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O mercado de transferências de inverno é visto como uma oportunidade de colmatar lesões, castigos ou posições mal preenchidas num clube, por um lado, e como uma ameaça aos melhores jogadores de um plantel, por outro. No entanto, há ainda outro lado pouco tido em conta e sobre o qual vale a pena refletir.
Equipas como o Portimonense SC, por exemplo, que alcançou a subida de divisão na época passada, tentam até ao fim das forças dos seus atletas manter o clube na Primeira Divisão. Os chamados “clubes pequenos” têm no seu orçamento um dos maiores entraves da época. Se noutros artigos critiquei o uso abusivo da desculpa “orçamento”, e mantenho, neste faz todo o sentido trazê-lo à mesa e avaliar a justiça das suas épocas e das armas de que dispõem.

Fonte: Instagram oficial Portimonense SC
Continuando no caso dos algarvios, e olhando a um dos seus últimos negócios, passaram a contar com Fede Varela e Wenderson Galeno, provenientes da formação “B” do FC Porto. Os dois jovens jogadores, médio e avançado, respetivamente, são já figuras reconhecidas da Segunda Divisão e apostas de futuro para os azuis e brancos. O valor destes dois jogadores é incontornável e a sua adaptação ao futebol português já não será um problema a equacionar, visto que tão bem jogavam ao serviço da equipa secundária dos dragões. Em sentido contrário viaja Paulinho e aí reside a grande dúvida; quão afetado será o Portimonense SC pela saída do médio brasileiro? Ainda que a qualidade dos jovens recebidos seja evidente, a equipa de Portimão, em última análise, troca uma certeza por duas ou três dúvidas.
Claro que os jogadores vão e vêm e os clubes continuam. Assim como os treinadores ou os dirigentes. Todos eles são agentes e partes integrantes de um desporto e defendem uma instituição que continuará, em condições normais, mesmo quando estes saírem. O problema, na verdade, é mais complexo do que isso. Não se trata de idolatrar um jogador e “chorar” a sua saída. Trata-se é de ter a época planeada e, de um momento para o outro, deixar de contar com ele para os seus objetivos. De certo, o Portimonense SC esperava lutar pela manutenção, alcançá-la o quanto antes e, para isso, contar com a experiência do seu treinador, do avançado Pires, do defesa Ricardo Pessoa ou das revelações Bruno Tabata, Shoya Nakajima e, claro está, Paulinho.
Avançando para lá deste caso, inúmeras serão as situações em que os clubes se vêm obrigados a deixar sair os seus melhores ativos de forma a melhorar ou equilibrar as suas contas. Para esta análise não contam os negócios de milhões que desvalorizam e sobrevalorizam constantemente os talentos e medianos deste desporto. Conta apenas a nossa realidade, a realidade dos nossos campeonatos, onde os clubes se inscrevem e lutam muito para que terminem a época. Lutam dentro e fora do campo. Esticam ao máximo os seus pequenos e vazios cofres para que todos sejam pagos e no final nada falte a ninguém; treinadores, diretores, jogadores, fisioterapeutas, massagistas, roupeiros… E bem sabemos que na maioria dos casos isso não acontece.
Quão justo será chegar a um clube que enfrenta dificuldades das mais variadas naturezas e propor uma troca de jogadores? Aliciado pelo interesse de um clube com maior visibilidade, o jogador visado terá, forçosamente, vontade de abandonar o clube onde se encontra e almejar outros campeonatos. É natural, é expectável, é compreensível.

Fonte: Instagram oficial FC Porto
É tão injusto como quando os colossos europeus levam jogadores do FC Porto, SL Benfica ou Sporting CP. É o percurso natural a que assistimos no futebol moderno. É o percurso possível e contra o qual pouco ou de nada vale lutar. Pelo menos por parte dos clubes portugueses. Há muito que se lhes atribui um rótulo de vendedores e isso não é ao acaso. Mas cabe a outras entidades resolver estes problemas. Claro que a época de um clube não deve ser posta em causa por um simples e inevitável negócio, mas não são os clubes “compradores” que agem mal nessa situação; eles apenas tentam dar o melhor fim à sua época. A desigualdade não provém do facto de ter mais 15 ou menos 15 milhões de euros para gastar, não provém de ter mais cinco ou menos cinco internacionais de qualidade nem provém de ter melhor ou pior treinador. Se assim fosse, tudo teria de terminar empatado e com os mesmos resultados. A desigualdade provém das condições exteriores ao terreno de jogo e às quais os outros clubes são alheios. Nenhum competidor devia ter de passar a época mais preocupado em pagar a todos atempadamente do que em competir. A desigualdade acontece quando nem todos beneficiam das mesmas condições de competição à sua partida.
Foto de capa: sulinformacao.pt
Artigo revisto por: Jorge Neves













