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28 de junho de 2000, Bruxelas. Portugal e França lutavam por um lugar na final do campeonato da Europa. Nuno Gomes e Thierry Henry tinham já feito a sua parte naquela noite. O resultado era de 1-1 no final dos 90 minutos. O prolongamento manteve o teimoso empate até ao minuto 117. David Trezeguet tenta ultrapassar Vítor Baía. Não consegue. A bola sobra para Sylvain Wiltord que, com a camisola 13, lançou todo o azar possível sobre Portugal. O remate que o francês desferiu esbarrou na mão do nosso entrevistado, Abel Xavier. O árbitro marcou grande penalidade e Zidane marcou o golo de ouro que deitava por terra o sonho da nação portuguesa de vencer o Europeu. Em 2016, a história foi reescrita e Portugal venceu a França na final. Essa conquista, como nos conta Abel Xavier, retirou-lhe algum peso de cima.
O percurso na seleção marcou este internacional português, mas a sua carreira fala por si. Estrela da Amadora, Benfica, Bari, Real Oviedo, PSV Eindhoven, Everton, Liverpool, Galatasaray, Hannover, Roma, Middlesbrough e LA Galaxy foram as paragens do jogador oriundo de Moçambique. Como treinador, as experiências no Olhanense, Farense e Aves também lhe enchem o currículo. Ainda assim, foi na seleção moçambicana que teve mais impacto pelas alterações que operou nos Mambas.
– Antes de ser Estrela –
«Tenho orgulho em poder andar de chinelo e calção, mas a vida também me proporcionou que eu pudesse andar de fato e de smoking»
Bola na RedeTendo em conta o teu passado ligado aos dois clubes, como viste o Estrela X Benfica desta terça-feira [entrevista realizada a 15-01-2020]?
Abel Xavier: Eu tenho acompanhado este recomeço por parte do Estrela da Amadora. É um clube que fez parte da minha história e da minha evolução. Tenho falado com alguns responsáveis da administração do Estrela. Fui uma das pessoas que quis estar por dentro daquilo que é o meu Estrela da Amadora atualmente, quais eram os objetivos e a forma como estava estruturado. Parece-me que está num bom caminho e que as pessoas têm competência e capacidade. É lógico que é um percurso difícil, muito árduo no que diz respeito ao trabalho, mas as pessoas precisam de acreditar. Foi muito importante para o crescimento do Estrela da Amadora que tivesse, a nível competitivo, uma oportunidade de ter maior visibilidade. Jogar contra o Benfica, por tudo o que o Benfica representa, não só a nível nacional, como a nível internacional, projeta o Estrela da Amadora para outro tipo de notoriedade. As duas estruturas tiveram sempre afinidades e relações muito cordiais. Não tenho dúvida que o percurso de uma equipa em relação à outra é diferente. Para o Benfica, a Taça de Portugal é um objetivo assumido e, para o Estrela da Amadora, penso que foi uma jornada para dignificar o clube e o município e dar a oportunidade aos jogadores de acreditarem que estar no alto rendimento não é difícil, é um passo muito curto. Eles tiveram uma atitude competitiva muito boa. Foram uma equipa que soube estar no campo, muito bem organizada e daí também os meus parabéns ao treinador Rui Santos, que está a fazer um excelente trabalho. É o caminho que o Estrela tem que trilhar. O Benfica é uma instituição de enorme valia e o jogo jogado determinou que a equipa mais forte passasse à etapa seguinte. Acho que foi de um grande simbolismo este Estrela X Benfica.
Bola na RedeVamos então falar sobre o início da tua carreira. Com que idade vieste para Portugal?
Abel Xavier: Eu venho de Moçambique e há fatores que unem os países. Houve um acontecimento histórico que fez com que muitos africanos fossem integrados na sociedade portuguesa. A minha família foi uma delas. Parte da minha família continuou e continua em Moçambique, a outra parte da família decidiu vir para Portugal. Foi em Portugal que nós, a minha família (neste caso, os meus avós e os meu pais), tivemos que trilhar um caminho muito difícil. Estamos a falar de tempos onde era muito difícil a integração do ponto de vista social. Estivemos envolvidos na constituição dos bairros clandestinos, porque o fluxo de muitos africanos assim o determinou. Sou um produto que foi criado nos bairros. Sou um produto de rua, de futebol de rua, de futebol de comunidade, mas nunca perdendo os pilares educacionais que eu considero importantes e que a minha família sempre me deu. Num determinado momento, tentei ir do futebol de rua para um futebol com o qual sonhava. Comecei a minha formação, numa primeira fase, numa tentativa de ir ao Belenenses, porque eu vivia num bairro social no Vale do Jamor. Fui tentar com um grupo de amigos. Na altura, o Belenenses gostou das minhas capacidades, mas tínhamos um compromisso que ou ficávamos os quatro ou voltávamos a jogar no bairro outra vez. Um ano depois, vamos à experiência ao Sporting e acabei por ficar. De alguma forma, cresci dentro da estrutura da formação do Sporting dos oito até aos dezassete anos, onde encontrei figuras ímpares, pessoas fidelizadas à causa e que entendiam os problemas sociais, relacionais e escolares. Naquela altura, essas pessoas, nomeadamente no Sporting (César Nascimento, Osvaldo Silva, João Barnabé, Aurélio Pereira, Carlos Pereira, [Vitorino] Bastos, toda aquela geração de formadores) foram extremamente importantes para a formação de tantos jogadores que estavam perdidos e que precisavam de orientação através do futebol. Foi assim que eu comecei o futebol de formação.
Bola na RedeComo disseste, vinhas do bairro, mas deviam existir jogadores que vinham de outro tipo de ambiente social. Como foi lidar com isso?
Abel Xavier: Quando eu fui à experiência ao Sporting, era uma triagem de mais de três mil crianças. Imagina o sonho de todas essas crianças de tentar entrar numa das grandes academias do país. Eu tive essa felicidade. Obviamente, tem a ver com o talento que tinha sido identificado por pessoas bastante qualificadas na altura. Aquilo a que se chama, hoje em dia, o scouting sempre aconteceu. Estas pessoas tinham um olho muito especial e foram figuras que substituíam o lado paternal. Uma formação só pode ser bem conseguida se nós encontramos nesse processo as pessoas que substituem muitas vezes as figuras paternais que estão ocupadas noutras tarefas, em busca de outro tipo de condições. Naquela altura, essas pessoas entendiam muito bem o que era assiduidade, boas notas e bom comportamento. Nós só tendo essa avaliação positiva é que podíamos treinar e conviver. Estamos a falar de outros tempos. Sabíamos que o sonho de entrar na formação do Sporting era transitar, mas nunca perdendo a noção das pessoas que estavam sempre lá. Com 17 anos, nos juvenis, sou dispensado e foi quando eu fui para o Estrela da Amadora. Fomos todos para o clube periférico, dos supostamente dispensados pelos clubes grandes. De facto, o Estrela da Amadora era um clube simpático que estava dentro de uma comunidade com muitas particularidades sociais, mas que tinha pessoas que entendiam que das dificuldades se faziam forças. Criámos equipas extremamente competitivas, nomeadamente a equipa de juvenis e de juniores, e lutávamos com as equipas grandes que, naquela altura, seriam o Benfica, o Belenenses e o Sporting. Depois, aparece o Estrela da Amadora muito competitivo na zona de Lisboa.
Bola na RedeMesmo no meio desse rigor todo deu para manteres alguma da tua irreverência.
Abel Xavier: Sem dúvida. Não podemos abdicar daquilo que somos. Não podemos esquecer as nossas raízes. É óbvio que nesse processo nos temos que adaptar, mas eu mantive-me íntegro ao longo da minha carreira, não só ao nível da formação. Mantive a minha irreverência e a minha imagem, porque há outros valores mais importantes. Também foi um desafio, porque esta questão da irreverência e da imagem tem muito que se lhe diga. Há uns que dizem que abre portas e outros que dizem que fecha portas. Isso tem a ver com mentalidades. Podemo-nos afirmar por aquilo que somos e não por aquilo que as outras pessoas gostariam que fossemos.
Bola na RedeComo se costuma dizer, saíste do bairro, mas o bairro nunca saiu de ti.
Abel Xavier: Tenho muito orgulho em dizer que sou do bairro. Também tenho orgulho em poder andar de chinelo e calção, sem problema nenhum, mas a vida também me proporcionou que eu pudesse andar de fato e de smoking. Ao nível da minha carreira, é manter aquele profissionalismo que eu acho que caracterizou o meu percurso todo. O processo educacional, social, de crescimento e aprendizagem é o que faz aquilo que somos.
Bola na RedeDos tempos do chinelo e dos calções tens alguma memória com a bola nos pés?
Abel Xavier: Não sei para onde é que eu vou, mas jamais me esquecerei de onde é que eu vim. O passado é um facto. O futuro, por muitos objetivos que possamos ter, é muito incerto. Sinto um enorme orgulho que a minha família, neste processo, tenha do pouco feito muito e mais tarde eu tenha podido devolver tudo aquilo que me aportou. Entre coisas boas e coisas más, há momentos em que olhamos para o lado e a família conta verdadeiramente.
Bola na RedeDepois do Sporting, como disseste, foste para o Estrela e acabaste por chegar à equipa principal. Como foram esses tempos?
Abel Xavier: Não posso dizer que a minha dispensa [do Sporting] foi injusta. Houve alguém que entendeu tomar determinadas decisões. O critério não pode ter sido a longevidade e o passado, porque eu já estava na estrutura do Sporting desde os infantis. Portanto, eu considerava que era um valor seguro. Surpreendentemente, sou dispensado e vou para o Estrela da Amadora. Volto a encontrar figuras que compreendiam o fenómeno das dificuldades sociais. Estamos a falar de 17/18 anos, que é uma idade muito crítica, uma idade em que podemos chegar lá [ao topo] ou não. Começamos a definir objetivos que podem relegar a questão escolar para segundo plano, quando nós ainda não temos uma carreira definitiva. Temos que continuar a ter gestores que nos possam amparar e orientar. Aí encontrei Faustino e Augusto Matine, que partiu recentemente. Augusto Matine, moçambicano, foi uma das grandes figuras no sentido de angariar e recrutar muitos africanos. Posto isto, mesmo a jogar no Estrela da Amadora, começo a ser convocado para a seleção da Associação de Futebol de Lisboa e participamos no torneio de associações que Lisboa ganhou. Esse torneio alimentava a seleção nacional sub-16. Então, começo a entrar dentro do aparelho federativo com Carlos Queiroz e Nelo Vingada. Esse percurso levou-nos a estar dez anos nas seleções portuguesas de formação. Dos sub-15 aos sub-20 eu estou no aparelho federativo da seleção portuguesa. Ganhamos o campeonato da Europa de sub-16 e somos campeões do mundo de sub-20. Enquanto jovem, tudo isto retirou qualquer tipo de desfoque que eu pudesse ter, porque passo a estar dentro de estruturas com disciplina, com um código de conduta e com comportamentos que tinham que ser de exemplo. Fomos jovens que crescemos muito rápido. Por isso é que, com 17 anos, estou na equipa titular do Estrela da Amadora com o Manuel Fernandes e o José Mourinho como treinadores. Sou um dos primeiros jogadores a jogar competições europeias no Estrela da Amadora X Neuchâtel Xamax. Tinha 17 anos, ia fazer 18. O Estrela da Amadora, na altura, consegue um título extremamente importante com João Alves, que foi a Taça de Portugal. No ano seguinte, cai de divisão e eu, todavia, sou convocado à seleção nacional A mesmo com o Estrela da Amadora na Segunda Divisão.
Bola na RedeO futebol faz os jovens crescerem mais rápido?
Abel Xavier: Depende das pessoas que nós encontramos no caminho. Se encontrarmos um equilíbrio na formação entre os problemas educacionais e sociais dos jovens e o compromisso e dedicação à causa é possível formarmos jovens com mentalidades adultas. O futebol é um grupo muito restrito. Há uma disciplina individual, de grupo e institucional e isto são particularidades importantes no desenvolvimento de um jovem. Retiramos o jovem da violência, da criminalidade e das drogas. Quanto às questões escolares, o jovem que é mais inteligente também vai compreender melhor o jogo. O futebol disciplina as pessoas.
– Luz encarnada –
«Em 1993/94, a força do balneário e a força da mística do Benfica ganhou o campeonato»
Bola na RedeA tua transferência para o Benfica também acontece quando jogavas na Segunda Liga.
Abel Xavier: Acabei por não me cruzar com o Jorge Jesus no Estrela da Amadora. Era um dos treinadores com quem eu gostava de ter trabalhado. Não foi possível. Consegui, através do Estrela da Amadora, atrair os grandes de Portugal, nomeadamente o Sporting, que pretendia o meu regresso, o Vitória SC e o Boavista, que também eram equipa muito importantes. Rapidamente o Benfica se antecipou a todos. Com a transferência do Jesualdo Ferreira, que foi auxiliar o Toni no Benfica, eu vou com ele. Dou o salto que também ambicionava. Vou para o Benfica com 21 anos, na época 1993/94.
Bola na RedeA escolha do clube dependeu de ti?
Abel Xavier: O Estrela da Amadora era um clube simpático e que tinha relações muito boas com todos os clubes e estava tudo tratado para regressar ao Sporting. Depois, o Benfica foi mais célere, rápido e incisivo e eu assinei pelo Benfica. Ia com um treinador que me conhecia bem, que era o Jesualdo Ferreira, e ia com o Toni, que é uma grande referência no Benfica, e que queria muito que eu entrasse para os quadros do Benfica. Senti que ia ter mais oportunidades, de forma imediata, de poder jogar.
Bola na RedeDentro do campo, a adaptação não deve ter sido fácil, tendo em conta que vinhas de uma equipa de Segunda Liga.
Abel Xavier: Só quem passa em clubes desta dimensão é que consegue sentir o peso da camisola. No dia e no momento em que se começa a vestir a camisola de um clube com a grandeza do Benfica é que se começa a perceber onde é que se está. Por muito talento e capacidade que eu tivesse evidenciado no Estrela da Amadora, eu teria que, acima de tudo, jogar pelo Benfica. Hoje, há muitas contratações falhadas por aquilo que se chama “período de adaptação”. Só vivendo as situações é que uma pessoa ultrapassa um qualquer défice competitivo ou psicológico. Há uns que o conseguem de uma forma muito mais rápida e há outros que levam mais tempo. Olhando para o meu passado, em termos educacionais, sociais e de integração, é lógico que eu tinha que ter capacidade de resposta rápida à dimensão do Benfica. Nos primeiros seis meses talvez tenha sido um dos jogadores mais criticados. Estamos a falar do antigo Estádio da Luz, que levava cerca de 120 mil pessoas e que eu creio que na final do campeonato do mundo de sub-20 até levou mais. Era um estádio muito particular. Mal cheguei ao Benfica fui titular. Comecei a jogar a lateral-direito. O Veloso passou para a esquerda. Eu tinha uma particularidade que me deu mais oportunidades no Benfica: eu tinha polivalência. Esta minha polivalência resguardou-me de algumas insuficiências de rendimento num ou outro momento. Começo como lateral-direito e acabo a médio defensivo a jogar com o Rui Costa. Tinha três posições que podia preencher: lateral-direito, defesa-central e médio defensivo. Isso era uma riqueza para o treinador. De criticado durante seis meses passei a ser indiscutível e a ser assediado, inclusive, pelo Parma. Não nos podemos esquecer que o Benfica estava inserido no grupo Parmalat, onde Marselha, Parma e Benfica tinham o mesmo patrocinador. Estamos na semifinal da Taça das Taças e cruzamo-nos com o Parma e o Carlos Mozer é expulso e eu vou jogar para central. A visibilidade de jogar competições europeias com o Benfica abriu-me as portas para o mercado internacional. No primeiro ano, quando somos campeões nacionais com o Benfica, com o grandioso jogo que fizemos em Alvalade, o 6-3, fizemos uma Taça das Taças fantástica. Só caímos no último minuto com um golo de [Roberto] Sensini. Essa versatilidade posicional que eu tinha fez com que eu fosse um jogador jovem apetecível para as equipas internacionais. No final dessa época, eu tenho o acordo feito para ser jogador do Parma. Dá-se a saída do Toni, dá-se a entrada do Artur Jorge e o Rui Costa vai para a Fiorentina. Com a mudança da equipa técnica, o Benfica impediu a minha saída e acabei por ficar com o Artur Jorge na época 1994/95.
Bola na RedeDessas posições todas, qual é que potenciava mais as tuas características?
Abel Xavier: O mais importante é jogar. Para a equipa técnica e para mim, ter polivalência significava que eu tinha uma compreensão sobre o jogo mais ampla. Depois, para o treinador, quando a equipa tinha problemas de ordem física ou castigos, era um recurso bastante interessante. Isto, ao longo da minha carreira, foi sempre uma mais-valia. Eu sou central de formação, não sou lateral-direito. Com os centrais que havia na minha geração, era muito difícil ser central, não só nos clubes, como na seleção portuguesa. Então, fui para lateral-direito. As posições onde eu me sentia mais confortável, até por causa da minha fisionomia, eram as posições do corredor central. Quer defesa, quer médio defensivo eram as posições onde eu gostava mais de jogar.
Parabéns, Abel Xavier! 🎈 #EPluribusUnum pic.twitter.com/C96828BRYl
— SL Benfica (@SLBenfica) November 30, 2016
Bola na RedeA adaptação ao Benfica custou-te mais do que, por exemplo, à Premier League?
Abel Xavier: São outros tempos. Quando vou para a Premier League já tenho uma grande bagagem internacional. Essa questão da experiência diminui as dificuldades de adaptação. O passo de ir do Estrela da Amadora para o Benfica, onde jogo para títulos e competições europeias, nunca pode ser visto da mesma forma como o passo para outros campeonatos. Estamos a falar de nos inserirmos num contexto competitivo onde podem haver algumas diferenças, mas nós já temos capacidade e experiência de alto rendimento. Eu tive um percurso que acho que foi progressivo, entre equipas que lutam para não descer, equipas que lutam pelo meio da tabela e equipas que lutam para ganhar títulos. Foi algo natural e que me deu uma capacidade mental, de abordagem e de conhecimento para lidar adaptar-me às realidades que encontrava.
Bola na RedeO Eusébio ajudou-te na tua chegada ao Benfica. Como é que era a tua relação com ele, tendo em conta que ele até tinha origens semelhantes às tuas?
Abel Xavier: Quando olho para o passado, até me interrogo de certas coisas que acontecem. Parece que é uma volta perfeita. Recentemente, tive três anos e meio em Moçambique, mas durante a minha carreira tive figuras moçambicanas emblemáticas. Já referenciei o Carlos Queiroz e o Augusto Matine, depois, no Benfica, Shéu e Eusébio. Anos depois, após regressar a Moçambique, refazer um pouco esta minha história foi muito gratificante. O King é uma figura ímpar. Sentir a paixão que ele tinha pelo jogo, sentir que com a idade avançada dele gostava de treinar connosco… Ele participava nos treinos connosco e a liderança e a forma como ele se envolvia, demonstrando querer ser um exemplo para os jogadores, é algo marcante. Ele só pode ter sido grandioso. Tive o privilégio de o ter, não só no Benfica, mas também como embaixador da seleção portuguesa. Esse tipo de pessoas foram importantes para o Benfica e para o futebol português. São elas que dão grandeza ao país e jamais serão esquecidas.
Bola na RedeFoi saboroso seres campeão pelo Benfica em 1993/94, antes do penta do Porto?
Abel Xavier: Já ouvi um ou outro colega, e até o mister Toni, falar sobre essa situação. Em 1993/94, a força do balneário e a força da mística do Benfica ganhou o campeonato. Quando estamos em estruturas grandes nós olhamos sempre para o vizinho, para os adversários. Nós sentimos que o adversário, a determinada altura, pode ter melhor equipa, pode ter um melhor momento ou pode ter um melhor grupo, fora os problemas que o Benfica estava a atravessar do ponto de vista económico, porque tínhamos salários em atraso. Tivemos um jogo-chave, em Alvalade, que tínhamos que ganhar para podermos estar na corrida. Eu era um jovem num balneário de líderes. Tinha na porta do meu quarto um póster de Carlos Mozer e ia dormir e dizia “um dia vou fazer dupla de centrais contigo”. Estava no balneário do Benfica e estava com Carlos Mozer, que foi um dos meus grandes exemplos. Depois, tínhamos outros jogadores marcantes: Rui Costa, João Pinto, Isaías, Vítor Paneira, Neno, Silvino… Até me custa referenciar, porque ganhámos o campeonato pela força do grupo. Muitos dizem que a mística vem de fora, mas a mística vem de dentro de um grupo de trabalho. Somos nós que somos responsáveis por poder aglutinar. Quando falamos da marca Benfica isso tem a ver com líderes, com jogadores.
– De um lado ao outro do Merseyside –
«Sou respeitado pelo Everton da mesma forma que sou respeitado pelo Liverpool»
Bola na RedeDepois de uma experiência em Itália e outra em Espanha, vais para a Holanda, para o PSV Eindhoven, onde és orientado por Bobby Robson. Como é que ele era?
Abel Xavier: Já conhecia um pouco de Bobby Robson. Ele tinha trabalhado no Sporting e deixou uma marca muito importante. Depois, foi para o Porto e continuou a ser um treinador muito querido pela forma de estar, acima de tudo. Tive o privilégio, mais uma vez, de ter trabalho com o Sir Bobby Robson no PSV Eindhoven. Quando, hoje em dia, falamos de trabalhar os recursos humanos, criação de empatia, da vertente comunicacional e do fazer acreditar, o maior exemplo da minha carreira nesse aspeto foi Bobby Robson. Ele era o primeiro, antes de dar um exercício, a exemplificar. Um treinador que tinha a idade que ele tinha, um treinador que tinha o peso internacional que ele tinha, um senhor que contagiava pela sua energia. Era um treinador muito capacitado a criar empatias. No seu desaparecimento, não estavam lá só pessoas do futebol. Só conseguimos ver a dimensão das pessoas analisando que tipo de pessoas é que estão a prestar tributo. Bobby Robson era uma das figuras mais inabaláveis do desporto mundial. Não creio que haja um jogador que tenha passado por ele, jogando mais ou menos, que não se sinta honrado por ter Bobby Robson como treinador.
Bola na RedeLidava bem com os egos dos jogadores, portanto.
Abel Xavier: Era exatamente a isso que me referia. Independentemente das decisões que um treinador tem que tomar, e são decisões que, muitas vezes, provocam desconforto, porque não podem jogar todos, quando elas são tomadas de uma forma honesta, frontal e comunicada da melhor maneira, o ambiente só pode ser saudável. Essa é uma das maiores qualidades de Bobby Robson. Era fantástico na gestão do grupo.
Bola na RedeSegue-se o Everton e o Liverpool. Sentiste muito a rivalidade do Merseyside?
Abel Xavier: Eu tinha quatro anos de contrato e saio do PSV Eindhoven porque Bobby Robson também sai. Tenho uma abordagem para ir para Inglaterra. Vou para Londres e tenho tudo acordado para ser jogador do West Ham treinado por Harry Redknapp. Uma grande equipa, com [Frank] Lampard, [Rio] Ferdinand e [Paolo] Di Canio. Estou num hotel de Londres com Harry Redknapp, só que o futebol é muito dinâmico. Quando pretendemos alguém, ou fechamos e concretizamos ou as coisas podem escapar, por muita vontade que eu, enquanto jogador, possa ter. Há questões que se levantam. Quando se falam de questões económicas, pode pesar mais para aquilo que é importante para o clube do que para o jogador. Na altura, Harry Redknapp quis considerar a situação e Walter Smith, treinador do Everton, antecipou-se e fui para o norte. Na altura, havia esse estigma de que os jogadores estrangeiros que queriam jogar em Inglaterra queriam as equipas de Londres. É uma falsa questão. Entrando no campeonato inglês, não importa onde estás. Estás no melhor campeonato do mundo. A partir daí ganhei noção da rivalidade que existia entre Everton e Liverpool. Entro no campeonato onde mais me identifiquei como jogador. Acompanho o crescimento do campeonato inglês e o crescimento do treinador estrangeiro em Inglaterra. A história da minha passagem do Everton para o Liverpool foi a transição de uma estrutura britânica, para uma estrutura mais internacional sob o comando de Gérard Houllier. Quando falamos do Liverpool atual, temos que ver que existe um passado fraturante que foi quando a administração deu via verde a Gérard Houllier para fazer as mudanças estruturais que fazem com que o Liverpool seja um dos maiores clubes que existe no mundo. Tive um grande privilégio de conhecer aquilo que o Liverpool tem dentro das infraestruturas e o porquê de ser bem-sucedido.
Bola na RedeAlguém ficou chateado com essa mudança?
Abel Xavier: É normal. Sabes que no futebol há muita emoção. Há o pensamento de desenvolvimento da carreira e há o pensamento do adepto, que nunca vai aceitar a mudança para o máximo rival. Quando fazes o processo de mudança com respeito e frontalidade como eu fiz, as portas ficam intactas e abertas. Sou respeitado pelo Everton da mesma forma que sou respeitado pelo Liverpool.
18 anos depois, um português voltou a estrear-se a marcar pelo @liverpoolfc @abelxaviercoach @DiogoJota18 pic.twitter.com/es3aDaTQnX
— André Azevedo (@andre_azevedo__) September 28, 2020
Bola na RedeAinda achas que hoje em dia a Premier League é o melhor campeonato do mundo?
Abel Xavier: Tem a ver com a evolução do futebol. Lembro-me que quando estava no Benfica o campeonato para onde todos queriam ir era o campeonato italiano. Eu tive a capacidade de ir para Itália. Depois, há uma evolução do campeonato espanhol. Tive oportunidade de ir para o campeonato espanhol. Portanto, acompanhei a evolução do futebol. Depois, falamos de Inglaterra. Entro em pressão alta por ter que tomar uma decisão entre duas estruturas distanciadas por um quilómetro. Não estamos só a falar da distância do estádio, estamos a falar da distância social. O que é que isso significa na cidade? Qual é a cultura dentro da história do próprio país? Qual é o desenvolvimento que está por trás das duas estruturas no futebol? A afirmação das equipas do norte contra as equipas de Londres… Quem joga em equipas desta dimensão, que se querem afirmar territorialmente através do futebol, sabe que isso tem peso. Por isso é que, quando jogava pelo Benfica contra o Porto entendi, o que é que queria dizer rivalidade territorial também.
Bola na RedeMas a Premier League continua na frente dessa corrida?
Abel Xavier: Penso que sim. Houve uma evolução de uma mentalidade muito britânica no conceito do jogo. A história do campeonato inglês é a história de um povo guerreiro. Se houver confronto, é competitivo. Deu um salto de qualidade quando traz jogadores e treinadores estrangeiros. Quando a gestão de treinadores, nomeadamente franceses, entra no futebol inglês começa-se a aportar uma melhor qualidade de trabalho. Primeiro com Arsène Wenger e, mais tarde, com Gérard Houllier. A partir daí, começamos a ver um futebol completamente diferente e uma gestão diferente das equipas. As estruturas começaram a ser muito mais profissionais. O campeonato inglês começou a ser um produto mais atrativo. É o mercado, quer para jogadores, quer para treinadores, mais atrativo que há. Se tens valor, podes-te concentrar em criar um modelo de sustentabilidade e tornar as equipas competitivas para atingirem determinados objetivos. Tive a felicidade de jogar no Everton, que lutava para não descer, e no Liverpool que lutava por títulos e Liga dos Campeões, ou seja, os objetivos não têm a ver com o valor económico, porque as equipas são bem suportadas economicamente. Tem a ver com o recrutamento de bons jogadores e da sua gestão de acordo com as expectativas.
Bola na RedeSeres o primeiro português no Liverpool significou alguma coisa para ti?
Abel Xavier: É um clube muito especial, de valores humanos muito elevados. Vou-te dar um exemplo. O Markus Babbel teve uma lesão muito grave, uma bactéria, que o incapacitou de jogar futebol durante muito tempo. Aliás, a minha contratação para lateral-direito tem a ver com isso e com a fratura da perna do Jamie Carragher. Markus Babbel atravessava um problema grave do ponto de vista da saúde, que, a determinado momento, até o fez estar de cadeira de rodas. Uma decisão que a administração tomou para que ele fosse guerreiro e desse a volta às circunstâncias foi ir ter com ele ao hospital e renovar-lhe o contrato por mais quatro anos. Era extremamente importante a forma como os jogadores eram vistos na sociedade. As coisas que foram pensadas em termos de dar condições aos jogadores, para mim, foi o patamar mais elevado de todas as estruturas onde estive inserido, com o maior respeito que tenho por todos os clubes onde passei. Uma vez vivida a experiência de ser jogador do Liverpool é que conseguimos comparar as diferenças que existem para outras estruturas.
Bola na RedeOuvir o You’ll Never Walk Alone em Anfield é assim tão bonito como parece?
Abel Xavier: É uma coisa indescritível. Quando eu jogava pela seleção portuguesa, havia um momento marcante, independentemente de o estádio estar com mais ou menos pessoas: os minutos do hino. São minutos de reflexão e silêncio, porque tudo para. No Liverpool, é a mesma coisa. É um hino muito próprio, muito sentido. Quando o público o começa a cantar transcende-se.
– Futebol de red carpet –
«O futebol está inserido na sociedade e a sociedade está inserida no futebol»
Bola na RedeO LA Galaxy contratou-te muito por aquilo que era a tua imagem. Não viste isso como uma coisa má?
Abel Xavier: Não. Se te manténs igual a ti próprio e se consideras que os valores para seres competitivo e te afirmares vão mais além da imagem não tens porque mudar. Tive propostas de clubes que diziam “Abel, estamos interessados em ti, mas tens que mudar a tua imagem”. Eu apertava a mão, ia-me embora da reunião e dizia “vamo-nos encontrar como adversários”. Não considerava que isso pudesse ser um requisito em relação às minhas qualidades e ao meu talento. Mantive-me sempre íntegro à questão da imagem. Há dois momentos extremamente importantes na minha carreira, o lance do penálti no Euro 2000 e depois os castigos, que me fizeram refém da minha própria imagem. Naquele momento, com aquele castigo injusto, eu podia ter alterado a minha imagem como escapatória para fugir a qualquer coisa. Eu disse “não, eu tenho que me manter”. Foi assim que eu quis permanecer. Na minha carreira, algo falou mais alto. Essa minha experiência nos Estados Unidos foi engraçada. Eu tinha jogado um Bari X Padova contra o Alexi Lalas, um americano que tinha uma imagem country. O Alexi Lalas desenvolveu a sua carreira e, mais tarde, passou para o dirigismo e era o CEO do Galaxy. Na parte final, no Middlesbrough, eu estava um pouco saturado. Queria uma experiência diferente. O telefone toca e era o Alexi Lalas. Disse-me que estava a desenvolver um projeto na MLS e cada franchising ia poder ter dois jogadores de marketing. Já tinham fechado contrato com o David Beckham, que ia ser a imagem global da MLS, mas estavam a pensar em mim para ser o segundo jogador de marketing. Queriam alguém que fosse afro e que tivesse uma imagem diferente. Nos LA Lakers, no basquetebol, tinham o Dennis Rodman e queriam trazer uma “personagem” para o futebol. Quando ele me falou disso, pensei que nunca na Europa me tinham falado na vertente da imagem nesse sentido, nos direitos de imagem. A minha imagem podia valorizar a estrutura do Galaxy, porque podia posicioná-los em determinados mercados. Sempre me concentrei no futebol, em ser profissional e em ser competitivo. Estava a receber um discurso do presidente do Galaxy orientado para a imagem e para o trabalho noutras áreas. De facto, aquilo era o futuro, é o que está a acontecer neste momento. Falamos dos contratos desportivos e falamos dos contratos da imagem. Já os americanos pensavam de outra forma. Como segundo jogador de marketing, fui orientado para a comunidade mexicana, porque eu falava espanhol. 20% da massa laboral de Los Angeles são mexicanos. Os mexicanos gostam muito de futebol e abria-se ali um nicho de mercado com a minha imagem. Grande parte dos sócios do Galaxy eram mexicanos. Houve ali uma integração muito feliz que fez com que eu ficasse dois anos a viver experiências novas. O término da minha carreira não podia ter sido melhor no que diz respeito ao aumento do meu conhecimento noutro mercado sobre o produto do futebol.
Bola na RedeAté que ponto jogar futebol não era secundário?
Abel Xavier: Não, o futebol para mim foi sempre prioritário. Jamais poderia fugir daquilo que me tornou competitivo e profissional. São as regras que devem existir no teu comportamento face à vida que levas. Lógico que se acabas um treino e tens o teu relações públicas com uma lista de eventos, em que vais para a red carpet, para os Óscares ou eventos sociais, onde, acima de tudo, vais valorizar o Galaxy, tens que marcar presença. Estares a socializar com pessoas de outras áreas (da política, da sociedade ou do entretenimento) não faz de ti menos profissional. Pelo contrário, valoriza-te a ti, porque a imagem do jogador de futebol, muitas vezes, é tirada fora do contexto. O futebol está inserido na sociedade e a sociedade está inserida no futebol. A imagem do jogador de futebol nos Estados Unidos foi mais valorizada, porque começou a aparecer noutras áreas. Todas as outras áreas convergem e vêm ver um jogo de futebol. Então, por que é que o jogador de futebol não pode estar nas outras áreas? Tens é que ter capacidade de interagir com essas pessoas. Se estiveres num evento político e tiveres que falar de política, tu falas de política. Se estiveres num evento social e tiveres que falar de discriminação social, religião ou racismo, tu tens que ter capacidade. No mundo do futebol, tu tens todas essas coisas dentro de um grupo de trabalho. Se tu tens todos esses atributos dentro de um grupo de trabalho, como é que tu não podes estar inserido na sociedade? Podes dar a tua imagem para fazer o bem. Isso faz parte da minha vida. Quando eu mantenho a minha imagem, existe um porquê. Eu, com a minha imagem, contribuo para muitas outras causas que me preenchem.
Bola na RedePode-se dizer que és um Dennis Rodman à portuguesa?
Abel Xavier: Não pretendo ter essa conotação. Sou apenas o Abel Xavier.
Bola na RedeEm termos desportivos, como tens visto o desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos?
Abel Xavier: Penso que os Estados Unidos souberam aprender com o falhanço. Quando isso acontece, podemos aprender para refazermos. Este novo modelo é um modelo de sucesso. É um campeonato extremamente competitivo e que dá grandes condições de trabalho. Quando analisamos o futuro, o próximo campeonato do mundo será no Catar e depois Estados Unidos, México e Canadá. Tudo tem um sentido. Estes grandes eventos são realizados em determinados mercados, porque as economias os podem sustentar.
– Uma mão a mais –
«A verdade desportiva foi posta em causa»
Bola na RedeAlgumas vez te tentaram convencer a jogar pela seleção de Moçambique?
Abel Xavier: Sempre tive grandes relações com Moçambique e com responsáveis da federação de Moçambique ao longo do tempo. A questão é que eu fiz parte de todas as seleções portuguesas. Quando chego ao patamar sénior, jogando por Portugal, naquele momento, os objetivos são as qualificações para o Europeu e para o Mundial. Se estás numa seleção que disputa um Europeu ou um Mundial e se estás nas grandes equipas, o que justifica a tua convocatória… Nunca ninguém me pôs em cima da mesa essa possibilidade. As coisas aconteceram de uma forma natural. Nasci em Moçambique com muito orgulho. Joguei pela seleção portuguesa, mas não renego o meu passado.
Bola na RedeConquistaste o Europeu de sub-16 e o Mundial de sub-20. Com tanta qualidade que fomos tendo nos escalões jovens, não era de esperar que um título como o Euro 2016 tivesse chegado mais cedo?
Abel Xavier: Quando se fala da geração que se intitulou, durante muito tempo, de “geração de ouro”, foi por alguma razão. Não que tivéssemos ganhado alguma coisa em termos seniores. Era uma geração de ouro, porque permaneceu durante dez anos junta. A maior parte daqueles jogadores transitou de seleção para seleção, desde os sub-16 até à seleção principal. A identidade própria que estava institucionalizada no aparelho federativo fez com que estes jogadores tivessem afinidade. No próprio jogo, jogávamos praticamente de olhos fechados. Havia uma relação muito boa. Com o cruzamento das duas gerações campeãs do mundo de sub-20 (1989 e 1991) estamos no Euro 2000. Fomos campeões do mundo em 1989 e 1991 e demorámos dez anos para juntar as duas gerações e irmos ao Euro 2000. Isso significa que perdemos dez anos. A seleção que rivalizava com Portugal em todas as seleções era a França. Quando nós falamos da França, não podemos só falar no futebol profissional. Quando falamos de termos ganhado à França, na casa da França, de sermos campeões em cima da França, estamos a falar de uma rivalidade de 30 anos, mesmo ao nível da formação. Aqueles dez anos em que nós não conseguimos crescer com duas gerações campeãs do mundo fez a França ser campeã da Europa e campeã do mundo. Nós aprendemos durante dez anos. Todos nós (jogadores, dirigentes e presidentes) conseguimos aprender através da derrota. Nas grandes gerações que nós tínhamos e continuamos a ter, precisamos de ter algo mais. Houve uma grande aprendizagem por parte de todos e toda a estrutura está de parabéns. Não podia deixar de enaltecer Fernando Santos. Ganhou com um cunho muito próprio, com a sua liderança, criando empatia, e com humildade. Para mim, foi muito reconfortante que Portugal pudesse espetar o punhal na França, uma equipa extremamente forte.
El equipazo que tenía #Portugal 🇵🇹 en la #Euro2000 🇧🇪🇳🇱!
De pie: Vitor Baia 🧤, Fernando Couto, Dimas, Jorge Costa, Abel Xavier & Rui Costa
Hincados: Nuno Gomes, Paulo Bento, Jose Vidigal, João Pinto & Luis Figo pic.twitter.com/os7w7xMSWr— World Cup Fever ⚽ (@Tr_CopaMundial) November 26, 2019
Bola na RedeSobre a mão no Euro 2000, hoje o VAR teria revertido a decisão?
Abel Xavier: Hoje em dia, também estou a ver algumas incongruências no que diz respeito à utilização do VAR, portanto, seria uma incógnita. De qualquer das maneiras, foi uma evolução positiva. Têm havido menos erros no que diz respeito a estas situações de interpretação. O futebol continua a ser um jogo jogado com intensidade, com contacto e com uma essência muito própria que não vai deixar de existir. Não podemos trazer instrumentos que possam robotizar um jogo que tem a sua própria dinâmica. A intencionalidade é algo difícil de ser interpretado. Quando falamos do lance de 2000, estamos a falar exatamente disso. Como é que o árbitro poderia interpretar intencionalidade quando eu não tive intencionalidade de jogar a bola com a mão? Aí estamos num campo difícil. A mesma situação, na área francesa, não tenho dúvidas em dizer que o árbitro não apitava penálti. O árbitro não viu a situação, porque senão não tinha apitado dois minutos depois. O árbitro só apitou penálti depois da pressão dos jogadores franceses ao fiscal de linha. O fiscal de linha não podia ver, porque o [David] Trezeguet estava no enfiamento do fiscal de linha. Há um conjunto de situações que aconteceram naquele jogo que me levam a dizer que a verdade desportiva foi posta em causa. Portugal surpreendeu no jogo jogado pelo futebol de qualidade que apresentou. A França era mais forte, mas naquele jogo foi menos forte, mas foi projetada pela final. Se eu me chamasse Lilian Thuram, se calhar não era penálti. Perdemos uma ocasião de chegarmos a uma final, final essa que, por força do movimento que se criou, poderíamos ter vencido. Se calhar, podia ter sido um final de ciclo fantástico, mas não foi possível. Fiquei com esse peso que agora está minimizado, porque Fernando Santos e este grupo fantástico retirou-mo. Não tenho dúvidas em dizer que a bola me bateu na mão, mas não tive intenção. A interpretação do árbitro não foi correta.
– De volta às origens –
«Quando perdes e começas do zero, não estás a construir nada»
Bola na RedeJá tens algum projeto em mente para voltar a treinar?
Abel Xavier: Tenho analisado algumas situações. Quis começar o exercício das minhas funções como treinador aqui em Portugal. Estive envolvido em três projetos, nomeadamente o Olhanense, o Farense e o Desportivo das Aves, projetos embrionários. A marca do Algarve é uma marca muito forte. Lá está o que aprendi: às vezes, temos que perceber onde é que estamos posicionados territorialmente. O Algarve tem o turismo, o clima, as praias, campos de golfe… Tem um mercado estrangeiro muito forte. Por que não fidelizar um adepto estrangeiro a um clube nacional? Por que não envolvermos o futebol nos packs de viagem para o Algarve? Em 2012, já pensava nessas coisas quando fui para o Algarve. No futebol, estamos muito orientados para aquilo que é a criação de mais-valia com os jogadores. Às vezes, esquecemo-nos das mais-valias que se podem gerar na zona onde estamos implantados. Depois, tive um apelo nacional para voltar a casa [seleção de Moçambique] e mapear o país para fazer um scouting alargado e constituir as seleções jovens. As seleções africanas são seleções da capital, porque os clubes grandes estão lá e esquece-se o resto do país. Falhámos a qualificação [para a CAN] no último minuto num jogo contra a Guiné-Bissau.
Bola na RedeFoi isso que levou à tua dispensa?
Abel Xavier: Às vezes, as pessoas tentam justificar isso com um objetivo não conseguido. Jorge Jesus uma vez disse que o minuto 92 era um minuto que muita gente não ia esquecer, porque perdeu no Dragão ao minuto 92 e perdeu a Liga Europa ao minuto 92. As pessoas esquecem-se de quantos minutos passaram para chegar ao minuto 92. Costumo dizer que justificar um objetivo não conseguido ao minuto 92, quando houve três anos e meio de trabalho, é uma falsa questão. Pus no meu contrato a cláusula de que colocaria o meu lugar à disposição da Federação Moçambicana de Futebol se não fosse qualificado, para que pudéssemos perceber se existiam condições de continuar ou não. Ao pôr essa cláusula no meu contrato, a única coisa que quero é que as pessoas me deem todas as condições para trabalharmos para atingir aquele objetivo. O não o atingir ao minuto 92 tem muito que se lhe diga, mas, de qualquer das maneiras, o trabalho foi feito com muita paixão e compromisso. Deixei o modelo que aprendi no aparelho federativo português, em que tive que fazer adaptações, porque o país é diferente, e que está a ter continuidade. Os sub-20 ganharam recentemente o Torneio da COSAFA e está apurada para a CAN. A seleção principal, com o meu colega Luís Gonçalves, que foi meu adjunto nos primeiros dois anos, deseja qualificar-se para a próxima CAN. Portanto, todas as seleções estão a crescer e a trabalhar. Quando eu cheguei, tínhamos cinco mil pessoas no Estádio Nacional e terminámos com 47 mil pessoas. Todo o povo estava imbuído de uma nova crença, porque a bandeira tem peso. O futebol tem peso na sociedade e na política. Há que saber entender o que podemos fazer com a força do futebol. Um dos aspetos importantes foi juntar o futebol às causas sociais, levando o aparelho federativo a escolas, orfanatos e hospitais, fazendo doações e ajudando as pessoas. O jogador moçambicano, neste momento, é um exemplo na comunidade. Este é um trabalho que vai mais além do que o minuto 92. Para o treinador, ganhar ou perder e ter as malas prontas é muito fácil. Para se desenvolver um trabalho, isso tem que ser feito com conhecimento e estruturas que possam entender que não são as derrotas que vão retirar o crédito. Quando perdes e começas do zero, não estás a construir nada. Eu perdi aos 92, mas consegui deixar um legado.
Bola na RedeHoje em dia, no contexto do futebol africano, jogar contra uma equipa como Moçambique é diferente do que era antes, pois os jogadores já têm outro tipo de condições, o que torna tudo mais competitivo. Também tens esta visão?
Abel Xavier: Moçambique, atualmente, é uma equipa extremamente forte. Em situações normais, Moçambique tem que se qualificar para a próxima CAN, porque a evolução do próprio trabalho faz com que a equipa esteja mais forte. O grupo que o selecionador nacional tem é um grupo que necessariamente passou pelas minhas mãos. A seleção pode competir com qualquer outra seleção africana.
#Moçambique (esq) Treinador dos Mambas Abel Xavier (meio) President de Moz FilipeNyusi (dir) Presidnt Marcelo_Rebelo pic.twitter.com/1Mswv0k2Vr
— 🇲🇿Mozambique OsMambas (@moz_osmambas) May 11, 2016
Bola na RedeEm que é que o modelo implementado se diferencia daquilo que encontraste?
Abel Xavier: Eu acabei por ser uma peça muito importante para aquilo que foi a evolução na Federação Moçambicana de Futebol. Não tenho dúvidas nenhumas que todos os responsáveis reconhecem que aquilo que eu deixei era uma necessidade. O que é que significa jogar pelo país? O que é que significa o aparelho federativo? O que é que significa a relação do aparelho federativo com os clubes? O que é que significa a relação do selecionador nacional com os treinadores locais? Para mim, o selecionador é uma extensão dos colegas que fazem um trabalho diário. Portanto, se há uma organização muito limitada face ao que eu estava habituado, tenho que fazer mudanças. A mais fraturante foi acabar com uma certa promiscuidade que existia dentro da federação, em que os clubes a faziam refém. Temos que dizer que o aparelho federativo está acima de qualquer clube. Provocavam-se muitos problemas na cedência de jogadores. Defendo que, ao longo do tempo, tem que existir uma identidade própria na seleção nacional implementada a vários níveis: institucional, técnica e formação. Acredito que o selecionador nacional também deve coordenar o trabalho para ser incutido nas seleções de formação, porque um miúdo de 17/18 anos tem que ter a perceção de que dentro de dois ou três anos pode chegar à seleção principal. Fiz dos selecionadores sub-17 e sub-20 meus adjuntos para estarem próximos e terem um conhecimento presencial daquilo que é o trabalho que têm que implementar na seleção nacional. A mais importante era formar uma nova geração de jogadores moçambicanos. Passaram cerca de 178 jogadores pelas seleções nacionais em Moçambique, 40% com idades até aos 23 anos. A seleção moçambicana é uma seleção nova. Não se ganha dinheiro na seleção, ganha-se é valorização por se representar o país. Um jogador que pensa que vai para a seleção nacional ganhar dinheiro é um jogador que não está focado nem respeita os problemas da sociedade. Representar a seleção nacional de qualquer país é o valor mais importante de um jogador. É a partir desse patamar que vai valorizar a sua própria carreira e vai poder ter maior visibilidade, porque vai poder jogar competições internacionais, o que vai fazer com que tenha maiores contratos e projeção. Que jogadores moçambicanos potenciou a seleção portuguesa? Muitos. Eu próprio sou moçambicano e joguei por Portugal. No final de contas, há uma entrada de jogadores guineenses, cabo-verdianos e angolanos em Portugal. O que é que se passa com Moçambique? Acabou a qualidade do jogador moçambicano? É uma falsa questão. Temos que ir à essência, voltar outra vez a formar e ver o que é que se passa em Moçambique. Tenho noção que Moçambique tem uma nova geração de jogadores. O que eu sempre desejei é que existam cimeiras [entre os Países de Língua Oficial Portuguesa], através do desporto, para que se possa olhar para a formação, para que possa haver proximidade entre os países e troca de informação e de conhecimento, para que os países possam crescer mais e ser mais competitivos. Vamos falar de todas as seleções africanas. Por que motivo França ganhou o Mundial com nove africanos e as cinco seleções de África não passam a primeira fase? Há aqui qualquer coisa que é um desafio interessante, do ponto de vista técnico, para as seleções africanas. Se o jogador africano joga nas melhores equipas do mundo como é que, num conjunto, não se podem formar seleções africanas competitivas para estarem no Mundial? Isto é um desafio. Os jogadores africanos são atletas por natureza e, neste momento, já têm uma compreensão técnico-tática, mas, como grupo, às vezes, estamos a discutir coisas que não têm interesse nenhum. Em Moçambique, foi um projeto sentimental que me deu uma clara noção do caminho para se poder liderar em África. Os jogadores precisam de ser trabalhados com metodologias atualizadas, sem muita complexidade, e com uma comunicação facilitada para que eles possam, na prática, fazer.












