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Albert Meyong Zé ou “Zezé”, como Jorge Jesus lhe gostava de chamar, veio cedo para Portugal. O Vitória FC, o Braga e o Belenenses foram os emblemas que o avançado representou no nosso país. Foi no Bonfim que o ex-jogador camaronês encontrou a sua verdadeira casa. Com a mesma velocidade com que os seus olhos são inundados por um brilho contagiante quando lembra os seus tempos de Vitória FC, a sua expressão é assaltada pela desilusão quando fala da intempérie que o clube sadino atravessa. À memória vieram-lhe os momentos de sucesso no Braga, o “Caso Meyong”, que o atrapalhou no Belenenses, e ainda as internacionalizações pela sua seleção, onde jogou ao lado de Samuel Eto’o. Todo esse tempo, golos e Meyong andaram de mãos dadas por todo o lado.
– Entranhado no destino com o nome de Meyong –
«Nos Camarões vivemos o futebol de uma maneira diferente»
Bola na RedeO que é que fazes atualmente?
Meyong: Agora, não faço grande coisa. Estou a aproveitar para estar com a família. Tenho uma menina que tem cinco meses. É a terceira. Nunca tive tempo de ficar com as duas primeiras, porque andava sempre para cima e para baixo e nunca estive presente. Estou a aproveitar não estar a fazer nada neste momento para estar com ela e vê-la crescer. De vez em quando, vou treinar com a malta do Comércio e Indústria, com os veteranos, para não ficar parado. Estou à espera para fazer o curso de treinador, mas nunca mais começa.
Bola na RedeRecuando até ao início, contigo e com os teus 24 irmãos dava para fazer um jogo de futebol e ainda ficarem alguns no banco.
Meyong: Nós temos muita diferença de idade. Tenho irmãos com quem não cresci, porque eles já eram maiores de idade. O meu pai teve três mulheres, cada uma com idades diferentes. Irmãos da mesma idade éramos uns cinco ou seis.
Bola na RedeO teu pai era professor e tu tinhas acesso à escola, o que não era para todos. Nasceres nesse ambiente estruturado ajudou-te a singrares no futebol?
Meyong: A escola é muito importante. É bom ir à escola e saber ler e escrever. Claro que o caminho que eu tinha traçado era terminar a escola e trabalhar. Era isso que o meu pai queria. Foi o que a maioria dos meus irmãos conseguiram. Desde pequeno, eu sempre quis jogar à bola. Tinha algum jeito e sempre foi o meu sonho. Quando tive a oportunidade de ser profissional, agarrei‑a.
Bola na RedeEstudaste até que idade?
Meyong: Até aos 17 anos, até sair dos Camarões.
Meyong, uma lenda que apontou 82 golos ao serviço do Vitória FC ⚽💪🔝
Qual foi o jogador mais icónico do teu clube? 🤔💭
📸 Lusa#futebolcomtalento #LigaPortugal #tbt #throwbackthursday pic.twitter.com/jQIpHPev4e— Liga Portugal (@ligaportugal) June 27, 2019
Bola na RedeNos Camarões não dava para seres profissional.
Meyong: O campeonato dos Camarões não é profissional, mas eu tinha algum jeito.
Bola na RedeO que significa o futebol nos Camarões?
Meyong: O futebol nos Camarões é muito importante, é o desporto-rei. A maioria das crianças sonha em jogar futebol e ser profissional. A seleção nacional é muito importante para toda a população. Nos Camarões vivemos o futebol de uma maneira diferente. Não há condições, mas vê, por exemplo, a quantidade de pessoas que vai ao estádio ver jogos. Estamos a falar de estádios sem relva, sem nada. É uma sensação muito forte. Quando eu representava a seleção, o estádio estava sempre cheio. O pessoal nem tinha onde se sentar, mas entrava. O que é que leva essa gente a arriscar a vida deles? É a paixão.
Bola na RedeOnde é que estavas quando a seleção dos Camarões chegou aos quartos de final no Mundial de 1990 em Itália?
Meyong: Estava nos Camarões. Era criança, mas vi o jogo.
Bola na RedeComo é que cais em Itália aos 18 anos?
Meyong: Jogava com a seleção dos miúdos lá nos Camarões. Tinha um empresário, o Thomas N’Kono, que foi guarda-redes do Espanyol, e ele era treinador dos guarda-redes lá na seleção. Viu-me jogar e disse que me ia levar. Tinha acabado de perder o meu pai há um ano. As coisas não estavam muito bem na família. Quem trabalhava era o meu pai, ele é que pagava tudo, a escola e a comida, a minha mãe nunca trabalhou. Não era fácil. Expliquei à minha mãe que era uma coisa que eu queria e que dava para ganhar a vida. A minha mãe deixou-me ir. Tenho a certeza que, se estivesse o meu pai, eu não ia. Eu ainda era pequeno, saí com 17 anos e fui fazer 18 lá em Itália.
Bola na RedeNão tiveste medo de ir em busca do desconhecido?
Meyong: Por acaso, tinha muito medo. Quando saía dos Camarões era quando ia fazer jogos com a seleção, mas nunca tinha saído de casa nem de longe da minha família. Tinha muito medo mesmo, mas a minha vontade de jogar futebol era muito maior. Quando estava lá [em Itália], passava muito mal. Não é fácil, é preciso ter muita vontade para conseguir.
Bola na RedeMas acabou por correr tudo bem.
Meyong: Sim. Aguentei e consegui o que eu queria. A partir daí começou tudo.
– Faro pelo golo e pela glória –
«Quando comecei a minha carreira era central»
Bola na RedeSe fizeste a carreira que fizeste foi muito pela tua capacidade de marcar muitos golos. O “instinto goleador” existe mesmo?
Meyong: Sim, isso existe. Quando comecei a minha carreira, aos 12,13,14 anos, era central. Só que eu subia muito e, quando subia, nos cantos e nos livres, fazia golos. O meu treinador disse-me: “Sempre que sobes fazes golo, porque é que não jogas à frente?”. Eu disse: “O mister é que sabe”. Comecei a jogar à frente e continuei a fazer golos. Às vezes, parece que as bolas vêm ter contigo, mas se um avançado não tem isso não vai ser um goleador. Lembro-me do Jardel, por exemplo. Ele cabeceava bem, mas parecia que os cruzamentos iam ter com ele. Como é que se explica isso? Ele tinha qualquer coisa. Primeiro, tens que ter qualidade, depois é que vem o resto. Depois, tens que saber finalizar e tens que ter as oportunidades. Há muitos avançados que são bons, mas que não têm golos.
Bola na RedeFala-se muito do avançado ter que se saber mexer sem bola para ir à procura das oportunidades. Tinhas esse cuidado quando jogavas?
Meyong: Sim, é fundamental. Se não te sabes movimentar e posicionar na área é difícil. A maioria dos grandes avançados sabe-se movimentar na área. Já para não falar da movimentação no campo. O futebol é um jogo de equipa e tens que te movimentar em função da equipa. Depois, cada jogador tem a sua função e tu tens a tua, que é fazer golo. Movimentar-se na área é das coisas mais importantes para um avançado.
Bola na RedeQuais eram as movimentações que mais gostavas de fazer?
Meyong: Aquelas coisas que todos os adversários devem perceber. Por exemplo, quando estava à espera de uma bola ficava nas costas do defesa-central para poder antecipar a frente dele em caso de cruzamento. Eu fazia sempre o movimento contrário. Se eu estava à frente do defesa e o cruzamento vai sair, eu fingia que ia para a frente e depois voltava para trás para pedir a bola nas costas dele. Também depende de onde é que está a bola e de onde sentes que ela pode cair. Tens que sentir, porque são decisões que tomas num segundo. Tens que ser rápido. Isso define que ponta de lança és.
Bola na RedeDepois, como é que vieste para Portugal?
Meyong: Primeiro, quando estava em Itália, fui transferido para Espanha, para o Mérida. No entanto, a equipa tinha problemas financeiros e acabou. Até encontrei lá o Nuno Espírito Santo. Fiquei lá uma semana. Depois, o meu empresário trouxe-me para Portugal, mas não era para o Vitória FC, trouxe-me para o Benfica. Eu jogava na seleção olímpica dos Camarões e até era capitão.
Bola na RedeDeste nas vistas e foram-te buscar para o Benfica?
Meyong: Estava a treinar com a equipa B, não com a equipa principal. A equipa B do Benfica, naquela época, estava na Segunda Divisão B. O José Morais, que treinava o Benfica B na altura, disse-me que eu assinava contrato com o Benfica, mas que era para ficar na equipa B primeiro. Eu disse-lhe que não tinha problema, mas a equipa B jogava numa divisão muito baixa e o meu empresário disse que não. O José Morais disse ao meu empresário que o Vitória FC estava a precisar de um avançado. O Vitória FC estava na Primeira Divisão, mas estava em último. O Rui Águas, treinador do Vitória FC falou com o meu empresário, para eu ir fazer um jogo amigável para ele me ver a jogar. Eu fui lá, fiz o jogo e ele disse que ficava comigo.
Bola na RedeQual foi o primeiro impacto da chegada ao clube?
Meyong: Eu não conhecia muito o clube. O que sabia era que o [Rashidi] Yekini, um avançado nigeriano que toda a África conhece, tinha jogado lá. Se o Yekini tinha jogado naquela equipa era porque era uma grande equipa. O Vitória estava no último lugar, mas eu vi que era um grande clube. O impacto foi muito grande, porque os adeptos e a cidade… Fui muito bem acolhido. Até hoje não me farto de gostar do clube.
Bola na RedeEm 2004/05 fazes parte da equipa que venceu a Taça de Portugal. Como viveste esse dia?
Meyong: Foi um grande ano. O Vitória, naquele tempo, já tinha muita dificuldade. Andávamos com alguns meses de salários em atraso, mas tínhamos um grupo fantástico, com bons jogadores e muito forte mentalmente. O mais importante é que tínhamos a cidade toda atrás de nós. No jogo da final, nem a direção acreditava em nós. Fomos para o campo sem champanhe e sem camisolas de campeão. Não tínhamos nada disso. Eles não prepararam nada. Quem acreditava mais eram os adeptos, a cidade de Setúbal. Eu lembro-me que o Benfica tinha uma parte do Jamor cheia e a outra estava cheia de adeptos do Vitória. Nunca vi tantos adeptos do Vitória FC. Há muitos jogadores que jogam no Vitória FC e que não sabem a grandeza do clube. Eu fiz jogos com o Bonfim cheio, até em jogos da Segunda Liga. Muitos jogadores que passaram por aqui não sabem disso. Nesse ano, fomos ao Jamor, ganhámos e tivemos que ir ao balneário do Benfica pedir champanhe. Eles mandaram-nos embora todos chateados. Festejámos com água. Éramos pobres, mas conseguimos trazer a taça para Setúbal. Chegámos a Setúbal e… inacreditável! Nunca vi tanta gente à espera de nós. Não foi só ganharmos o jogo, mas o facto de vermos tanta gente feliz e tu fazeres parte disso, é a maior felicidade que se pode sentir.
Bola na RedeSentes que ficaste marcado na história do clube por causa do golo que deu a vitória?
Meyong: Nós todos fomos heróis. Eu marquei o golo, mas a equipa toda é que conseguiu ganhar. Não se têm de lembrar apenas de mim, mas de todos os jogadores que fizeram parte dessa conquista.
Bola na RedeTu e o Vitória FC são uma só coisa?
Meyong: Eu considero que é a minha casa. Sinto-me muito bem aqui. Tenho muito carinho pelos adeptos. Passei por vários clubes, por exemplo, no Braga, onde também tive quatro anos fantásticos, e onde quase senti o mesmo que senti aqui no Vitória FC. Só que aqui tenho mais coisas. Gosto do clube e tenho a minha mulher que é de cá. É quase a minha segunda família.
– Jesus no céu e na terra –
«Se o Benfica jogasse o dobro já era bom»
Bola na RedeApesar de não ser a época em que fazes mais golos na tua carreira, em 2005/06, ao serviço do Belenenses, és o melhor marcador do Campeonato Português. Soube-te bem esse prémio?
Meyong: Sim. Havia um detalhe que poucos sabem. Quando jogava no Vitória FC, por exemplo, no ano com o [Jorge] Jesus, nunca fui ponta de lança, era segundo avançado. Com ele, às vezes, até jogava a extremo. Mesmo assim, marcava muitos golos. Com o Carlos Carvalhal [no Belenenses] jogava mesmo como ponta de lança. Sempre que me metiam a ponta de lança eu fazia muitos mais golos. Quando apanho o Jesus no Braga, jogo como segundo avançado. Vendo bem, faz diferença. O Jesus achava que eu era melhor naquela posição.
Bola na RedeNo Belenenses, cruzas-te com o Rúben Amorim, atual treinador do Sporting. Há pessoas que dizem que o Rúben Amorim está a transpor a inteligência que tinha enquanto jogador para o papel de treinador. Também sentes isso?
Meyong: É verdade. Se não és inteligente enquanto jogador, é quase impossível seres inteligente para treinares. O jogador tem que perceber o jogo, porque vais para o campo e tens que perceber o que é que vais fazer lá dentro. Se não percebes é muito difícil e como treinador ainda mais, porque aí tens que perceber de todas as posições e de todo o sistema. Enquanto jogador, basta concentrares-te nas tuas funções. É um pouco mais fácil. Ele como jogador já era inteligente, jogava no meio-campo. Apesar de no tempo do Belenenses ainda ser miúdo. Por isso, a mim não me surpreende nada.
Bola na RedePortanto, estás a gostar do trabalho que ele está a fazer no Sporting.
Meyong: Tenho que lhe dar os parabéns. Eu sabia que lá no Sporting ia ser mais difícil do que em Braga, porque a equipa do Braga tinha um bom plantel e a equipa estava mais unida. Era mais fácil gerir a equipa do Braga do que a do Sporting. No Sporting, ele construiu uma equipa quase toda nova e teve logo resultados. O campeonato português ganha com isso. Quantos mais candidatos tivermos melhor.
Bola na RedeDepois de uma passagem por Espanha, regressas ao Belenenses e dá-se aquele que ficou conhecido como o “Caso Meyong”, em que jogaste por três clubes diferentes na mesma época, o que é contra as regras. Em algum momento te sentiste culpado pela situação?
Meyong: Não me senti culpado. Culpado, se calhar, de não saber todas as regras. Tenho a certeza que há poucos jogadores que conhecem as regras todas. Também não vale a pena. Se um jogador tem que saber as regras e essas coisas todas, para que servem os empresários e os diretores técnicos? Se cada um fizesse o seu trabalho, esse caso nem devia ter acontecido. O meu empresário devia saber dessas coisas. O diretor técnico, que contrata o jogador, também deve saber que não pode contratar um jogador que não pode jogar. A culpa não é do jogador, isso é trabalho dos empresários e das direções. Naquele momento, eu não sabia dessa regra. A lei é a lei. Acredito que isso nunca mais vai acontecer. O pessoal do Belenenses também foi correto comigo. Só é pena não ter jogado.
Bola na RedeSegue-se o Braga, onde reencontras Jorge Jesus que já admitiste ser um treinador especial para ti.
Meyong: Aprendi muito com ele. Ajudou-me muito a melhorar o meu futebol. Com ele, como disse, joguei em muitas posições e em cada posição aprendia muito. Facilmente conseguia jogar, porque eu era atento quando me explicavam as coisas e se não percebia perguntava. No momento em que ele me convidou para ir para o Braga, disse logo que sim, apesar de ainda ter contrato com o Levante. Cada ano que eu passava com ele, era melhor para mim. Também fiz uma grande época com ele. Depois ele saiu.
Bola na RedeGostas do estilo de liderança dele?
Meyong: Sim. O Jesus já mudou muito. O Jesus que eu conheci no Vitória FC não é o mesmo Jesus que eu conheci em Braga. Seguramente, já não é o mesmo no Benfica. É um homem que evolui, como toda a gente. Uma vez disse-lhe: “Mister, em Setúbal não era assim”. Em Setúbal, a gente treinava mesmo muito. Corrida, muito trabalho físico… Em Braga já era mais bola, um pouco mais de tática… Em Setúbal, não tínhamos tanta qualidade, então a nossa força era correr atrás dela [da bola]. Em Braga, tínhamos uma equipa com muita qualidade. Apesar de já não ser com ele, não é por acaso que acabámos vice-campeões. Desde aí o Braga está sempre a subir. No Benfica, ele apanhou jogadores ainda mais evoluídos, o que quer dizer que o trabalho tem que ser feito de outra maneira.
Bola na RedeAchas que ele vai mesmo pôr o Benfica a jogar o triplo?
Meyong: Se jogasse o dobro já era bom. A equipa ainda não arrancou. Ele vai andar em cima deles. Os jogos do Benfica parecem jogos de pré-época. Ainda não estão a jogar o que podem jogar. Eu acho que, em termos de individualidades, o Benfica tem muitos bons jogadores, o plantel está muito bom. Por isso, não se compreende o baixo rendimento, em termos de equipa. Quando vês o onze do Benfica, são só jogadores de qualidade. Eu acredito que se há alguém com capacidade de reverter a situação é ele.
📸 Albert Meyong Ze faisait les beaux jours du Sporting Braga. 🦁🇨🇲 pic.twitter.com/RGMrMcfLOH
— AllezLesLions (@AllezLesLions) April 29, 2020
Bola na RedeJá referiste que chegaste a ser vice-campeão pelo Braga. No campeonato português, é um feito de assinalar.
Meyong: Foi um ano espetacular. Mérito do treinador, o Domingos Paciência, que fez um grande trabalho. Tínhamos um grupo muito forte. Para mim, um dos melhores plantéis que o Braga já teve. Praticávamos um bom futebol. Conseguimos pôr o Braga na Liga dos Campeões e fizemos história. Agora, o Braga é claramente candidato todos os anos [a ser campeão]. Para seres campeão tens que ser duro, mas também assim é que sabe bem. Neste momento, apostaram num treinador que também tem condições e que já provou que tem qualidade. Vamos ver o que vai acontecer este ano. O ano passado era o ano ideal para o Braga ser campeão, porque os dois primeiros perderam muitos pontos. Não me lembro de ter visto os candidatos ao título a perderem tantos pontos. O Braga pagou pelo mau início de campeonato.
Bola na RedeTambém tiveste a chegada à final da Liga Europa.
Meyong: Nós contribuímos muito para o crescimento do Braga. Fizemos um grande jogo contra o Porto. Perdemos 1-0, mas não nos podemos esquecer que o Porto tinha uma das melhores equipas naquele ano. Numa final, tudo o que podia acontecer, aconteceu. Fizemos uma competição brilhante. O Braga está a confirmar essa grandeza a nível Europeu.
– O tropeço de um grande –
«Toda a gente vai para a frente, mas o clube vai para trás»
Bola na RedeTrabalhaste como treinador-adjunto no Vitória FC. Entre as várias equipas técnicas que entraram e saíram mantiveste-te sempre. Na época passada, numa equipa com tantos problemas, era importante existir um elemento de estabilidade?
Meyong: Eu era treinador do clube, tinha contrato com o clube. Normalmente, os treinadores que vinham tinham uma equipa. Quando eles se iam embora eu ficava, porque era treinador da casa. O facto de termos tido tantos treinadores também não contribuiu muito, mas o Vitória FC tinha outros problemas que, se calhar, acabaram por meter o Vitória FC onde ele está. O Vitória FC não foi bem gerido. Mesmo assim, continuo a acreditar que as coisas podem voltar ao normal. Tenho que acreditar. Um clube como o Vitória FC não pode morrer. Acreditamos que podemos voltar.
Bola na RedeQuando assumiste o cargo de forma interina, existia a possibilidade de, se as coisas corressem bem, continuares como treinador principal?
Meyong: A direção nunca me pediu isso. Eu só fazia o que a direção me pedia. Nem tinha muita ajuda, porque, no jogo que fiz, tinha uma equipa técnica de cinco [elementos]. Era para ajudar enquanto eles decidiam o que iam fazer. Eu defendia os interesses do clube. Quem manda é o presidente. Não tive problema nenhum. Se ele me pedisse para ficar, eu também ficava. A direção achou que tinha que arranjar um treinador. Aliás, foram buscar o Lito Vidigal, mas não sei se havia necessidade, porque faltavam quatro jogos. O melhor, se calhar, era não deixar ir o Julio Velázquez. De qualquer maneira, acho que as decisões não foram boas, mas o mal já está feito.
Meyong vai integrar equipa técnica de Couceiro no Vitória FC https://t.co/J5lZ61mDNl pic.twitter.com/0VpixTvGoD
— B24 (@B24PT) June 16, 2017
Bola na RedeTambém sofreste com os salários em atraso?
Meyong: Tinha contrato com o Vitória, por isso, nos salários em atraso, estávamos todos juntos. Estivemos não sei quantos meses… Até hoje… Pensava que nunca mais ia ter esse tipo de problemas, que isso era uma coisa de antigamente. É muito mau para o jogador que ganha pouco e tem que treinar todos os dias. Ele é que sofre mais, mas acaba por sofrer toda a gente. Os empregados do clube também precisam de receber. A nova direção está a tentar arranjar solução, porque o clube precisa.
Bola na RedeSe ainda jogasses, eras capaz de fazer aquilo que o Nuno Pinto, o Zequinha e o José Semedo fizeram e acompanhar a equipa até aos escalões não profissionais?
Meyong: Sim, jogava. Se eu pudesse ajudar, eu ajudaria. Estamos a falar de um clube que eu gosto. Estou sempre disponível para ajudar. O Zequinha e essa gente toda têm possibilidade de ajudar e isso é fantástico. Se eu tivesse essa oportunidade, era com alegria que ajudaria. Se calhar, por enquanto, não precisam da minha ajuda, mas tenho que apoiar quem está a ajudar. É dessa forma que eu penso as coisas.
Bola na RedeQue diferenças é que encontras entre o Vitória FC de hoje e o Vitória FC que encontraste quando chegaste pela primeira vez?
Meyong: Quando cheguei, o Vitória FC estava na Primeira Divisão, não é? Agora, parece um clube um pouco abandonado, não tem nada a ver. No Braga, quando cheguei, era uma coisa. Agora, têm escolinhas, têm centro de formação… Está sempre a evoluir, mas no Vitória FC não. As coisas até vão para trás. Quando eu cheguei tínhamos um campo de treino. É que já nem campo de treino a gente tem agora. Não é normal. Toda a gente vai para a frente, mas o clube vai para trás. As pessoas que vão gerir o clube têm que pensar primeiro no clube e não nelas. Quando os sócios, como eu sou, começarem a ir para o Vitória FC para ajudar, as coisas vão mudar. Se a nova direção for com a intenção de ajudar, nem que seja um bocadinho, já é qualquer coisa. Se um vier e ajudar um pouco, o outro vier e ajudar um pouco, com muitas ajudas pequenas vai dar uma grande ajuda. Antes era: ninguém ajudava e ainda tiravam. Depois, é muita gente a tirar e pronto… o clube caiu. Se o pessoal começar a ir lá para servir o clube e não para se servir, vamos ter um Vitória FC que vai voltar e voltar mais forte.
– Um leão indomável –
«Eu era mais forte e mais conhecido do que o Eto’o nos Camarões»
Bola na RedeQue tal foi a experiência na seleção dos Camarões?
Meyong: Na seleção principal não consegui jogar tanto como gostava, mas fiz parte, por exemplo, da equipa que ganhou os Jogos Olímpicos e esse é um dos meus maiores feitos que os Camarões conseguiram a nível internacional. Fazer parte disso é notável. Também joguei jogos da CAN. Gostava de ter jogado o Campeonato do Mundo, mas não cheguei a jogar. De qualquer forma, estou satisfeito com a minha carreira. Quando eu jogava, os Camarões estavam muito fortes. Na minha posição, tinha o [Samuel] Eto’o e tinha o [Patrick] Mboma, não era fácil.
Bola na RedeComo foi partilhar a posição de avançado com o Eto’o?
Meyong: O Eto’o era muito forte. Ele evoluiu muito. Quando estávamos nos Camarões, ele não era assim tão forte. Eu acho que era mais forte e mais conhecido do que ele nos Camarões, quando éramos miúdos. Eu cheguei a entrar em jogos da Primeira Divisão dos Camarões, mas ele nunca jogou. Quando jogámos a eliminatória dos Jogos Olímpicos é que eu vi que ele tinha melhorado. Não finalizava tão bem como eu, mas era muito rápido e isso era uma vantagem que ele tinha. Era um orgulho jogar com um jogador do nível dele. Não posso falar só no Eto’o. Tinha outro jogador muito bom, o Mboma. Tinha muita classe, muita qualidade, era muito bom na finalização. Tecnicamente, tinha um pé esquerdo…
Bola na RedeSe tivesses que escolher entre Roger Milla e Eto’o, quem é que escolhias?
Meyong: Essa é muito difícil. Isso não se pergunta a um camaronês [risos]. Eu vou dizer Roger Milla. Eu vi-o jogar. Se calhar não era tão rápido como o Eto’o, mas, como finalizador, não sei se alguém finaliza como ele. Nunca vi nenhum jogador a finalizar ao nível dele. É incrível. Com 40 e tal anos conseguiu fazer golo no Mundial, isso quer dizer que ele tinha mesmo qualidade. São dois craques.
Albert Ze Meyong@ Kourichi en action lors du match des quart de finale de la coupe D’afrique des nations entre le Cameroun v Côte d’Ivoire au stade militaire Acadamy, Le Caire le 4 février 2006 au Caire, Égypte. pic.twitter.com/XZsEpPENF5
— LA TANIÈRE DU LION (@EkokoFrancois) November 4, 2020
Bola na RedeOs Camarões continuam a ser uma das seleções africanas mais fortes mesmo depois da desilusão na última CAN e de terem falhado o Mundial?
Meyong: Sim, os Camarões são uma das seleções mais fortes de África. Falhámos na última CAN, mas não nos podemos esquecer que éramos campeões. Isso pode acontecer. O mais doloroso foi falhar o Mundial. Nos Camarões, a ida ao Mundial é mais que tudo. Este ano, vão fazer tudo para irem. A equipa está boa, temos muitos jogadores de qualidade, mas a África é como a Europa agora, já não há equipas pequenas. Os países que ninguém conhecia já jogam bem. Apanhas Cabo Verde ou Moçambique e não penses que vais dar 4-0 a andar. Porquê? Por que é muito mais fácil os jogadores se tornarem profissionais, jogarem na Europa ou até jogarem na África do Norte, porque nos países do Magrebe o futebol é profissional, tal como na África do Sul. Chegas lá a pensar que eles não sabem jogar e estás enganado. É mais difícil, mas os Camarões vão ser sempre favoritos para essas coisas todas.
Bola na RedeAinda assim, parecem estar num processo de renovação. O sucesso da seleção passa por garantir que jovens talentos que saíram do país muito cedo e que adquiriram outras nacionalidades vão jogar pelos Camarões?
Meyong: Normalmente, os Camarões não têm esse tipo de problemas. Os jogadores que estão fora têm orgulho de ir para os Camarões, porque não é uma equipa qualquer. Os jogadores que estão aqui na Europa sabem que os Camarões não são uma equipa pequena e, por isso, eles vão lá. Depois, podem existir problemas de organização, como o caso que aconteceu com o [Joel] Matip. Os jogadores vão lá e podem não gostar do funcionamento da equipa e acharem que está desorganizado e não irem, como foi o caso do Matip e que ele não gostou muito. Até hoje, deixou de ir, mas qualquer dia pode regressar. Toda a gente sabe que ele é uma mais-valia. Depende também do treinador que tem que tentar convencê-lo e provar que as coisas estão no lugar. É preciso ir com calma. Os africanos têm outro ritmo em termos de mudança. Os Camarões estão a fazer de tudo para dar condições aos jogadores.
Bola na RedeEstava-me a lembrar do caso do Youssoufa Moukoko, do Borussia Dortmund, que tem nacionalidade camaronesa.
Meyong: Imagina que a Alemanha o quer. Os Camarões não vão ter condições para competir com a Alemanha. O que é que os Camarões têm que ter? Têm que participar sempre no Mundial. Se assim não for, perde-se a força que têm em termos internacionais. Jogadores como esse querem jogar o Mundial. Estava a falar do Matip, a CAN não lhe interessa tanto, mas se fosse o Mundial ele ia. São essas coisas que tens que balancear.















