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A baliza não é o elo mais fraco

Diogo Pires Gonçalves · 4 min

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Na ressaca dos jogos europeus da passada semana surgiram as inevitáveis crucificações em praça pública. Desta feita, com o FC Porto e Sporting CP em ação, o destaque, pela negativa, foi dado aos azuis e brancos pela pesada derrota encaixada em casa, frente ao potente Liverpool FC e ressuscitou a pouco nobre arte portuguesa de arranjar, à força toda, um culpado.

De facto, o jogo da primeira mão dos oitavos de final da UEFA Champions League não correu de feição aos dragões, que não ficam isentos de culpa nos cinco golos sofridos. Aos 25 minutos desse jogo, perante a passividade da muralha (pouco) defensiva azul e branca, a bola chega a Sadio Mané e é por este disparada à figura de José Sá que a deixa escapar por baixo do seu corpo. Este foi, realmente, um golo em que o guardião português não ficou bem visto e a sua reação é bem representativa disso mesmo. No entanto, o mesmo não se verifica nos outros golos e, assim, tornam-se descabidas e inválidas as críticas que a ele lhe dirigiram.

Senão vejamos; aos 29 minutos, James Milner remata forte ao poste e quando Sá ainda se recompunha do voo anterior, Mohamed Salah recolhe a bola, tira o português do lance e encosta fácil para golo, sem oposição. Aos 53 minutos, os comandados por Jurgen Klopp executam um contra ataque exemplar, Sá defende o remate de Roberto Firmino, mas pouco ou nada podia fazer quando Sadio Mané, novamente sem oposição, empurrou para o terceiro golo da noite.

Aos 69 minutos, a equipa portuguesa, mental e fisicamente desgastada, falha por duas vezes a chamada “falta necessária” no meio campo e vê, mais uma vez, a aplicação de um ataque simples, mas eficaz; James Milner cruza atrasado e Roberto Firmino coloca a bola fora do alcance do guardião portista. Ainda antes do término da partida, aos 85 minutos, uma desatenção fruto da frustração transforma um lançamento lateral inofensivo em mais um ataque letal; Sadio Mané remata forte e colocado para fechar o seu hat-trick e a noite no Dragão.

José Sá esteve em evidência na primeira jornada de 2013/14 ao ajudar o CS Marítimo a vencer o SL Benfica por 2-1
Fonte: CS Marítimo

Só alguém desatento pode culpabilizar um jogador em particular na vez de toda uma equipa cinzenta e pouco assertiva. Mas fizeram-no… Multiplicaram-se os comentários depreciativos, forçaram-se as comparações e culparam José Sá por aquele que foi o jogo menos conseguido, naturalmente, da equipa de Sérgio Conceição. Inevitavelmente arrastaram Bruno Varela e até Mile Svilar para este caldeirão e a eles foram atribuídas culpas de tudo e mais alguma coisa. No caso do portista, foi-lhe “diagnosticada” experiência muito reduzida.

É natural, se não sair do banco nunca a obterá. Os erros serão superados, as falhas serão corrigidas e a experiência será alcançada mediante o número de jogos realizados; quanto maior, mais rápida será a sua evolução. Iker Casillas foi inserido nesta discussão e apontado como termo de comparação e arma para concluir que a qualidade do português é inferior. Realmente é bastante justo comparar um dos melhores guarda redes de todos os tempos a um português à procura de afirmação…

É evidente a qualidade superior de San Iker, mas até o próprio teve que, um dia, assumir a baliza do seu clube e crescer com essa responsabilidade! Veja-se, também como exemplo, a aposta insistente em Rui Patrício. No início era também bastante criticado pelos “entendidos de sofá” e hoje a ele lhe devemos, em parte, um título europeu de seleções…

Bruno Varela esteve em destaque nos empates alcançados pelo Vitória FC frente ao FC Porto na época passada, em casa e no Dragão
Fonte: Vitória FC

A baliza do SL Benfica foi também um alvo fácil das críticas, nomeadamente após a campanha desastrosa da equipa na UEFA Champions League. Se por um lado são evidentes as fragilidades dos jovens quando foram chamados ao onze, o que dizer dos cinco golos sofridos por Júlio César frente ao FC Basel? Foram também a jovialidade e falta de experiência os culpados de tal derrota?

É cruel demais culpabilizar dois jovens pelas seis derrotas numa equipa que apenas marcou um golo nesses mesmos seis jogos. No entanto, Mile Svilar é um pouco “esquecido” por estar há bastante tempo de fora e caem, assim, as atenções para outro jovem guardião português. Bruno Varela é mesmo tido como o titular da equipa encarnada por ser “o menos mau dos que estão disponíveis” para Rui Vitória. Ainda assim, não se salva de dizerem que “esteve mais vezes pior do que melhor”. É, de facto, uma caracterização pobre e redutora do “porteiro” que ainda na época passada empurrou o SL Benfica para o título ao atrasar o FC Porto por duas vezes (0-0 em Setúbal e 1-1 no Dragão).

Chegou-se mesmo ao cúmulo de afirmar que as apostas teimosas em José Sá e Bruno Varela são passadeiras estendidas para que o Sporting CP chegue ao tão desejado título. Quem o afirma não pode estar a assistir ao mesmo campeonato que eu, competição onde nada está decidido, onde não existem passadeiras estendidas e, bem pelo contrário, é o Sporting CP quem corre atrás, mesmo tendo um dos melhores guarda-redes do campeonato.

Foto de Capa: SL Benfica, Sporting CP e FC Porto (montagem de Diogo Gonçalves)

Diogo Pires Gonçalves

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