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Emigração precoce

Tiago Serrano · 5 min

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Cabeçalho Futebol NacionalUm dos motivos pelo qual o campeonato português é reconhecido na Europa, é pelos jogadores que este revela. Mais do que por alguns feitos conseguidos pelos nossos principais clubes nas competições europeias, desde que há uns anos para cá que o nosso futebol é referenciado na Europa pelo excelente trabalho realizado na formação, prospecção e desenvolvimento dos seus atletas.

Como já falei nalguns artigos anteriores, o Sporting CP destacava-se sobretudo na matéria da formação, o FC Porto na prospecção de jogadores recrutados no estrangeiro, principalmente no mercado sul-americano e o Sport Lisboa e Benfica também começou a entrar neste campo nesta década.

No entanto, o Benfica e o FC Porto têm vindo a vincar cada vez mais uma aposta na formação, com o intuito de desenvolverem os seus próprios jogadores, estratégia que já deu frutos ao venderam jogadores formados por bons preços a “tubarões” da Europa.

No entanto, esta nossa fama de “país exportador de jogadores” também tem um forte revés. Como todos sabemos, o campeonato português é esmagado pelos principais campeonatos europeus na componente financeira. Os clubes portugueses estão excessivamente dependentes da venda de jogadores para equilibrarem as contas e com isso, sujeitam-se a perder as suas pérolas em fases muito precoces da sua carreira.

Quando começou a haver o “surto de emigração” dos futebolistas portugueses, os tempos eram outros. Ainda vivíamos na era “pré-Bosman” e como tal, “tubarões europeus” não podiam abusar. Paulo Futre só tinha 21 anos quando se transferiu para o Atlético de Madrid, mas já vinha de três épocas como titular no FC Porto. Já nos anos 90, Rui Costa transferiu-se para a Fiorentina com 22 anos, a mesma idade com que Luís Figo se transferiu para o Barcelona. Fernando Couto rumou ao Parma com 24 anos de idade. E todos estes jogadores foram titulares dos seus respectivos clubes durante pelo menos três épocas.

Nos dias de hoje, o fosse financeiro entre o nosso campeonato e os “big-five” é cada vez maior, o que faz com que se torne cada vez mais difícil segurar os nossos jovens valores. E os exemplos mais gritantes disso, foram os casos de Renato Sanches e André Silva.

Renato Sanches ainda não se impôs no emblema Bávaro Fonte: Facebook Oficial de Renato Sanches
Renato Sanches ainda não se impôs no emblema Bávaro
Fonte: Facebook Oficial de Renato Sanches

Um anos após a sua transferência milionária para o Bayern Munique, Renato Sanches continua sem confirmar o seu potencial na Baviera. Todos nós reconhecemos a concorrência de luxo que ele enfrenta, mas também acredito que muitos fãs de futebol esperavam mais do Renato, pois todos nós vimos a sua enorme qualidade no Benfica e na selecção nacional e conquistar um Golden Boy de forma justíssima.

Mas o que é que terá falhado? Para mim, não existem flops com 19 anos e a verdade é que ainda é muito cedo para dizer que ele se deixou deslumbrar pelo mediatismo e tornou-se numa vedeta. Ele ainda tem muito tempo para crescer e confirmar o seu potencial, mas terá de trabalhar muito e estar comprometido a 100 com o futebol para mostrar o porquê de ter passado de jogador da equipa B do Benfica a titular da selecção nacional em menos de um ano.

Vejamos o caso de Cristiano Ronaldo: era um “magricela” de 18 anos quando fez as malas para Manchester. E certamente não teria sido um dos melhores de sempre se ele não fosse um trabalhador incansável, que é o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos, que está sempre à procura de ganhar, de evoluir, de ser o melhor, etc.

Já João Mário, foi protagonista de uma transferência milionária para o internazionale Milan, chegando a uma equipa que estava num estado caótico. E com isso, o médio campeão europeu viveu uma época de altos e baixos no emblema neozaurri. No entanto, a sua qualidade é inegável e o médio formado na Academia em Alcochete promete recuperar terreno na equipa sob a orientação de Luciano Spalletti.

João Mário procura reconquistar o seu espaço na equipa do Inter Fonte: Facebook Oficial de João Mário
João Mário procura reconquistar o seu espaço na equipa do Inter
Fonte: Facebook Oficial de João Mário

A verdade é que na minha opinião, os clubes portugueses não se podem dar ao luxo de recusar propostas acima dos 30 milhões de euros e com isso, muitos dos nossos jovens valores correm o risco de darem o salto ainda em fases prematuras da sua carreira, com o seu crescimento a meio. E jogando num patamar competitivo superior, o processo de crescimento de um jovem jogador torna-se mais duro e complicado e nem todos estão a altura das exigências.

Por isso, também estou muito expectante em relação à adaptação de André Silva no AC Milan, num clube que realizou uma autêntica revolução no seu plantel neste Verão. Todos nós devemos saber o quão duro e exigente é a Série A, principalmente para os avançados, mas eu acredito que a médio prazo, André Silva terá uma evolução notável em solo italiano.

E quanto a outros casos já verificados nesta temporada? Francamente, acho que Rúben Semedo ainda estava um pouco “verde”, mas o Villareal não é propriamente um clube um “tubarão” e se Rúben Semedo continuar a crescer e a evoluir num patamar competitivo superior, o “Submarino Amarelo” será a segunda ponte para ele rumar a um clube de topo.

Quanto a Victor Lindelof, para mim é uma incógnita. Se formos reparar, verificamos que não é qualquer defesa-central jovem que consegue agarrar um lugar numa equipa de topo, ainda para mais na liga mais exigente do mundo. Porém, da mesma forma como ele me surpreendeu ao assumir a titularidade na equipa do Benfica já na segunda metade da época 2015/2016, pode voltar a surpreender-me ao serviço dos Red Devils.

E em relação a Nelson Semedo, sou franco: era um jogador que estava convencido que ia dar o salto neste Verão, visto que foi o jogador encarnado com mais minutos em campo na época passada, jogando quase sempre a um rendimento elevado, mostrando assim que está preparado para voos mais altos.

A verdade quanto aos jogadores formados num dos três grandes do futebol português, é que por muito que eles gostem do Benfica, do Sporting ou do FC Porto, é muito improvável que estes sejam capazes de dizer não a um Barcelona, um AC Milan ou um Manchester United.

Vivemos num país exportador de jogadores, assim foi e assim será. E com a realidade do mercado actual, ver os nossos jovens valores partirem para o estrangeiro – alguns deles.

Fonte de capa: AC Milan – site oficial

Tiago Serrano

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