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Visão de jogo, rapidez e canudo na mão

André Maia · 3 min

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Cabeçalho Futebol NacionalQuando era apenas uma criança – ainda mais do que sou agora – tinha como sonho ser jogador de futebol. Até aqui não devo estar a dar nenhuma novidade, visto que, arrisco dizer, mais de 80% das crianças rapazes desejam ser futebolistas. Muitos tentarão. A maioria ficará apenas pelo sonho. E os que triunfarão? Esses são poucos. Muito poucos.

Fonte: Pinterest
Fonte: Pinterest

A par da maioria que referi, também eu fiquei apenas pelo sonho. Nem tentei, sequer. Nunca joguei futebol em “escolinhas”, apenas na escola e na rua, com os amigos. No ar fica a dúvida: será que teria potencial para ser um grande jogador? Talvez sim, talvez não. O certo é que vi colegas, amigos ou simples conhecidos a fazerem parte desse grupo de “poucos” que se vão tornar muito: vão ser jogadores de futebol. Eu segui para jornalismo e eles para Alcochete, para o Seixal, para a fama, a idolatria, a vida próspera e de sucesso. Desengane-se. Pois dentro dos poucos que vi – vimos – seguir de chuteiras na mão, ainda menos chegarão a esse patamar.

Se olharmos para a situação desta forma, talvez saia eu a ganhar: daqui a vinte anos, espero eu, estarei a exercer jornalismo, seguro da minha vida e do meu emprego. E eles? Aqueles que deixaram para trás os estudos aos 15 anos para terem os olhos na bola? Que será deles se não chegarem à Primeira Divisão ou a um clube que os sustente o suficiente para viverem durante a sua curta carreira e mais além? Certamente não estarão bem.

Quando decidi abordar este tema, muitas pessoas me vieram à cabeça: uns por terem sido meus colegas, outros por serem bons exemplos de sucesso de planeamento da carreira, outros ainda precisamente pelo contrário. Mas um ficou a ecoar por mais tempo. Chama-se Ricardo Monteiro, mais conhecido por Tarantini. Esse mesmo: capitão do Rio Ave FC, com presenças em finais da Taça de Portugal, da Super Taça Cândido de Oliveira, da Taça da Liga ou com qualificações para a Liga Europa. Um bom currículo, mas, sem tirar mérito e com todo o respeito, uma carreira insuficiente para ficar gravada a ouro na lista dos melhores jogadores portugueses da história do nosso futebol. Até setembro de 2016. Nesse mês, Tarantini tornou-se imortal.

Fonte: Bola na Rede
Fonte: Bola na Rede

Lançou o projeto tarantini.pt, que visa precisamente o aconselhamento aos jovens – ou menos jovens – futebolistas para a importância de um futuro que ultrapasse a curta carreira de jogador de futebol. Os exemplos de fracasso não são raros: Fábio Paim ou Jorge Cadete atravessaram dificuldades; Fofana, Fábio ou Daniel Faria acabaram a carreira antes dos trinta anos. O que fazer nestas situações? Há que haver um aconselhamento prematuro e bem intencionado por parte dos clubes e das entidades que representam os jogadores. Afinal de contas, mesmo que um jogador de 29 anos pareça velho para futebolista, não passa de um jovem adulto na “vida real”.

Um estudo realizado pela FIFPro em finais de 2016 levantava o véu quanto a este mundo invisível do futebol: 45% dos 13 mil jogadores inquiridos a nível mundial ganhavam menos de 950€ por mês. A verdade é esta: acumulam fortunas apenas os que chegam ao topo dos topos. E raros são os que conseguem. O estudo Tarantini oferece-nos números assustadores: apenas 16% dos jogadores portugueses chegam à Primeira Liga, apenas 4% chegam a um dos Três Grandes e apenas 2% têm o privilégio de vestir a camisola da Seleção. Isto numa carreira que termina, em média, aos 30.9 anos de idade.

É pouco. Muito pouco.Há que haver cautela e vontade por parte dos jogadores para cuidarem da sua carreira e, mais importante, da sua vida. Paulo Oliveira, do Sporting, por exemplo, tirava uma licenciatura antes de chegar à Primeira Liga; Tarantini começou (e concluiu) um mestrado em Ciências do Desporto no dia livre que tinha nos tempos do Sporting da Covilhã. Mas principalmente há que haver aconselhamento e disponibilidade sincera de clubes, agentes e instituições para cuidarem destes meninos que vivem disto e fizeram disto a sua vida. As novas academias deixam-me com esperança quanto a isso: há mais cuidado na formação do homem, na formação de conhecimentos e há mais rigor no aconselhamento. Porque um jogador de futebol não tem de saber apenas dar pontapés na bola. Alguns, e ainda bem que os há, também gostam de ler José Saramago no banco de suplentes.

Foto de Capa: trivela.uol.com.br 

Artigo revisto por: Beatriz Silva

André Maia

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