À vontade mas não à vontadinha

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Às vezes, paro para pensar numa certa questão: como é que um treinador de uma equipa grande consegue implementar uma mentalidade de vitória numa equipa, sem submeter esta a uma excessiva pressão? Creio que existem vários factores que podem levar a isso e que essa situação se verificou na época passada na luta pelo título.

Do lado azul e branco, uma das principais causas do insucesso de Lopetegui, José Peseiro e Nuno Espírito Santo (principalmente do último) foi a falta de mentalidade vencedora que foi ficando cada vez mais patente ao longo do tempo. A falta daquela que ficou celebremente chamada de ‘mentalidade à Porto’, com aquela raça, aquela vontade de vencer que carregava uma equipa às costas.

A meu ver, esta falta de mentalidade vencedora foi particularmente evidente na era Nuno Espírito Santo, em que, apesar deste conhecer bem a casa e ter um discurso e uma postura correctos, faltava-lhe aquele ADN vencedor. O rosto de satisfação dos jogadores após o empate na Luz, fazendo com que a equipa azul e branca deixasse de depender apenas de si própria para ser campeã, ficou-me particularmente na memória. Na altura, fiquei a pensar para mim próprio: ‘Gostaria de saber o que é que antigas glórias do FC Porto têm a dizer daquela atitude’.

Por exemplo, era público que quando o FC Porto não ganhava um jogo, o Jorge Costa desatava a dar murros e pontapés nos cacifos do balneário. Era essa sede de vitória que faz com que muitos o vejam como o melhor capitão da história do clube, à frente de nomes como João Pinto e Fernando Gomes.

Com a chegada de Sérgio Conceição ao comando técnico dos azuis e brancos, a coisa começou a mudar. O treinador, que jogou no FC Porto entre 1996 e 1998 e também na segunda metade da época 2003/2004, mostrou desde o início a convicção de que iria ser campeão nacional. Se, por um lado, isto acrescentava mais pressão adicional aos jogadores (para além do facto de estarem quatro anos sem ser campeões, algo inédito na era Pinto da Costa); por outro lado, Sérgio Conceição conseguiu injectar-lhes aquela mentalidade, aquela vontade de vencer característica do clube, que se tinha vindo a perder ao longo dos anos.

Sérgio Conceição tem conseguido recuperar a mentalidade vencedora azul e branca
Fonte: FC Porto

Para além do mais, a forte mentalidade do plantel azul e branco foi capaz de suportar a elevada pressão que se sentia no balneário. Nas quatro linhas, isso reflectiu-se numa equipa que, apesar de não jogar um futebol particularmente deslumbrante ou atractivo, mostrava uma atitude agressiva e dominadora sobre o adversário.

Já do lado do Sport Lisboa e Benfica, a situação é bem diferente e convenço-me cada vez mais que tem vindo a piorar ao longo dos últimos anos. O treinador Rui Vitória é conhecido pela sua postura e personalidade serena e ponderada, mesmo após as derrotas e o próprio já explicou isso.

Rui Vitória já declarou publicamente várias vezes que a morte dos seus pais num acidente de viação no dia 21 de Setembro de 2002 o fez encarar a vida de outra forma, que essa fase desagradável da sua vida o fez enfrentar as adversidades com serenidade e tranquilidade. Para ele, a derrota num jogo ou a perda de um título não é nada comparado com essa situação que já atravessou.

Na verdade, essa forma de encarar os maus resultados e as situações de maior tensão já foi determinante na equipa. No seu primeiro ano ao serviço do Benfica, após a derrota caseira com o Sporting que colocava os encarnados a oito pontos da liderança, e no início do processo dos vouchers, a forma como ele encarou toda essa situação permitiu-lhe unir a equipa de uma tal forma em que conseguiram dar a volta por cima a tudo.

O problema é que, no médio prazo, a forma leviana com que Rui Vitória encara os maus resultados foi originando um sentimento de comodismo no balneário. Os jogadores mostram-se conformados com uma derrota com aquela mentalidade: ‘Ainda há mais campeonato.’ Não há um murro na mesa, não há um grito de revolta, não há uma voz de comando que proclame alto e a bom som: ‘Isto não pode ser assim.’

A meu ver, esta situação é assustadora para um clube como o Benfica, visto que está a destruir a mentalidade vencedora que se tinha construído ao longo dos últimos anos. Por outro lado, o FC Porto tem vindo a recuperar aos poucos o seu ADN de outros tempos.

 

Foto de Capa: SL Benfica

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Tiago Serrano
Tiago Serranohttp://www.bolanarede.pt
O Tiago é um jovem natural de Montemor-o-Novo, de uma região onde o futebol tem pouca visibilidade. Desde que se lembra é adepto fervoroso do Sport Lisboa e Benfica, mas também aprecia e acompanha o futebol em geral. Gosta muito de escrever sobre futebol e por isso decidiu abraçar este projeto, com o intuito de crescer a nível profissional e pessoal.

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