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28 de junho de 2000, Bruxelas. Portugal e França lutavam por um lugar na final do campeonato da Europa. Nuno Gomes e Thierry Henry tinham já feito a sua parte naquela noite. O resultado era de 1-1 no final dos 90 minutos. O prolongamento manteve o teimoso empate até ao minuto 117. David Trezeguet tenta ultrapassar Vítor Baía. Não consegue. A bola sobra para Sylvain Wiltord que, com a camisola 13, lançou todo o azar possível sobre Portugal. O remate que o francês desferiu esbarrou na mão do nosso entrevistado, Abel Xavier. O árbitro marcou grande penalidade e Zidane marcou o golo de ouro que deitava por terra o sonho da nação portuguesa de vencer o Europeu. Em 2016, a história foi reescrita e Portugal venceu a França na final. Essa conquista, como nos conta Abel Xavier, retirou-lhe algum peso de cima.

O percurso na seleção marcou este internacional português, mas a sua carreira fala por si. Estrela da Amadora, Benfica, Bari, Real Oviedo, PSV Eindhoven, Everton, Liverpool, Galatasaray, Hannover, Roma, Middlesbrough e LA Galaxy foram as paragens do jogador oriundo de Moçambique. Como treinador, as experiências no Olhanense, Farense e Aves também lhe enchem o currículo. Ainda assim, foi na seleção moçambicana que teve mais impacto pelas alterações que operou nos Mambas.

 – Antes de ser Estrela –

«Tenho orgulho em poder andar de chinelo e calção, mas a vida também me proporcionou que eu pudesse andar de fato e de smoking»

Bola na Rede: Tendo em conta o teu passado ligado aos dois clubes, como viste o Estrela X Benfica desta terça-feira [entrevista realizada a 15-01-2020]?

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Abel Xavier: Eu tenho acompanhado este recomeço por parte do Estrela da Amadora. É um clube que fez parte da minha história e da minha evolução. Tenho falado com alguns responsáveis da administração do Estrela. Fui uma das pessoas que quis estar por dentro daquilo que é o meu Estrela da Amadora atualmente, quais eram os objetivos e a forma como estava estruturado. Parece-me que está num bom caminho e que as pessoas têm competência e capacidade. É lógico que é um percurso difícil, muito árduo no que diz respeito ao trabalho, mas as pessoas precisam de acreditar. Foi muito importante para o crescimento do Estrela da Amadora que tivesse, a nível competitivo, uma oportunidade de ter maior visibilidade. Jogar contra o Benfica, por tudo o que o Benfica representa, não só a nível nacional, como a nível internacional, projeta o Estrela da Amadora para outro tipo de notoriedade. As duas estruturas tiveram sempre afinidades e relações muito cordiais. Não tenho dúvida que o percurso de uma equipa em relação à outra é diferente. Para o Benfica, a Taça de Portugal é um objetivo assumido e, para o Estrela da Amadora, penso que foi uma jornada para dignificar o clube e o município e dar a oportunidade aos jogadores de acreditarem que estar no alto rendimento não é difícil, é um passo muito curto. Eles tiveram uma atitude competitiva muito boa. Foram uma equipa que soube estar no campo, muito bem organizada e daí também os meus parabéns ao treinador Rui Santos, que está a fazer um excelente trabalho. É o caminho que o Estrela tem que trilhar. O Benfica é uma instituição de enorme valia e o jogo jogado determinou que a equipa mais forte passasse à etapa seguinte. Acho que foi de um grande simbolismo este Estrela X Benfica.

Bola na Rede: Vamos então falar sobre o início da tua carreira. Com que idade vieste para Portugal?

Abel Xavier: Eu venho de Moçambique e há fatores que unem os países. Houve um acontecimento histórico que fez com que muitos africanos fossem integrados na sociedade portuguesa. A minha família foi uma delas. Parte da minha família continuou e continua em Moçambique, a outra parte da família decidiu vir para Portugal. Foi em Portugal que nós, a minha família (neste caso, os meus avós e os meu pais), tivemos que trilhar um caminho muito difícil. Estamos a falar de tempos onde era muito difícil a integração do ponto de vista social. Estivemos envolvidos na constituição dos bairros clandestinos, porque o fluxo de muitos africanos assim o determinou. Sou um produto que foi criado nos bairros. Sou um produto de rua, de futebol de rua, de futebol de comunidade, mas nunca perdendo os pilares educacionais que eu considero importantes e que a minha família sempre me deu. Num determinado momento, tentei ir do futebol de rua para um futebol com o qual sonhava. Comecei a minha formação, numa primeira fase, numa tentativa de ir ao Belenenses, porque eu vivia num bairro social no Vale do Jamor. Fui tentar com um grupo de amigos. Na altura, o Belenenses gostou das minhas capacidades, mas tínhamos um compromisso que ou ficávamos os quatro ou voltávamos a jogar no bairro outra vez. Um ano depois, vamos à experiência ao Sporting e acabei por ficar. De alguma forma, cresci dentro da estrutura da formação do Sporting dos oito até aos dezassete anos, onde encontrei figuras ímpares, pessoas fidelizadas à causa e que entendiam os problemas sociais, relacionais e escolares. Naquela altura, essas pessoas, nomeadamente no Sporting (César Nascimento, Osvaldo Silva, João Barnabé, Aurélio Pereira, Carlos Pereira, [Vitorino] Bastos, toda aquela geração de formadores) foram extremamente importantes para a formação de tantos jogadores que estavam perdidos e que precisavam de orientação através do futebol. Foi assim que eu comecei o futebol de formação.

Bola na Rede: Como disseste, vinhas do bairro, mas deviam existir jogadores que vinham de outro tipo de ambiente social. Como foi lidar com isso?

Abel Xavier: Quando eu fui à experiência ao Sporting, era uma triagem de mais de três mil crianças. Imagina o sonho de todas essas crianças de tentar entrar numa das grandes academias do país. Eu tive essa felicidade. Obviamente, tem a ver com o talento que tinha sido identificado por pessoas bastante qualificadas na altura. Aquilo a que se chama, hoje em dia, o scouting sempre aconteceu. Estas pessoas tinham um olho muito especial e foram figuras que substituíam o lado paternal. Uma formação só pode ser bem conseguida se nós encontramos nesse processo as pessoas que substituem muitas vezes as figuras paternais que estão ocupadas noutras tarefas, em busca de outro tipo de condições. Naquela altura, essas pessoas entendiam muito bem o que era assiduidade, boas notas e bom comportamento. Nós só tendo essa avaliação positiva é que podíamos treinar e conviver. Estamos a falar de outros tempos. Sabíamos que o sonho de entrar na formação do Sporting era transitar, mas nunca perdendo a noção das pessoas que estavam sempre lá. Com 17 anos, nos juvenis, sou dispensado e foi quando eu fui para o Estrela da Amadora. Fomos todos para o clube periférico, dos supostamente dispensados pelos clubes grandes. De facto, o Estrela da Amadora era um clube simpático que estava dentro de uma comunidade com muitas particularidades sociais, mas que tinha pessoas que entendiam que das dificuldades se faziam forças. Criámos equipas extremamente competitivas, nomeadamente a equipa de juvenis e de juniores, e lutávamos com as equipas grandes que, naquela altura, seriam o Benfica, o Belenenses e o Sporting. Depois, aparece o Estrela da Amadora muito competitivo na zona de Lisboa.

Bola na Rede: Mesmo no meio desse rigor todo deu para manteres alguma da tua irreverência.

Abel Xavier: Sem dúvida. Não podemos abdicar daquilo que somos. Não podemos esquecer as nossas raízes. É óbvio que nesse processo nos temos que adaptar, mas eu mantive-me íntegro ao longo da minha carreira, não só ao nível da formação. Mantive a minha irreverência e a minha imagem, porque há outros valores mais importantes. Também foi um desafio, porque esta questão da irreverência e da imagem tem muito que se lhe diga. Há uns que dizem que abre portas e outros que dizem que fecha portas. Isso tem a ver com mentalidades. Podemo-nos afirmar por aquilo que somos e não por aquilo que as outras pessoas gostariam que fossemos. 

Bola na Rede: Como se costuma dizer, saíste do bairro, mas o bairro nunca saiu de ti.

Abel Xavier: Tenho muito orgulho em dizer que sou do bairro. Também tenho orgulho em poder andar de chinelo e calção, sem problema nenhum, mas a vida também me proporcionou que eu pudesse andar de fato e de smokingAo nível da minha carreira, é manter aquele profissionalismo que eu acho que caracterizou o meu percurso todo. O processo educacional, social, de crescimento e aprendizagem é o que faz aquilo que somos.

Bola na Rede: Dos tempos do chinelo e dos calções tens alguma memória com a bola nos pés?

Abel Xavier: Não sei para onde é que eu vou, mas jamais me esquecerei de onde é que eu vim. O passado é um facto. O futuro, por muitos objetivos que possamos ter, é muito incerto. Sinto um enorme orgulho que a minha família, neste processo, tenha do pouco feito muito e mais tarde eu tenha podido devolver tudo aquilo que me aportou. Entre coisas boas e coisas más, há momentos em que olhamos para o lado e a família conta verdadeiramente.

Bola na Rede: Depois do Sporting, como disseste, foste para o Estrela e acabaste por chegar à equipa principal. Como foram esses tempos?

Abel Xavier: Não posso dizer que a minha dispensa [do Sporting] foi injusta. Houve alguém que entendeu tomar determinadas decisões. O critério não pode ter sido a longevidade e o passado, porque eu já estava na estrutura do Sporting desde os infantis. Portanto, eu considerava que era um valor seguro. Surpreendentemente, sou dispensado e vou para o Estrela da Amadora. Volto a encontrar figuras que compreendiam o fenómeno das dificuldades sociais. Estamos a falar de 17/18 anos, que é uma idade muito crítica, uma idade em que podemos chegar lá [ao topo] ou não. Começamos a definir objetivos que podem relegar a questão escolar para segundo plano, quando nós ainda não temos uma carreira definitiva. Temos que continuar a ter gestores que nos possam amparar e orientar. Aí encontrei Faustino e Augusto Matine, que partiu recentemente. Augusto Matine, moçambicano, foi uma das grandes figuras no sentido de angariar e recrutar muitos africanos. Posto isto, mesmo a jogar no Estrela da Amadora, começo a ser convocado para a seleção da Associação de Futebol de Lisboa e participamos no torneio de associações que Lisboa ganhou. Esse torneio alimentava a seleção nacional sub-16. Então, começo a entrar dentro do aparelho federativo com Carlos Queiroz e Nelo Vingada. Esse percurso levou-nos a estar dez anos nas seleções portuguesas de formação. Dos sub-15 aos sub-20 eu estou no aparelho federativo da seleção portuguesa. Ganhamos o campeonato da Europa de sub-16 e somos campeões do mundo de sub-20. Enquanto jovem, tudo isto retirou qualquer tipo de desfoque que eu pudesse ter, porque passo a estar dentro de estruturas com disciplina, com um código de conduta e com comportamentos que tinham que ser de exemplo. Fomos jovens que crescemos muito rápido. Por isso é que, com 17 anos, estou na equipa titular do Estrela da Amadora com o Manuel Fernandes e o José Mourinho como treinadores. Sou um dos primeiros jogadores a jogar competições europeias no Estrela da Amadora X Neuchâtel Xamax. Tinha 17 anos, ia fazer 18. O Estrela da Amadora, na altura, consegue um título extremamente importante com João Alves, que foi a Taça de Portugal. No ano seguinte, cai de divisão e eu, todavia, sou convocado à seleção nacional A mesmo com o Estrela da Amadora na Segunda Divisão.

Bola na Rede: O futebol faz os jovens crescerem mais rápido?

Abel Xavier: Depende das pessoas que nós encontramos no caminho. Se encontrarmos um equilíbrio na formação entre os problemas educacionais e sociais dos jovens e o compromisso e dedicação à causa é possível formarmos jovens com mentalidades adultas. O futebol é um grupo muito restrito. Há uma disciplina individual, de grupo e institucional e isto são particularidades importantes no desenvolvimento de um jovem. Retiramos o jovem da violência, da criminalidade e das drogas. Quanto às questões escolares, o jovem que é mais inteligente também vai compreender melhor o jogo. O futebol disciplina as pessoas. 

 

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