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A cultura do futebol de formação: Que cultura?

Diogo Pires Gonçalves · 6 min

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Cabeçalho Futebol Nacional

Como em qualquer desporto e em qualquer país, o futebol, enquanto paixão, começa bem cedo. Geralmente, no seio da maior parte das famílias, as crianças são criadas de acordo com as cores clubísticas do pai, da mãe, dos avós, dos padrinhos… É de acordo com quem tiver mais força para influenciar! E logo aos seis ou sete anos, as crianças são arrastadas para a prática do futebol. Quer seja pela aptidão que aparentam ter ou pela simples prática de desporto e preocupação com a saúde.

Nos dias que correm, um dos argumentos a que mais se recorre para esgrimir os dos rivais é o da formação. A equipa “x” não vence regularmente, mas orgulha-se dos jovens que ensina. A equipa “z” vence quase sempre, mas não tem nenhum jogador dos seus quadros. Ou seja, a questão da formação aparece quando mais se precisa dela e desvaloriza-se quando não é positiva. Mas antes de se procurar medir a pertinência da formação na discussão, é urgente rever a formação em si. Não os moldes em que é executada, as competições que a servem ou outra coisa qualquer. É urgente mudar o fator humano na formação; o papel de qualquer adulto deve ser revisto. Afinal, é de ensinar crianças que se trata, os futuros adultos.

Traquinas B da Associação Académica de Coimbra Fonte: Facebook oficial Associação Académica de Coimbra
Traquinas B da Associação Académica de Coimbra
Fonte: Facebook oficial Associação Académica de Coimbra

Desengane-se quem pensa que qualquer treinador serve para liderar uma equipa sub-11, sub-15 ou sub-19. Não basta a autorização ou o diploma de treinador, o lado humano do líder também influencia, e de que maneira, os jovens. É preciso ter a noção de que num jogo entre equipas sub-12, por exemplo, vale mais o treinador que repreende a equipa no treino seguinte do que aquele que o faz em pleno terreno de jogo, em frente ao público e em altos berros. Deve ter-se em consideração a maturidade (ou falta dela) de uma criança desta idade que ainda encara os treinos e os jogos como uma extensão do recreio da escola. Claro que lhes deve ser explicado que já começam a ter certas responsabilidades e compromissos, mas não aos gritos e fora do ambiente de treino que, supostamente, é mais reservado e propício à aprendizagem. E se falo disto é porque conheço estas realidades. Joguei bastante tempo, nos vários escalões, e passados alguns anos, ao acompanhar o meu irmão, esta realidade em nada se alterou. Pena que algumas das crianças contra quem joguei não tiveram a sorte de encontrarem treinadores como os meus.

Em muitos casos, o facto de se construir um homem antes de um jogador é esquecido. São atirados para o banco aqueles miúdos mais gordinhos, aqueles que não têm tanto jeito ou aquele guarda-redes que se desvia dos remates mais fortes. É inadmissível que nestas idades sejam sempre os mesmos jogadores a entrar em campo. Nesta fase tão prematura das suas vidas, a ideia é de incutir nestas crianças o espírito de grupo, o sacrifício e esforço por um objetivo comum e a busca da prática de um estilo de vida saudável.

É preciso também ter em conta que, provavelmente, acima de 90% dos treinadores das camadas jovens em Portugal, fá-lo depois do trabalho e sem as condições ideais para si e para os seus aprendizes. E uma grande parte não recebe qualquer remuneração por isso, muitas vezes por dificuldades económicas dos clubes onde prestam auxílio. Mas nem só nos treinadores reside a “culpa”. Ainda que sejam eles quem lida com as crianças no terreno de treino e jogo, são muitas vezes os pais que contribuem para a fraca formação dos seus próprios filhos. É expectável que queiram que os seus rebentos brilhem pelos sintéticos do distrito e lhes derretam o coração com beijinhos atirados para a bancada, golo após golo. Mas essa primeira forma de pressão, em certa medida saudável, quando excedida é extremamente prejudicial para o ser humano que ainda está a desenvolver a sua personalidade.

Não se pode exigir a um miúdo que finte três adversários e remate colocado! Então e os colegas dele não jogam? Então o menino ou menina tem de se deslocar para os jogos já com a pressão de impressionar o pai? Coitados, muitos chegam aos infantis sem saber apertar os cordões e com as caneleiras a sair pelas meias fora. Claro que haverão jogadas treinadas durante a semana e claro que há um menino que se destaca e marcará sempre os livres ou cantos, mas nestas idades o importante é a diversão que, jogo após jogo, aquele grupo de crianças alcança. E como esse, todos os outros pelo país fora.

É totalmente errado a repreensão do pai no caminho para casa, após um jogo menos conseguido. Vai exigir-se a uma criança que ouça os seus erros enumerados pelo pai e, mais tarde, no treino, pelo treinador e os corrija de forma categórica no jogo seguinte? É muito por isto que se assiste a uma elevada desistência da prática desportiva a partir dos sub-16 ou sub-17. Os miúdos que até esta idade só pensavam em chegar ao fim de semana e, juntamente com os seus colegas, imitar os ídolos que só vêem pela TV, fartam-se desta constante pressão e preferem abandonar. Ou por isso ou para não defraudarem as ambições dos seus pais. São eles que mais gritam para dentro do campo, visando o árbitro que “agora marcou assim, mas há bocado deixou passar”, visando o treinador que “não mete o outro miúdo mais rápido” ou, em tom de brincadeira, visando o seu próprio filho que se não correr mais “vai a pé para casa”. Descarregando as suas frustrações por, em tempos, não terem sucedido neste desporto ou porque o seu clube do coração perdeu no dia anterior, os pais colocam sobre os ombros das crianças a responsabilidade de lhes dar alguma satisfação proveniente do futebol.

A AD Limianos é sinónimo, desde a sua fundação, de uma importante escola de futebol do distrito de Viana do Castelo Fonte: Facebook oficial AD Limianos
A AD Limianos é sinónimo, desde a sua fundação, de uma importante escola de futebol do distrito de Viana do Castelo
Fonte: Facebook oficial AD Limianos

Quantas vezes já ouvi “ao menos estes (crianças) correm. Os outros (jogadores profissionais) só querem dinheiro”? Inúmeras. Mais do que aquelas que gostaria. Como ex-praticante, como irmão de um praticante, como consumidor apaixonado por este desporto, como cidadão(…), preocupa-me que se atirem crianças de 10, 11, 12, 13(…) anos para um clube e se espera que de lá saiam prontos a “calçar” num grande português ou europeu. Preocupa-me esta facilidade com que, inconscientemente, os pais se descuram de educar os próprios filhos só porque estão debaixo da responsabilidade de um treinador. E claro, “a culpa será sempre dele. Eu já o educo em casa, aqui, se correr mal, não tenho culpa nenhuma”. Como me dói ouvir isto.

Antes de ser um jogador de grande qualidade, é necessário ser-se um ser humano íntegro. O clube que forma um Homem e só depois procura formar um jogador é o clube que mais próximo está de bonitos objetivos. Para sempre ouviremos que “é mais fácil formar em cima de vitórias” e para sempre direi que nada podia estar mais errado. Enquanto jogador, perdi vários jogos por uma diferença de 10 e 15 golos no marcador. No entanto, no final do meu percurso enquanto atleta, fui campeão distrital.

Isto foi possível pelas fantásticas pessoas que me ensinaram ao longo de anos e que ainda hoje guardo como amigos e excelentes professores “da vida”. Se o desportivismo, o fair-play e a verdade forem ensinados na formação, as crianças de hoje serão, no futuro, aqueles jogadores corretos que não jogam com maldade, que não “queimam tempo” e que não simulam faltas. Que triste é assistir, num sábado de manhã, a um jogo de infantis e ver miúdos a simular faltas, fingir lesões, levantar a voz para um treinador adversário ou para o árbitro… No fundo, a imitar o que de pior se passa nos jogos transmitidos nas televisões.

Foto de capa: Facebook oficial Gil Vicente FC

Diogo Pires Gonçalves

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