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Soube hoje durante o nosso jantar cá de casa que terá recebido um email do meu filho mais novo. A minha filhota não aguentou e acabou por me contar.
Sinceramente nem sei o que dizer, mas de qualquer forma peço-lhe desculpas pelo abuso. As crianças são de facto impulsivas e uma caixinha de surpresas, e no caso do meu João, essa é uma descrição que lhe assenta bem.
A verdade é que mal soube comecei a ralhar com ele, mas quando me perguntou com a ingenuidade própria dos seus seis anos se o senhor teria lido o que ele lhe enviou, não fui capaz de lhe dizer que provavelmente não, mas antes um “óbvio que terá lido João”.
Escrevo-lhe assim este email para lhe pedir desculpas, mas também para tentar justificar a audácia do meu filhote. Não que tenha muitas certezas que tenha lido o email que ele acabou por me mostrar a muito custo, mas, se porventura o tiver feito, aqui ficam as minhas palavras para si e também como resposta para o meu querido filho.
Filho, o pai não deixou de gostar de Futebol, até porque isso seria impossível. Nem tão pouco deixei de me alegrar, sofrer e entristecer com esse que é de longe o “maior espetáculo do Mundo”. Quando vou no carro sem a mamã e sem vocês sabes que eu ainda sintonizo as rádios que costumam passar notícias e debates sobre Futebol? É mais forte que eu! Tento evitar, mas acabo sempre por me fartar rapidamente da música que costuma passar (e que é dia sim dia também quase sempre a mesma) e pumba: ali estou eu a tentar ouvir falar daquilo que me enche muitas vezes a alma, o espírito e me consome como poucas coisas.

Fonte: imortaisdofutebol.com
Sei que isto ainda não te acontece, mas possivelmente daqui a uns tempos irás acordar e um dos teus primeiros pensamentos será: “Hoje é o grande jogo!”. À medida que o relógio “corre” para a hora marcada, começarás a ficar impaciente, com um nervosinho na barriga, querendo que o tempo passe para o culminar do início daquele jogo. E o tempo em vez de “correr” simplesmente faz uma caminhada lenta. E então para que o tempo “corra” irás inventar coisas que te ocupem o corpo e a mente, para que “a hora marcada” chegue mais rapidamente. O futebol influencia-nos desta forma e contra isso será muito complicado combateres. Pelo menos para o pai é.
Filho, os amantes de futebol, ou pelo menos comigo acontece desta forma, gostam de “partilhar”. Não ter com quem partilhar as dúvidas, os lances, as alegrias e as tristezas para mim não faria muito sentido. E sabes com quem gosto mais de partilhar todas estas emoções? Convosco, meu querido filho. Com a mãe, com a mana, e contigo em especial. Porque tu és o meu parceiro na futebolada. És o único cá de casa que já percebe bastantes coisas de futebol. A mãe e a mana são uns amores, mas aqui que ninguém nos ouve, elas não percebem nada de bola filho. Mesmo quando parecem querer perceber e fazem perguntas, eu acho que é só para nos verem felizes e para nós pensarmos que elas estão interessadas. Mas na realidade elas não percebem patavina.
A resposta já vai longa, mas para terminar quero-te contar um segredo que ficará só entre nós. Não podes contar à mãe nem mesmo à mana. Ok? Então cá vai. Mas guarda segredo por favor. Eu na outra semana fui de novo ao estádio ver o jogo da nossa equipa. É verdade! Não disse a ninguém e lá fui eu. A mãe pensou que era um jantar de amigos, mas na realidade fui ver o nosso clube de coração.
“Mas não foste equipado pai! “ – Estarás tu a pensar.
Pois não filho. Não levei o equipamento. Só me fiz acompanhar do outro cachecol que tenho no carro. Confesso que me sentia um bocadinho despido com a falta da “roupa de adepto”. E pelo caminho não ia com aquela motivação e paixão com que costumava ir quando ias comigo desde os tempos em que tinha que te levar ao colo porque assim era mais seguro no meio daquelas pessoas todas.

Fonte: Lux
Não ia com aquele sorriso e alegria e sentia a tua falta. Mas sabes meu querido, assim que se avista o nosso estádio, tudo, ou quase tudo o que rodeia o futebol, passa a ser secundário perante aquela “visão”. E depois quando se caminha para o estádio, e finalmente se chega às bancadas então aí tudo se esquece, e sentimos o nosso coração mais aconchegado e percebemos que apesar de tudo o futebol não deixou de ser uma paixão inesquecível, inexplicável, só tendo palavras para descrever aquilo que se sente se o nosso coração fala-se. E depois o aquecimento, os cânticos das bancadas, a entrada das equipas em campo, o apito do árbitro para o início do jogo. E assim nos perdemos durante aqueles 90 minutos…
Por isso filho não tenhas medo: o fim das novelas cá de casa, ou pelo menos de parte delas, acabará por acontecer. Porque o pai não resiste ao poder da bola. E porque também não resisto a estar a teu lado naquelas tardes maravilhosas a dois.
Desculpe, Sr Presidente. Sei que me alonguei demasiado. Que provavelmente não irá ler este email porque deve ter muitos para responder e muito trabalho em mãos.
Se puder tente realizar o desejo de uma pequena criança de seis anos. Mas mesmo que não dê, então ficará com a certeza que tentou tudo. E mesmo que não faça tudo, ainda assim, fique descansado que o meu pequenote irá ter longas tardes e noites de futebol com o pai. Porque esse desporto, apesar de tudo, não deixará nunca de nos apaixonar e de fazer os nossos corações baterem mais forte.
Com os melhores cumprimentos,
Mário Santos (o pai do João)













