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Os treinadores que falam e os que nada dizem

Tiago Ferreira · 3 min

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É com atenção redobrada que acompanho as variadas conferências de imprensa que ocorrem semana após semana. Por norma, é sempre mais fácil ao espectador comum assistir à dos chamados três grandes, mas, com um pouco de atenção, facilmente se consegue aceder ao que foi dito pelos demais. É sobre isso que vos pretendo falar um pouco.

Há treinadores que dizem muito. Há treinadores que dizem pouco. E há treinadores que nada dizem.

É com satisfação e sempre com curiosidade que acompanho ou leio o que foi dito por alguns treinadores da nossa praça futebolística. Porque há sem dúvida alguns que falam. Que transmitem. Que entendem que as perguntas dos órgãos de comunicação são muitas vezes o reflexo das perguntas que o comum adepto deseja ver respondidas. Então ouvimos esses mesmos senhores a comentar uma substituição, uma alteração táctica, um determinado lance, o porquê de ter optado por um jogador em detrimento de outro ou o que quer que seja.

Neste contexto de “treinador explicador”, temos alguns dos mais ilustres treinadores do nosso futebol, encontrando à cabeça destes nomes como o de Sérgio Conceição, Jorge Jesus, Luís Castro, Vítor Oliveira ou até Abel Ferreira.

Sérgio Conceição tem sido uma lufada de ar fresco na comunicação do FC Porto
Fonte: FC Porto

Estes treinadores não nos limitam ao óbvio e falam realmente de Futebol, sendo alguns deles até capazes de assumir culpas por determinado resultado ou considerarem “injustas” vitórias que surgiram quase aos trambolhões para a equipa que defendem, como já aconteceu recentemente, por exemplo, com o atual treinador do GD Chaves.

A cada um deste género de treinadores, uma vénia seja feita e uma salva de palmas pela a sua capacidade de informar e de não se esconderem em subterfúgios.

Depois há treinadores que dizem pouco. Alguns até falam bastante – impossível esquecer Manuel Machado -, mas que dizem pouco. Falam sobre o jogo, dão algumas pinceladas em algo que aconteceu no jogo ou na preparação do mesmo, falam “volta e meia” especificamente num dos seus jogadores, ou, “quando o rei faz anos”, são eventualmente capazes de dar um murro na mesa, de dissecar uma teoria relacionada com o futebol em geral e o “futebol tuga” em particular, ou sobre um ou outro tema do interesse público.

E depois há os treinadores que nada dizem. E não querendo ir muito a nomes, não querendo ferir muitas suscetibilidades, difícil é fugir ao topo desta hierarquia onde se encontra, claramente, o treinador do tetra campeão nacional, Rui Vitória.

Rui Vitória “esconde” vezes demais o que lhe vai na alma
Fonte: SL Benfica

E como são estes treinadores? São autênticos “robots”.  Antes da conferência de imprensa uma pessoa relativamente atenta ao futebol, consegue quase na íntegra adivinhar o que vai ser respondido, e com um pouco mais de esforço até a entoação será descoberta.

Perguntamos diretamente sobre algum jogador e automaticamente estes treinadores levam-nos para o campo do “não gosto de individualizar situações.” Perguntamos o porquê de algo que terá ocorrido e levamos com um “esse assunto é do foro interno do clube e será discutido no sítio certo, que não é, claramente, aqui”.

São várias as vezes que num exercício mental mais ou menos fácil, se colocam de lado questões que se sabem à partida que não terão uma resposta pronta e esclarecedora. Não vale a pena perguntar sobre opções técnicas ou tácticas, porque a conversa cairá no habitual “procurámos dar mais equilíbrio há equipa” ou “tentou-se que a dinâmica fosse superior” ou algo pouco diferente disto.

Por fim, estes treinadores são capazes de nos surpreender, uma ou duas vezes por ano, mas dificilmente no onze inicial de um qualquer jogo, ou nas suas substituições. Facilmente conseguimos adivinhar quem entrará para o lugar de quem, e até mesmo o período de jogo em que tal acontecerá, conforme esteja o resultado. Muitas vezes os “sacrificados” são os habituais, mesmo que a prestação pareça, ao adepto generalista, melhor do que a de algum eventual não substituído.

Para que isto mude, aconselho, mesmo não sendo ninguém para o fazer, a que estes treinadores abram o jogo, e entendam que não estão a matar a curiosidade das pessoas que os questionam, mas antes a falar para todos os simpatizantes, adeptos e sócios dos seus clubes, os mesmos que fazem com que eles tenham empregos, porque afinal eles são o clube.

Por favor, façam das vossas competências técnicas as vossas competências comunicacionais. Abram um nadinha da porta que para alguns parece estar quase sempre fechada, ou entreaberta, mas sem que se consiga passar para o vosso mundo. Porque também o vosso mundo, as vossas palavras e as vossas emoções são parte integrante do nosso futebol.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Tiago Ferreira

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