando surgiu o interesse do Sporting CP eu fiquei contente porque eu também não iria ter de mudar de cidade e eu já estava em Lisboa com a minha família. Nós até já estávamos com o pensamento de que iriamos sair novamente de Portugal e possivelmente, não com 100% de certeza, o destino era Espanha ou Itália. Fui para o Sporting CP e aí já iniciei desde o princípio e fiz uma boa pré-temporada. Infelizmente veio outra lesão grave e eu dei pouco nessa temporada. Mas foram dois anos importantes em que pude ajudar na conquista de duas supertaças e uma taça.
BnR: Na tua segunda época até ficam muito perto do título, apenas a quatro pontos do FC Porto.
D: Infelizmente o Sporting CP, financeiramente, não tinha capacidade para brigar com o FC Porto e o SL Benfica para que pudesse reforçar um pouco mais o plantel em momentos decisivos, sobretudo jogadores mais experientes, porque a equipa era formada por miúdos. Por exemplo, no segundo ano, na temporada 2008/09, houve um período que fomos de férias de Natal e quando parou o campeonato nós estávamos a um ou dois pontos do FC Porto. Quando voltamos das férias de Natal, se vencêssemos um jogo na Madeira, nós passaríamos para a frente do campeonato e na altura eu conversei com o plantel: “Se nós vencermos os cinco próximos jogos que temos neste reinício, com certeza que vamos embalar e vamos ser campeões nesta época”, mas infelizmente a equipa vacilou e o FC Porto continuou na liderança.
(Bis de Derlei pelo Sporting CP frente ao FC Porto: Golos 8:50 e 10:45)
BnR: Na altura falou-se que os adeptos do Sporting criaram uma petição para que ficasses pelo menos mais uma época. Porque é que quiseste regressar ao Brasil?
D: Nessa altura a minha decisão era encerrar a carreira, não era de voltar ao Brasil para jogar futebol. Pelo que via no Sporting CP, dificilmente iriam montar uma equipa mais forte do que a que tinha para poder brigar por títulos. Já tinha falado com o Paulo Bento em relação a isso também e eles vinham-me tentando convencer. Mas eu já estava preparado para deixar de jogar futebol e já tinha falado com a minha família para voltarmos ao Brasil, principalmente pelos familiares que estavam aqui. Quanto à petição, eu não tinha forma de agradecer aos adeptos todo o carinho e a força que me deram durante a recuperação.
– Do ponto final na carreira à atualidade desportiva –
“Para se voltar a jogar futebol sem adeptos, o melhor seria cancelar a competição”
BnR: Acabas carreira em 2010 no Madureira um clube que já tinha representado em 1999. Para ti não foi difícil deixar o futebol?
D: Porque na verdade eu já me tinha decidido antes que eu jogaria até aos 34/35 anos, dependendo da situação que eu estivesse e da perspetiva. Eu acho que, quando você joga futebol simplesmente pela questão financeira sabendo que dificilmente você vai alcançar objetivos é como se você vivesse sem coração. Por aquilo que eu vivi dentro do Sporting CP naqueles dois anos, sabendo da inconsistência política que o clube vivia, dificilmente iríamos de ter condições para lutar pelo título nacional. Tanto que passando estes anos todos, o Sporting CP só piorou.
BnR: Em relação ao Jorge Jesus, surpreendeu-te o sucesso dele no Flamengo?
D: Aconteceu com o Jorge Jesus algo inédito e realmente incrível. O que aconteceu com Jorge Jesus foram dois fatores que realmente influenciaram muito no sucesso dele. Primeiro, tanto quanto sabemos, o primeiro convite que o Jorge Jesus recebeu não foi do Flamengo. Uma vez que ele aceitou esse convite, o Flamengo é o clube mais rico do Brasil. É o clube que financeiramente estava melhor estruturado, tal como o Palmeiras. Ou seja, assumindo o Palmeiras ou o Flamengo, as chances de êxito é de 50% para cima comparado com os outros clubes. Quando você tem um poder financeiro num clube tão grande como este, é normal que você consiga juntar os melhores jogadores do país. Quando o Jorge Jesus chegou, o Flamengo já era dos melhores ataques do campeonato brasileiro e ele chegou e consertou também a defesa do Flamengo que sofria muitos golos. E na equipa do Flamengo, 80% dos jogadores titulares já haviam atuado no futebol europeu. Ou seja, são atletas que já sabem a forma de treinar do técnico europeu.
BnR: Conviveste com o Mourinho durante três anos em dois clubes diferentes. Nunca te deu o “bichinho” para seguires a carreira de treinador?
D: No final do ano passado eu até tive uma conversa com ele em relação a isso e ele perguntou: “O que é que tu queres fazer?”. E eu respondi: “Cara, eu não sei se tenho perfil para trabalhar dentro do campo, acho que vou continuar fora do campo”. Mas, até antes desta pandemia, muitos amigos meus vêm me pedindo para que eu fizesse os cursos e fosse fazer carreira de treinador pela facilidade que tenho de comunicar com os jogadores. Cheguei até a inscrever-me aqui num curso da CBS, mas não é o primeiro objetivo, é mais para enriquecer o currículo para estar preparado para qualquer situação. Para já o principal objetivo é trabalhar fora das quatro linhas.
Fonte: Facebook de Derlei
BnR: O Brasil é neste momento o terceiro país com mais casos e covid-19 no Mundo. Como é que estás a viver esta situação em São Bernardo do Campo?
D: Infelizmente a gente acaba por apontar o dedo sempre à direção. O povo é como um rebanho, os governantes são os pastores e o povo são as ovelhas e as ovelhas vão para onde o líder indica. Não estou aqui acusando o Presidente, o que eu acho é que os dirigentes devem ser as primeiras pessoas a dar a cara e mostrarem a direção às pessoas e neste momento o povo brasileiro está todo perdido e sem rumo. Houve a troca de ministros da Saúde em dois meses. Isso mostra a fragilidade muito grande a nível de administração e de conhecimento por parte da direção do país. Isso é inadmissível em qualquer país, mas aqui no Brasil essas coisas acontecem e as pessoas acham normal.
BnR: Em Portugal o campeonato já tem data prevista para começar a 3 de junho. Concordas com o regresso da competição? Qual achas que seria a melhor solução?
D: Eu acho muito ruim, enquanto atleta, parar o campeonato como aconteceu na reta final. Treinar em casa não é igual, a motivação é outra e você basicamente não tem musculatura. Depois de dois meses, vamos voltar, mas sem adeptos só para cumprir o protocolo, porque a finalidade do futebol profissional são os adeptos. Sem público não existe espetáculo. O que eu penso é que, para se voltar a jogar futebol sem adeptos e apenas pela televisão, o melhor então seria cancelar a competição. A partir do momento em que você libera shoppings, praças e transportes públicos, então porque o futebol não volta? Se num estádio cabem 40 mil pessoas e não se quer colocar 40 mil pessoas, então coloca-se 15 ou 20 mil pessoas e já era um público muito bom.
Passes-Curtos
BnR: Se não tivesses sido futebolista o que terias sido?
D: A primeira coisa que eu queria ser era piloto de caça.
BnR: Antas ou Dragão?
D: O Estádio do Dragão era um estádio maravilhoso e eu tive oportunidade de marcar o primeiro golo nele. Agora, não havia nada igual ao Estádio das Antas,
BnR: Qual foi o melhor golo que já marcaste?
D: Por incrível que pareça, o melhor golo que eu já marquei na minha vida foi um golo que nunca foi filmado. Foi um golo que marquei jogando com os meus amigos valendo um troféu de bairro, em que eu faço três chapéus e faço golo de bicicleta.
BnR: Esta é um pouco óbvia, mas qual foi o melhor treinador que tiveste?
D: Com certeza, José Mourinho.
BnR: Melhor guarda-redes com quem dividiste o balneário?
D: O melhor guarda-redes foi o Vítor Baía. O Nuno Espírito Santo é que jogou muito pouco, porque eu cheguei a jogar na Rússia e o Nuno tinha uma liderança incrível. Só que o Vítor não tinha só a liderança, ele era um ícone.
BnR: Melhor defesa?
D: Eu joguei com alguns “monstros”. O Luisão, Polga, Ricardo Carvalho, Pepe e o próprio Éder Gaúcho no Leiria. Mas o Jorge Costa, na minha modesta opinião foi o melhor central que tive oportunidade de jogar.
BnR: Melhor médio?
D: Defensivo ou ofensivo? (risos)
BnR: Pode ser um de cada.
D: O melhor trinco com certeza foi o Costinha. Depois eu tenho de falar no Maniche e Alenitchev. Daqui a pouco você me diz que eu só estou falando só de jogadores do FC Porto, mas eles não jogaram só no FC Porto. Agora, craque, craque, craque, o melhor craque com quem eu joguei na minha vida, o cara que era um Maradona e um Zidane era o Deco.
Fonte: Facebook de Derlei
BnR: Também foi o melhor jogador com quem jogaste?
D: O Deco era dois Derleis. O Deco era o Alenitchev mais o Derlei juntos. O Deco tanto jogava, com defendia, batia livres, só faltava fazer golos de cabeça
BnR: Melhor companheiro de ataque?
D: Eu joguei um ano só com o Jacques e o Maciel no Leiria e a gente se completava. Mas o melhor companheiro de ataque, que atuei dois anos seguidos com ele, foi o Liedson.
BnR: Qual era a equipa mais agressiva: o Boavista do Jaime Pacheco ou o Celtic da final da Taça UEFA?
D: Naquela altura, o que viesse na final da Taça UEFA, a gente já sabia que ia ser dureza (risos). Mas a equipa do Jaime Pacheco era muito mais porque se um jogador não fizesse uma falta ele tirava o jogador e colocava outro para fazer a falta e isso são relatos de quem vinha de lá do Boavista.
BnR: Taça UEFA de 2002/03 ou Liga dos Campeões de 2003/04?
D: Eu ficava com a Taça UEFA, não só por ter marcado os golos, mas porque foi o primeiro título e o mais importante para nós. Sem a Taça UEFA, dificilmente nós chegaríamos ao título da Champions League. Mas a nível de peso e história, eu tenho que ficar com a Champions League.
“Ele é o Ninja, o nosso Ninja. Ele entra em campo sempre a lutar, e todos sabem que ele vai marcar. Ele é o Ninja, o Ninja, é o Derlei”.