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Transferências para clubes de Topo: Será a nossa Liga assim tão má?

Bruno Alexandre Rodrigues · 9 min

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Hoje falamos de transferências no futebol português. Numa altura em que o futebol está parado, é tempo de reflexão, de repensar aquilo que tem acontecido ao longo dos últimos anos dentro e fora de portas.

Fala-se que o nosso campeonato tem perdido a competitividade e a qualidade, que as equipas que vão jogar fora de Portugal têm cada vez menos capacidade de ombrear com muitas das equipas que lá estão presentes, que existe um enorme desequilíbrio nas questões financeiras e, consequentemente, transferências entre os clubes da Liga Portuguesa, entre muitos outros pontos.

De facto, acredito que o nosso campeonato possa ter perdido qualidade. No entanto, no que à competitividade se refere, já não existem os resultados fáceis de prever, a certeza de que o “dito” grande português vai ganhar aquele jogo seja em que casa for. Há cada vez mais mérito, bom trabalho e qualidade, tendo em conta os recursos disponíveis, nas restantes equipas do campeonato português e isso deve ser reconhecido. Não se trata apenas do regredir da capacidade entre os grandes, mas também do desenvolvimento e progresso, do trabalho com cada vez mais qualidade e do querer jogar futebol por parte destes clubes.

As questões financeiras, as distribuições dos direitos televisivos, entre outras, têm um peso fundamental nesta competitividade de que se fala. É obvio.

Da mesma forma que qualquer grande europeu dá 70/80/100 milhões de euros por transferências de jogadores para que estes se juntem ao seu plantel, um grande português dá 7/8/10 e agora 20, e qualquer outro clube da Liga Portuguesa tem capacidade para apenas dar alguns milhares ou 1/3/4 milhões para contratar alguém a seu desejo ou necessidade. Não serão estas diferenças entre clubes europeus e os portugueses que vão à europa e entre esses e as restantes equipas portuguesas, diferenças equiparáveis?

Ao longos dos últimos anos, inúmeras são as provas de que o nosso campeonato tem e cria qualidade, o nosso país é um formador de alta qualidade em todas as vertentes, o que resulta em transferências bem interessantes para os clubes portugueses. O nosso futebol cria e desenvolve indivíduos extremamente competentes e, no futebol, temos sido exímios e servido de escola formadora que mais tarde preenche as fileiras dos grandes clubes europeus.

Enuncio, então, uma lista dos últimos cinco anos das maiores transferências dos clubes portugueses para os grandes clubes europeus, ou então que mais tarde vieram a entrar nestas ligas.

Transferências da Liga Portuguesa para as Ligas de Top Europeu

Época 2015/16

Jogador Quantia (milhões) Clube Vendedor Clube Comprador Clube atual
J. Martínez 37,1 FC Porto C Atlético Madrid Portimonense SC
Danilo 31,5 FC Porto Real Madrid CF Juventus FC
Rodrigo M. 30 SL Benfica Valência CF =
Alex Sandro 26 FC Porto Juventus FC =
André Gomes 20 SL Benfica Valência CF Everton FC
João Cancelo 15 SL Benfica Valência CF Man. City FC
Cédric S. 9,5 Sporting CP FC Southampton Arsenal FC
Fabinho 8 Rio Ave FC AS Mónaco Liverpool FC

 

No final da época 2014/15, Jackson Martínez tinha terminado com 35 golos em 42, tinha sido preponderante na conquista do campeonato português em 2012/13 e saiu para o Atlético de Madrid com 92 golos em 136 jogos pelo FC Porto. Não assumiu papel de destaque na única época que esteve no Club Atlético Madrid, contando com 3 golos em 22 jogos pelos colchoneros.

Dos restantes, há a destacar a continuidade, a frequência e a qualidade com que Alex Sandro se vem apresentando ao longo dos cinco anos em que o brasileiro se encontra na Juventus FC, contando já com 188 jogos pelo clube. Realçar também, apesar de nunca ter jogado pelo Rio Ave FC, as transferências de Fabinho, que pertence, neste momento, ao atual campeão europeu e que tem feito épocas de alta qualidade e de Rodrigo Moreno. Este último tem, também, realizado nas últimas temporadas grandes desempenhos com muitos golos.

Após duas últimas grandes épocas a representar o Sporting CP, João Mário segue para o FC Internazionale por 40 milhões de euros. Tendo algum destaque na 1ª época nos italianos, o médio português foi perdendo o seu lugar e neste momento encontra-se emprestado aos russos do Lokomotiv de Moscovo.

Não é demais destacar Diogo Jota. O português tem estado ao mais alto nível em termos de desempenho e, também, tendo em conta o clube e a liga em que se encontra. Comprado em 2016/17 pelo Club Atlético Madrid, nunca realizou um jogo pelo clube de Madrid, no entanto, desde que chegou a Inglaterra tem 43 golos em 120 jogos e tem realizado performance de alto nível, assumindo total preponderância nos Wolves de Nuno Espírito Santo, tendo até já representado a seleção nacional por duas vezes.

Realçar também Gonçalo Guedes que não teve espaço nos milionários franceses, tendo realizado apenas 13 jogos, mas que assumiu nas últimas três épocas no Valência CF um papel de destaque com 91 jogos realizados e 14 golos marcados.

Dos restantes, de referir a recente boa forma e qualidade de desempenho de Renato Sanches nos franceses com 30 jogos realizados, quatro golos marcados e uma demonstração da muita capacidade evidenciada no SL Benfica e no Euro 2016, e trabalhada e construída em Munique.

Após ser bicampeão e sair com o tetracampeonato da equipa da Luz, Ederson Moraes sai para o Manchester City FC e sem qualquer dificuldade conquista Pep Guardiola e assume um papel muito importante até ao momento.

Nesta época, saem de Portugal também: André Silva que não se conseguiu afirmar em Milão devido à instabilidade no clube, tendo participado em 40 jogos e de momento, encontra-se, por empréstimo, em Frankfurt onde até agora esteve a bom nível; Nélson Semedo que tem realizado três épocas de muito bom nível no FC Barcelona de Lionel Messi, onde já se sabe da dificuldade da integração de um português no clube, tendo realizado até ao momento 111 jogos pelos catalães;

Victor Lindelöf que entrou em Manchester numa altura difícil mas que, neste momento, tem o seu lugar cimentado no 11 inicial; Adrien Silva que teve prejuízo com a situação que sucedeu com a sua transferência e que nunca assumiu papel importante nos ingleses e, agora, encontra-se emprestado ao AS Mónaco e Rúben Neves, que não precisa de muitas palavras, tal tem sido o seu desempenho e exibições nos ingleses, com golos espetaculares e preponderância no destino da equipa.

No início desta época, saem de Portugal: Gelson Martins para o Club Atlético Madrid sem grande sucesso pois viria a ser emprestado ao AS Mónaco, clube que o contratou no início da última época;

Diogo Dalot para o Manchester United FC numa perspetiva de imediato, mas com projeção para o futuro; Ricardo Pereira e Merih Demiral encontram-se a recuperar de uma lesão grave no joelho, no entanto ambos tinham um papel importante e de destaque.

Rui Patrício assumiu, naturalmente e como era de esperar, a posição de guarda-redes assim que chegou a Inglaterra à equipa de Nuno Espírito Santo e tem feito exibições de classe mundial.

William Carvalho e Rafael Leão têm sido algo inconstantes, tendo o jogador do Real Betis Balompié falhado uma grande quantidade de jogos e o avançado português perdido algum espaço com a entrada de Zlatan Ibrahimovic e, também, sendo afetado pela instabilidade que assombra o clube milanês.

Na última época, com a emergência como um grande talento no SL Benfica, João Félix é contratado pelos colconheros por 126 milhões de euros (um valor nunca antes visto nas transferências do futebol português). Valor este que, a par de Renato Sanches, noutros valores e noutro momento, o sobrecarregaram com pressões e expetativas externas ao futebol, que em nada abonam a seu favor, ainda assim, o português tem merecido destaque no clube e na imprensa estrangeira, apesar de acreditar que pode não ser o estilo de jogo que mais o favoreça.

Bruno Fernandes chega ao Manchester United FC e torna-se imediatamente fundamental para a tranquilidade e desenvolvimento dos Red Devils, tal a qualidade do médio e a necessidade de uma referência do clube inglês e, até ao momento, tinha demonstrado ser uma bela aposta.

Éder Militão e Luka Jovic chegam ao CF Real Madrid depois de uma época anterior de alto rendimento, mas não se conseguem impor no clube espanhol nem convencer, também devido à má fase dos madrileños.

Felipe e Tapsoba demonstraram capacidade e justificaram as suas transferências perante os seus clubes mais recentes e assim têm estado a um bom nível.

Podemos, enquanto país e liga desportiva, não ter construído os alicerces para conseguir manter os melhores jogadores, ou os maiores talentos de modo a que o nosso campeonato se eleve a outro patamar, no entanto, conseguimos formar e criar qualidade e capacidade futebolística. Contratamos a baixo preço e temos a competência para valorizar qualquer ativo no momento das transferências, melhoramos as nossas escolas de formação e a formação de treinadores, no entanto existem sempre retrocessos neste processo.

Há muita coisa a alterar, isso é certo. Pode ser que este momento que vivemos, sirva para que exista um espaço de reflexão e ponderação sobre o panorama atual do futebol português.

Bruno Alexandre Rodrigues

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