Belenenses SAD 2019/20: jogar “à Silas” é jogar como um “grande”

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Depois de um “nulo” com o Portimonense SC no arranque do campeonato e de uma derrota caseira frente ao SL Benfica, a formação do Belenenses SAD partiu para os Açores onde defrontoou o Santa Clara em busca dos primeiros três pontos.

Apesar de estarmos apenas na terceira jornada do campeonato podemos já retirar uma conclusão das exibições dos azuis e brancos de Lisboa: o Belenenses SAD gosta de jogar como uma equipa grande. E o grande mentor do estilo ou modelo de jogo praticado pelo Belenenses SAD é o seu treinador, Silas. Com efeito, o técnico lisboeta demonstrou na época passada, e já voltou a fazê-lo, que é perfeitamente possível com poucos recursos produzir um futebol atrativo para quem assiste bem como um futebol que tira maior proveito das qualidades de cada um dos seus jogadores. Mais, Silas demonstrou que perante equipas grandes ou com mais recursos, uma equipa mais limitada pode ainda assim assumir o jogo e adotar um estilo mais ofensivo.

O estilo de jogo ofensivo de Silas, caracterizado pelas “construções a partir de trás” do ataque potenciou e muito diversos jogadores. Aliás, como dei a entender num texto anterior, a mentalidade de Silas fez com que Muriel voltasse ao Brasileirão como um guarda-redes “mais completo”. Iniciar a construção ofensiva com a saída de bola curta desde o guarda-redes tornou Muriel num elemento activo do ataque azul e branco, obrigando-o a desenvolver o seu jogo de pés e a tomar mais decisões.

Outra característica que aprecio no futebol de Silas, e que também é de equipa grande, é a flexibilidade táctica das suas equipas que no decurso dos 90 minutos pode moldar-se consoante as circunstâncias do jogo. Por exemplo, a equipa pode começar o jogo com uma formação em 4-4-2 e depressa transformar-se num 3-5-2, sem perder a organização.

Este modelo de jogo tem, contudo, a desvantagem de obrigar o Belenenses SAD, que não tem a qualidade individual de equipas de grande dimensão, a assumir os riscos normais de uma equipa que coloca muitos jogadores no processo ofensivo e por conseguinte comprometer na defesa.

Por outro lado, importa referir que o clube azul e branco registou várias saídas, algumas “de peso”, no seu plantel tais como Muriel, Sasso, Dálcio, Diogo Viana, Reinildo (cuja opção de compra foi exercida pelo Lille), Fredy (que já tinha saído no decurso da época passada), Henrique Almeida, Eduardo e Zakarya, jogadores esses que tinham já bem presentes na sua mente as ideias de Silas e uma importância relevante na equipa.

Em contrapartida, no âmbito do protocolo celebrado entre Belenenses SAD e o Lille, chega deste clube francês ao Jamor uma autêntica armada francófona: a título de empréstimo, o guarda redes Hervé Koffi, o central Hakim Ouro-Sama, os médios Imad Faraj e Show, o avançado Charles-Andreas Brym, e a título definitivo o médio Chahreddine Boukholda.

Para além dos referidos reforços, são promovidos à equipa principal diversos jogadores da formação de S23 como Tiago Esgaio e Gonçalo Tavares, entre outros. O médio experiente André Sousa, entretanto regressado ao Jamor após fim de empréstimo, é outra das opções que Silas terá para o meio campo azul e branco.

O jovem guarda-redes internacional pela Burkina Faso tem sido a grande surpresa dos azuis e brancos
Fonte: Página de Facebook do Belenenses SAD

Todavia, para que Silas consiga pôr as suas ideias em prática e repetir ou até mesmo superar os feitos alcançados na época, é necessário que todos os jogadores as assimilem. Na verdade, se fizermos uma análise, ainda que sumária, sobre a equipa do Belenenses SAD, tendo já em linha de conta os últimos dois resultados na Primeira Liga, leva-nos os azuis e brancos ainda têm muitas afinações a fazer, muito concretamente, falta marcar golos.

No jogo frente ao Portimonense, o processo ofensivo azul e branco apresentou muitos erros (muitas perdas de bola, maus passes, Kikas e Licá foram mal servidos na frente de ataque, etc.), que se traduziram nas poucas oportunidades de golo, quase todas ocorridas na segunda parte após a mudança para um sistema de três centrais que permitiu uma maior capacidade ofensiva. O grande ponto positivo foi sem dúvida a exibição do jovem guarda-redes recém-chegado, Koffi.

No confronto com os encarnados, foram os erros individuais na defesa que sentenciaram a derrota caseira do Belenenses SAD, sendo certo que as oportunidades de golo de Kikas e de Velez poderiam ter ditado outro resultado no marcador. Houve claramente uma aposta num bloco defensivo mais recuado e na procura da profundidade de Licá e Kikas nas costas da defesa do SL Benfica que não funcionou. Aliás, não conseguiu criar grandes perigos em jogo organizado, apesar de ter estado bem defensivamente. O destaque pela positiva vai para Nuno Coelho que esteve imperial no eixo defensivo e, novamente, para Koffi que voltou a fazer uma grande exibição entre os postes, tendo sofrido dois golos em relação aos quais nada ou pouco poderia fazer.

Tem sido useiro e vezeiro atribuir uma grande fragilidade ao plantel do Belenenses SAD, talvez para valorizar ainda mais o papel de Silas na orientação da equipa. Eu não concordo inteiramente e, fazendo o balanço entre entradas e saídas do plantel, creio que o plantel tem bastantes soluções e mais qualidade em relação à época passada, pense embora também pareça que ainda não foi encontrado um substituto à altura de Fredy. Pode e deve, todavia, reforçar algumas posições específicas, como o próprio Silas já deu a entender que pretendia.

Acredito que a turma de Silas tem uma ideia de jogo bem definida e os argumentos suficientes para, pelo menos, conseguir acabar o campeonato na primeira metade da tabela classificativa. Não querendo retirar mérito aos jogadores do Belenenses SAD, que bem merecem, julgo que Silas é a grande força motriz da equipa lisboeta. Afinal, já todos sabemos o que significa “jogar à Silas”.

Foto de Capa: Belenenses SAD

artigo revisto por: Ana Ferreira

Pedro Miguel Martins
Pedro Miguel Martinshttp://www.bolanarede.pt
O Pedro é licenciado em Direito e é advogado com prática no Direito do Desporto. Oriundo do Bairro de Alvalade, em Lisboa, é um fervoroso amante do Sporting CP, embora também tenha um carinho especial pelo Ericeirense. Adora assistir jogos de futebol pela Europa. Sonha em conhecer os grandes palcos do futebol sul-americano.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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