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– Sonhos cumpridos: uma carreira à “boleia” de talento e trabalho –
«Os jogadores têm de ser inteligentes, ao ponto dos seus gostos clubísticos não extravasarem cá para fora (…) e se só o clube rival o quiser, ele não vai jogar para esse clube?»
Bola na RedeO Miguelito não acabou a sua carreira assim há tanto tempo. Certamente, que os nossos leitores ainda se lembram muito bem de si e dos clubes por onde passou… Vou começar pela sua alcunha: o seu nome é José Miguel Organista Simões Aguiar, mas sempre foi conhecido como Miguelito no mundo do futebol. Como é que surgiu essa alcunha e, sobretudo, como perdurou ao longo de toda a sua carreira?
Miguelito: Chamaram-me sempre Miguelito porque, desde novo, havia sempre mais que um Miguel em todas as equipas jovens do Rio Ave, que foi onde fiz a minha formação. E como havia sempre um Miguel… Se alguém chamasse pelo “Miguel” olhavam uns oito ou uns dez… E como eu, de todos os “miguéis”, era aquele que era sempre mais franzino então adotaram-me a alcunha de Miguelito.
Bola na RedeE até mesmo nos seniores essa alcunha ficou… O Miguelito acabou a carreira no Tirsense, em 2016, mas manteve-se ligado ao futebol, numa aérea diferente, agora a trabalhar numa empresa de agenciamento de jogadores. Como é que surgiu esta oportunidade?
Miguelito: Em 2016, terminei no Tirsense, mas até tinha pensado terminar a carreira antes. Mas, entretanto, surgiu o convite do Tirsense e, no principio, como me pareceu ser um projeto interessante, com outro pessoal aqui da zona, que também tinha feito carreira no futebol profissional, aceitei o desafio. As coisas, porém, acabaram por não correr como todos desejávamos e, a meio dessa época, decidi dar por terminada a minha carreira. E vim trabalhar para a empresa onde estou atualmente – que é a Proeleven – logo no dia seguinte. Como é que surgiu esta oportunidade? Eu fui o terceiro jogador a ser agenciado pela Proeleven e, portanto, já estou ligado a esta empresa há 20 anos. O Carlos [Gonçalves], que é o patrão da Proeleven, abordou o meu irmão [Sérgio Organista] no início da sua carreira, porque queria agenciá-lo, e como o meu irmão gostou da forma como o projeto foi apresentado acabou por aceitar. Eu, um bocado por “arrasto”, acabei também por passar a ter o Carlos Gonçalves como empresário. E depois mantivemos sempre esta relação. Quando comecei a pensar em terminar a carreira, esta possibilidade já estava previamente combinada, pois o Carlos foi-me sempre dizendo que, um dia, gostaria que eu trabalhasse com ele.
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Bola na RedeE nunca pensou numa carreira como treinador? Há muitos ex-colegas, da sua geração, que acabaram por seguir essas pisadas…
Miguelito: Não, não. Sempre pensei no que faria quando acabasse a carreira, mas uma das coisas que sempre soube que não quereria, era ser, precisamente, treinador principal de uma equipa de futebol. Não digo “desta água, não beberei”, mas… não. Talvez até pudesse ser um treinador adjunto, com alguma autonomia – e não como vi, muitas vezes, alguns treinadores adjuntos que não tinham o papel que desejavam. Mas como ao longo da minha carreira o Carlos [Gonçalves] foi-me sempre “alimentando” esta oportunidade… Aliás, de certa forma, como jogador, até já fazia um bocadinho este trabalho. O Carlos ficava com a parte de perceber se o jogador tinha potencial e eu, no balneário, ficava com a parte de perceber como era o jogador ao nível do treino, se era profissional, se trabalhava bem… Já fazíamos esse trabalho em conjunto. De certa forma, a função que agora desempenho já a fazia, inconscientemente, ao longo dos anos. E agora aqui estou.
Bola na RedeOs jogadores e treinadores têm, normalmente, sonhos por cumprir. Também é possível “alimentar” sonhos nesta área do agenciamento de jogadores? Ter a ambição de alcançar determinado patamar?
Miguelito: Sim, isso é natural. Em todas as carreiras, há metas para cumprir. Eu também tenho as minhas metas, é claro, mas, em primeiro lugar, respeitamos a filosofia da Proeleven – e, neste momento, penso apenas em trabalhar em conjunto com a empresa. Mas é óbvio que todos os profissionais, em qualquer cargo, têm sempre os seus objetivos para cumprir e conquistar.
Bola na RedeRecuando aos seus tempos de jogador: o Miguelito fez toda a sua formação no Rio Ave e, em 1999, estreia-se pela equipa principal vila-condense. Esse ano, porém, não correu assim tão bem, uma vez que a equipa acabou despromovida à 2.ª divisão. Mas como foi para um jovem de 19 anos estrear-se na equipa principal naquele que era, à altura, o seu clube de sempre?
Miguelito: Foi o concretizar de um sonho. Era exatamente para isso que tinha trabalhado nas camadas jovens: para, um dia, poder ser jogador profissional. E, nessa época, acabei por concretizar aquilo que era o meu sonho. Na altura, as coisas não eram fáceis, não era fácil chegar a uma equipa principal vindo da formação, em qualquer clube. Por isso, sabia que tinha de trabalhar sempre bem, focado, e ser o mais profissional possível – mesmo que não o fosse, pois, naquele tempo, ao contrário de agora, nenhum jogador da formação tinha contrato profissional. E tinha também de ter humildade. Sabia que ia ser muito difícil, mas, depois de ter conseguido, o “sabor” foi ainda melhor.
Bola na RedePegando exatamente nessa questão, antigamente não havia contratos profissionais para jovens de 16/17 anos, como agora acontece e, naturalmente, havia um fosso ainda maior em relação às equipas seniores. E até era mais raro os treinadores apostarem nos jovens da formação. A descida do Rio Ave acabou por lhe ser favorável, permitindo-lhe uma adaptação ao futebol sénior num patamar menos exigente? Foi positivo jogar na II Liga para que pudesse fazer uma transição mais tranquila?
Miguelito: Podemos ver as coisas dessa forma. Apesar de que no primeiro ano, na 1.ª divisão, quando ainda tinha idade de júnior, já participei em 17 jogos. Fazer esse número de jogos, para um jovem com 18 anos, no escalão principal do futebol português, é bem demonstrativo do que era o meu foco e aquilo que eu já queria. É claro que com a descida de divisão a exigência competitiva diminuiu. E o Rio Ave, que ainda não tinha as condições que hoje tem, perdendo as receitas da 1.ª divisão, ficou sem dinheiro para contratar, e teve mesmo de apostar nos jovens da formação. Portanto, vendo as coisas dessa forma, penso que sim, que a descida foi benéfica para mim.
Bola na RedeEm 2002/2003, é campeão da 2.ª divisão pelo clube de Vila do Conde… Tem 22 anos, conquista um titulo nacional e sobe à 1.ª divisão. Como se sente o Miguelito nesse momento?
Miguelito: Era um dos meus objetivos quando ingressei na equipa principal do Rio Ave. Participei na despromoção e não queria ir para outro lugar sem antes colocar o clube na divisão que merecia. Portanto, foi com muita satisfação que vivi esse momento, para mais, numa época que foi bastante atípica. Lembro-me perfeitamente que não começámos bem o campeonato, e na transição para a segunda volta estávamos a apenas cinco lugares do último classificado, na cauda da tabela. No último jogo da primeira volta, fomos jogar à Figueira da Foz e levámos 6-1 da Naval. Depois, no primeiro jogo da segunda volta íamos visitar o Alverca que, na altura, estava no 1.º lugar. E foi aí que se deu a reviravolta. Acabámos por empatar 0-0 e, depois, fizemos 14 ou 15 jogos sem conhecer o sabor da derrota. Acabámos por terminar a época em grande, não apenas subindo de divisão, mas também sendo campeões da II Liga.
Bola na RedeSó em 2005/2006 é que tem a sua primeira experiência fora de Vila do Conde. E logo na Madeira, uma realidade muito diferente. Assina pelo Nacional, treinado por Manuel Machado, com grandes jogadores e que termina o campeonato no 5.º lugar. E o Miguelito faz uma grande época no Nacional – talvez mesmo a melhor da sua carreira. Como é que se adaptou a esta nova realidade e, sobretudo, como é que num contexto tão diferente daquele que conhecia consegue ter um rendimento tão elevado?
Miguelito: De facto, o Nacional – que não teria subido à 1.ª divisão há muito tempo – já nos anos anteriores tinha tido grandes equipas, e lutado sempre pela qualificação para as competições europeias. As coisas correram como correram devido, principalmente, ao que já referi: o foco, o trabalho, a humildade… acho que as coisas se baseiam muito nisso. Eu sabia muito bem onde queria chegar enquanto jogador profissional, e acho que foram esses ingredientes que contribuíram para as boas épocas que fiz. A época no Nacional foi, de facto, uma das minhas melhores, mas tive outras. Mas a essa do Nacional – talvez pela conjugação entre o rendimento individual e o coletivo – é natural que as pessoas deem mais ênfase.
-A “sombra” na Luz-
«Apesar de estar numa equipa grande, de ter mais anos de contrato com o Benfica, não estava contente»
Bola na RedeEssa época acaba por lhe valer um “bilhete” para um dos denominados três “grandes” do futebol português, neste caso o Benfica…
Miguelito: Era o meu objetivo maior, e para isso precisava de trabalhar da mesma forma independentemente do clube e da região onde estivesse. Teria sempre de ter esse foco, fazer esse trabalho, ter a vontade de querer fazer sempre mais, dia após dia, jogo após jogo, época após época, para alcançar esse objetivo que era chegar a uma equipa grande. E as coisas acabaram por acontecer, mais cedo até do que eu estaria à espera, que era chegar a um dos maiores clubes de Portugal e do mundo.
Bola na RedeE como é que surgiu esta oportunidade. O Miguelito, na altura, tinha 26 anos. Como surgiu a hipótese de jogar no Benfica? Tinha outras propostas em carteira?
Miguelito: Quando estava no Rio Ave já se falava muito de eu sair para bons clubes. Na altura, lembro-me perfeitamente de se falar no Bétis, que, na altura, andava sempre lá em cima, a lutar pelas competições europeias. Falou-se no Sporting, também. Portanto, ao longo de dois anos, falou-se da possibilidade de ir para aqui, para acolá, mas com a ajuda do Carlos [Gonçalves], que sempre me tranquilizou em relação a isso, sempre me “tirou” essa pressão, juntamente com a minha família mais chegada, meti na cabeça que quando tivesse de ser, seria. E portanto tentei abstrair-me ao máximo dessas situações. Acho que se deve muito a isso. Lembro-me que quando estava no Nacional se falava que o Benfica estava interessado em contratar um lateral esquerdo, embora nunca se tivesse falado em nomes. E para aí a cinco ou seis jornadas do fim, é que se começou a falar no meu nome, na possibilidade de ir para o Benfica. Claro que como todos os atletas fiquei bastante contente, lisonjeado, mas ainda com mais vontade de trabalhar e não deixar cair essa possibilidade se, de facto, fosse essa a vontade dos responsáveis do Benfica.
Bola na RedeO Migueltio “tocou” aí num ponto – e uma vez que está na área do agenciamento de jogadores – que é a pressão sobre os jovens jogadores quando começam a surgir, nas capas dos jornais, a possibilidade de eles se transferirem. Isso é algo que afeta o jogador dentro do campo? Têm a preocupação de aconselhar os vossos jogadores a se alhearem dessas questões que surgem à volta do mundo do futebol?
Miguelito: Sim, esse é um dos nossos trabalhos. Temos de fazer uma gestão das expectativas, de tudo o que rodeia o atleta, de forma a tirar o máximo de pressão possível do jogador, para que ele se foque o máximo possível no dia-a-dia, para poder fazer um bom trabalho. Só que depois tem de ser feito esse trabalho do próprio atleta, como eu fiz, abstrair-se dessas notícias, e pensarem que se tiver de acontecer, vai acontecer. Não há nada que se possa acelerar, a não ser o próprio trabalho do atleta. Quanto mais ele demonstrar, mais possibilidades existirão de ingressar num clube maior. Esse é um trabalho que fazemos há alguns anos: gerir as expectativas de atletas que estejam a ser falados com mais insistência, tentar que se abstraiam, até porque estamos aqui nós para podermos trabalhar essa situação. Os jogadores o que têm de fazer é continuar, dentro do campo, a provar que estão preparados para ingressar numa equipa grande.
Bola na RedeRegressando a 2006, quando chega ao Benfica. Que sonhos “alimentava” quando entrou pela primeira vez naquele balneário?
Miguelito: O primeiro objetivo era ser titular indiscutível da equipa principal do Benfica… conquistar o meu espaço e depois ser titular indiscutível. E depois, tinha outros objetivos. Se as coisas começassem a correr bem, se começasse a jogar com regularidade, poder chegar a outros contextos. Não desportivamente, porque o Benfica é uma equipa grande, mas financeiramente, ir para clubes que me dessem uma “almofada” em termos financeiros. É para isto que toda a gente trabalha, e por muito que se goste dos clubes, toda a gente trabalha para conquistar coisas melhores para a sua vida. E eu também tinha esse objetivo.
Bola na RedeO Miguelito jogou, mas acabou por não ser a aposta principal, primeiro, com Fernando Santos e, depois, com Jose Antonio Camacho. Até porque o titular, na altura, naquela posição, era o Léo, um jogador já muito cotado, internacional brasileiro. Fez apenas sete jogos na primeira época e três na segunda, onde acabou de sair, a meio da temporada, para o Sp. Braga. O que não correu tão bem na Luz?
Miguelito: O que correu menos bem foi o timming. Não da minha entrada, mas o do próprio clube, que não estava tão bem. A direção estava a iniciar o projeto que tornou o Benfica no clube que é hoje, mas ainda não estava assim tão bem. Sabia que a minha missão seria difícil, num clube grande, com exigências muito grandes, que na minha posição tinha um jogador com uma regularidade impressionante, muito acarinhado pelos adeptos, internacional brasileiro, portanto, sabia à partida que a minha tarefa seria muito difícil. Mas eu também tinha os meus objetivos, tinha a minha forma de trabalhar. De certa forma, consegui conquistar o meu espaço, pois, no início, ainda fiz alguns jogos, alguns deles a titular – e não porque o Léo estivesse lesionado, mas foi fruto do meu trabalho que conquistei o meu lugar no “onze”. Acho que não correu nada mal, a não ser o timming de ter ingressado num clube que não estava equilibrado. O Benfica estava a iniciar um processo de organização da estrutura, de cargos e, portanto, acho que foi isso que não correu tão bem.
Bola na RedeO Benfica vinha do título de campeão de 2005, mas o próprio presidente Luís Filipe Vieira, já admitiu que nessa altura ainda decorria o processo de reorganização do clube. Sentiu isso dentro do balneário? Que a estrutura ainda não era suficientemente sólida para que o clube chegasse a outros patamares, como se viu, nos últimos anos, voltar a dominar, por alguns períodos, o futebol português?
Miguelito: Notava-se – internamente e externamente – que o Benfica ainda não estava organizado, com todas as áreas e cargos equilibrados. Internamente, isso notava-se….
Bola na RedeEra algo que passava para o balneário?
Miguelito: Os jogadores são inteligentes, percebem perfeitamente quando o clube está ou não organizado, quando há estabilidade ou instabilidade. Uma pessoa percebe perfeitamente. O jogador que não pensa só em vir treinar, e depois pensa que o trabalho está feito e que tem o resto do dia livre, consegue chegar a essa conclusão. E, nessa altura, isso deu para constatar. O presidente Luís Filipe Vieira tinha entrado em 2004 [n.d.r, em 2003] e, portanto, estava a organizar o clube, a colocar as coisas à sua maneira, e com a minha entrada em 2006 as coisas ainda não estariam organizadas como estão atualmente. Se o Benfica estivesse organizado da forma como está atualmente, tenho consciência de que teria jogado mais. Mas é o que é… Não me arrependo de nada, foi a oportunidade que tive, tentei agarrá-la da melhor forma…
Bola na RedeMas acabou por sair…
Miguelito: Porque, de facto, foi sempre assim ao longo da minha carreira. Eu não demonstrava o meu futebol pelo símbolo que carregava, mas pelo amor que tenho ao futebol. Ia para dentro do campo com alegria. Aquilo que se passou é que, apesar de estar numa equipa grande, de ter mais anos de contrato com o Benfica, não estava contente. E aquilo que me movia no futebol era a minha alegria, e se eu não tivesse essa alegria não conseguia fazer as coisas em condições, não conseguia treinar em condições e jogar da mesma forma. E por isso decidi pedir à direção para sair. Foi sempre isso que me moveu ao longo da minha carreira: sentir que onde quer que eu estivesse as pessoas estavam contentes com o meu trabalho e eu, ao mesmo tempo, estar contente, juntamente com a minha família, no lugar onde eu estivesse a jogar. Quando isso não acontecia era o primeiro a falar com a direção, a colocar os problemas em cima da mesa, e a tentar arranjar solução. Foi assim ao longo da minha carreira, e talvez o vasto lote de clubes que representei se explique por esta minha maneira de estar.
Bola na RedeFoi então Miguelito que acabou por pedir para sair do Benfica?
Miguelito: Exato. Por sentir que, naquela altura, por muito que trabalhasse ia ter poucas ou nenhumas oportunidades. Não me movia mais nada, e pedi para sair. Cada vez tinha menos vontade de treinar, e não era isso que eu queria para a minha vida. Sempre gostei de futebol, de jogar futebol, e acredito que muito do que conquistei foi pela minha forma de estar no futebol: alegre, de querer estar, ajudar… Mas também de sentir da parte das pessoas que queriam que eu estivesse nesse sítio. E no Benfica comecei a não sentir isso. Quando o senti falei logo com o Carlos Gonçalves e a direção do Benfica que, independentemente dos anos de contrato que tinha com o clube, queria resolver a minha situação, pois não me sentia feliz por acordar todos os dias e não sentir aquela vontade de ir para os treinos e de jogar.
Bola na RedeÉ difícil, nestas situação, para um jogador manter os mesmos níveis de motivação no dia-a-dia, nos treinos…
Miguelito: Completamente. Mais que o clube ou o dinheiro, deve ser isso que deve mover os atletas. Acho que essa é a “gasolina” que faz com que os jogadores vão para dentro do campo, e treinem da melhor forma. Porque em todas as áreas é assim. Se uma pessoa estiver triste as coisas não lhe correm bem, ela não faz o seu trabalho em condições. E no futebol é a mesma coisa. Eu queria estar de bem com tudo que me rodeava, para poder ir para dentro do campo todos os dias e treinar sempre a 100 por cento, e para que se ao domingo fosse chamado as coisas também me voltassem a correr bem. E quando isso não acontece… mas não falo só de não ser opção para jogar, porque num plantel há, pelo menos, 22 unidades e aqueles que estiverem melhor são os que jogam. No Benfica tinha, de facto, um concorrente à altura, mas sentia que merecia a minha oportunidade pela forma como trabalhava, pela forma como via o meu concorrente direto a trabalhar e a jogar… sobretudo, a partir de uma certa altura. No início, ainda me foram sendo dadas oportunidades, acho que era correspondente, mas a partir de certa altura deixaram de me dar oportunidades, comecei a nem sequer ser convocado, a não sentir o mesmo tratamento que era dado à maior parte dos atletas. E quando assim é, o que os jogadores têm a fazer é conversar com quem de direito e arranjar uma solução.
-Os anos nas camadas jovens da seleção e o único jogo ao lado do irmão, Sérgio Organista-
«Ficou a faltar mesmo ser internacional pela seleção AA»
Bola na RedeEstava a referir que tinha a ambição de singrar noutros campeonatos, noutros projetos, com condições financeiras mais favoráveis, mas, com certeza, também tinha como objetivo, e chegado ao Benfica, representar a seleção nacional. Chegou a ser internacional nas camadas jovens, venceu mesmo o torneio de Toulon, numa geração que contava, entre outros, com jogadores como Bosingwa, Bruno Alves, Ricardo Costa, Carlos Martins, Hélder Postiga. E ainda chegou à extinta seleção B de seniores. Jogar pela seleção AA seria, certamente, um objetivo… não o ter conseguido é algo que lamenta?
Miguelito: Sim, era um sonho que também tinha. Sabia da dificuldade que tinha, porque, na altura, a seleção nacional tinha dois excelentes laterais esquerdos: o Rui Jorge e o Nuno Valente, que, normalmente, já iam à seleção e, portanto, só por aí, adivinhava-se uma tarefa árdua…
Bola na RedeEra difícil…
Miguelito: Era muito difícil. Ainda antes de chegar ao Nacional, cheguei a estar na lista dos 30 pré-convocados para o Europeu de Portugal [Euro’2004], mas depois não cheguei a ser escolhido.
Bola na RedeFoi graças à época do Nacional da Madeira?
Miguelito: Não, foi antes, graças à última época no Rio Ave, e ao trabalho que tinha vindo a desenvolver… Mas era um dos sonhos quando cheguei ao Benfica. Sabe-se que quando se está numa equipa “grande” e quando se joga com regularidade numa dessas equipas que a probabilidade, ou a facilidade, de se chegar à seleção nacional AA é maior. Mas as coisas acabaram por não acontecer. Cheguei tarde às seleções jovens, já com 18 anos. Depois, daí até à chegada à seleção nacional B fui sempre uma presença assídua nas convocatórias, mas ficou a faltar mesmo ser internacional pela seleção AA.
Bola na RedeAgora talvez não seja tanto assim, mas, na altura, era muito difícil um jogador do Rio Ave ser convocado para as seleções nacionais jovens. Normalmente, eram convocados os jogadores de Benfica, FC Porto, Sporting, também Boavista e V. Guimarães, mas os jogadores dos outros clubes não eram olhados com tanta atenção…
Miguelito: Sim. Ao mesmo tempo que, nessa época, era muito complicado um jogador chegar aos seniores vindo da formação, porque havia, de facto, um fosso muito grande, nas seleções jovens também havia esse fosso. Havia os três “grandes”, o Boavista, que, na altura, normalmente também lutava para ser campeão, o V. Guimarães, que também tinha sido campeão na formação, mas nem sequer o Sp. Braga ainda conseguia colocar jogadores nas seleções com facilidade. E, portanto, havia também essa dificuldade. O que nos dava ainda mais alento, àqueles que vinham de outras equipas. Lembro-me, por exemplo, que na minha primeira chamada somos convocados, desta zona, eu e o Tiago [Mendes] e que fomos a falar precisamente disso no comboio: que éramos uns privilegiados, que iríamos ter um trabalho difícil para conquistar aquele grupo e podermos estar naquele núcleo duro… mas, graças a Deus, as coisas acabaram por nos correr bem – mais até para ele que, depois, conseguiu chegar a patamares superiores, a nível de clubes e de seleção nacional. Naquele momento, conseguimos alcançar o nosso objetivo, que era integrar o núcleo duro da seleção, que já estava criado desde os sub-15.
Bola na RedeE vence o conceituado torneio de Toulon, em França…
Miguelito: Tive a felicidade de ser campeão nesse torneio, uma prova muito prestigiada ao nível das seleções jovens. Poucas seleções de Portugal conseguiram ganhá-lo, penso que a última que, à época, o tinha feito foi a equipa da chamada “Geração de Ouro”, com Figo, Peixe, João Vieira Pinto… E depois acabámos por ser nós, porque tínhamos um grupo bastante coeso…Éramos um grupo de jogadores com potencial, mas que ainda não tinham os seus lugares conquistados, sólidos, nas respetivas equipas, e julgo que foi isso mesmo que fez com que conquistássemos Toulon. Só para fazer uma comparação: no ano seguinte, foi a Toulon praticamente a mesma equipa, mas já com os jogadores bem consolidados nos respetivos clubes e, de certa forma, houve um certo deslumbramento… nem sequer passámos à próxima fase.

Bola na RedeFazendo uma pausa no percurso do Miguelito, falou, no início da entrevista, do seu irmão. O Sérgio Organista foi uma das grandes esperanças do futebol português. Teve um percurso de sucesso nas camadas jovens do FC Porto e, depois, ainda fez carreira em vários clubes portugueses e estrangeiros. Têm uma diferença de três anos de idade, o Miguelito é o mais velho. E há uma história curiosa, porque apesar de nunca terem jogado juntos a nível de clubes – embora isso tenha estado perto de acontecer –, acabaram por se cruzar na seleção nacional B. Foi o único sitio onde partilhou o relvado com o seu irmão. Chegou a ser um objetivo? Como é que foi essa experiência?
Miguelito: Durante a maior parte da minha carreira, talvez ali até aos 28/29 anos, jogar com o meu irmão nunca foi algo em que tivesse pensado muito. E, de facto, nunca fiz tudo para que isso acontecesse. Mas mais tarde, já perto do final da carreira, pensei realmente mais nisso: em como seria? Lembro-me perfeitamente desse torneio, o Torneio Vale do Tejo. Eu fui convocado, o meu irmão, a princípio, não tinha sido, mas, entretanto, durante a semana, houve uma lesão de um jogador que jogava na posição dele. E ele foi chamado. Acredito que foi pelo valor dele, mas também acho que o facto de estarem dois irmãos a jogarem na mesma equipa possa, eventualmente, ter influenciado esta chamada do Sérgio. E foi a única vez que jogámos juntos…
Bola na RedeMas correu bem, não perderam nenhum jogo…
Miguelito: Correu. Foram três jogos e três vitórias. Tínhamos uma geração muito forte nessa altura…
Bola na RedeNão deve ter sido fácil para os seus pais terem dois filhos a jogar à bola dentro de casa…
Miguelito: Não era nada fácil (risos). A minha probabilidade de partir vidros já era grande, então com dois… mas sempre arranjávamos espaço para poder jogar à bola. De facto, a bola esteve sempre presente desde que me recordo. Havia sempre espaço para jogar e se não houvesse… arranjávamo-lo. Sempre com as nossas picardias, como acontece entre dois irmãos, e muita vontade de ganhar, mesmo a brincar. Foi exatamente isso que nos fez “transportar” essa vontade para outros contextos.
Bola na RedeHá uma particularidade que divide o Miguelito e o Sérgio Organista. Quando pensamos em Miguelito pensamos em alguém que foi formado no Rio Ave. No caso do Sérgio, pensamos num jogador que depois acaba por cumprir várias épocas no Varzim, já como sénior… Não nasceu aí uma rivalidade entre irmãos? Normalmente, dentro do campo, vila-condenses e poveiros faziam “faísca”…
Miguelito: (Risos) Ainda agora, se formos ver as coisas, eu vivo em Vila do Conde e ele na Póvoa de Varzim. Até nisso tem de haver rivalidade… Mas essa rivalidade existia mais antigamente. É até curioso, porque eu, antes de ir para o Rio Ave, até fui fazer testes ao Varzim, mas, na altura, não me quiseram. Aliás, é engraçado, porque o treinador que não me quis no Varzim, depois, treinou-me no Rio Ave e até me vinha buscar a casa quando estava doente…
Bola na RedeÉ mais uma prova que o futebol é muito dinâmico…
Miguelito: Exatamente. Eu digo sempre que o futebol é o momento. Temos de saber aproveitar todos os momentos e deixarmo-nos ir nesses momentos. E continuar a trabalhar bem nos momentos menos bons. Mas em relação ao Rio Ave, de facto, foi para aqui que vim, e o meu irmão, anos mais tarde, vem jogar para o Varzim. Mas Rio Ave e Varzim foram sempre dois clubes que me disseram algo. Eu vivi sempre nas Caxinas, mesmo entre a Póvoa de Varzim e Vila do Conde, e os meus pais, em tempos, foram cobradores [de quotas] do Varzim, portanto, sempre senti essa ligação/rivalidade entre os dois clubes. Mas é como digo: nós, enquanto jogadores, temos de ser sempre o mais profissional possível, nunca dizer que não vamos jogar neste ou naquele clube, apenas porque é rival deste ou daquele. O importante é o jogador, enquanto estiver num determinado clube, lutar por aquele símbolo, e quando for para outro, fazer a mesma coisa. Só assim podemos ser respeitados e dar continuidade à nossa carreira. Nunca joguei pelo Varzim, mas se jogasse seria dessa forma que iria estar, mesmo percebendo que para alguns adeptos ouvirem estas coisas meta confusão. Mas é mesmo assim: um jogador profissional tem de ser mesmo isto… Eu vejo vários jogadores a beijar símbolos e, nos anos seguintes, a irem para outros clubes…
Bola na RedeEssas declarações de amor eterno, provocações aos rivais, por vezes, não correm lá muito bem…
Miguelito: Não, nem fica bem. Quer se queira, quer não, isso pode limitar a carreira de um jogador. E mesmo que o jogador vá jogar para um clube rival, depois a pressão sobre ele será ainda maior. Os jogadores têm de ser inteligentes, ao ponto dos seus gostos clubísticos não extravasarem cá para fora. Os jogadores têm a sua preferência clubística, mas depois têm de ser profissionais. Dou sempre um exemplo: um jogador que diz que nunca joga em determinado clube, se não tiver mais nenhum clube, se o clube onde ele estiver já não o quiser, e se só o clube rival o quiser, ele não vai jogar para esse clube? Portanto, é o que eu digo, tentar ser o máximo profissional possível…
-Os altos e baixos em históricos portugueses-
«O mister Carlos Brito foi o mais importante, de todas as pessoas que foram importantes»
Bola na RedeRegressando ao seu percurso. Depois de meia época no Sp Braga, transfere-se para o Marítimo. E nos anos seguintes passa por Marítimo. Belenenses, V. Setúbal… No balneário do Belenenses chega a partilhar o balneário com o “central” Beto, já em final de carreira, o Pelé, neste caso, no inicio, o Lima, que se estreava em Portugal, e que acabou por fazer carreira no Benfica… Aliás, acho que, na altura, o Lima, na altura, até jogava mais à esquerda…
Miguelito: Não, jogava a ponta-de-lança. Na esquerda, jogava eu. Inicialmente, fui contratado para defesa-esquerdo, mas depois o mister [António Conceição] teve dificuldade em encontrar um jogador que atuasse a extremo e lhe desse aquilo que ele pretendia, e então como eu fazia bem essa posição – já a tinha feito na formação e no Nacional –, acabei por ser adaptado ali ao lado esquerdo.
Bola na RedeEntão, era o Miguelito que alimentava o Lima na altura…
Miguelito: Tentava, tentava…
Bola na RedeMas era uma grande equipa. Ainda tinha jogadores como o Cândido Costa e o André Almeida…
Miguelito: E o Zé Pedro também. O Nélson e Bruno Vale na baliza, o Sérgio Barge, o Fredy…Era de facto uma boa equipa. Mas as coisas, nesse ano, não correram tão bem de início… Eu fui convidado, porque, realmente, a minha segunda época no Marítimo não estava a correr de acordo com as minhas expectativas e, então, a meio do campeonato, pedi para me deixarem sair. Surgiu a oportunidade de vir para o Belenenses, a convite do mister António Conceição. O objetivo passava por salvar o Belenenses da descida de divisão, mas foi difícil…
Bola na RedeAs coisas não correram assim tão bem…
Miguelito: Não, de facto não correram. O mister António Conceição chegou ao clube em dezembro, se não me engano, e eu cheguei em janeiro. Quando o mister conseguiu arranjar um “onze” base e implementar as suas ideias já estávamos numa fase adiantada da época, em que já era difícil salvarmo-nos. Acredito que com mais cinco joguitos as coisas ainda se recompunham, mas não foi possível e, nesse ano, acabámos mesmo por descer de divisão, apesar de termos muita qualidade no plantel.
Bola na RedeNo Belenenses jogou também com Fredy Adu, que chegou a ser visto como o próximo melhor jogador do mundo – nessa altura, talvez já não. Mas nos treinos, pelo menos, era um jogador que dava nas vistas? Ou os elogios eram, de facto, exagerados?
Miguelito: Eu já tinha jogado com ele, porque o Adu, quando vem para Portugal, para o Benfica, eu ainda lá estou. E via-se, de facto, muita qualidade, mas essa aura que lhe colocaram também não deve ter ajudado muito. Ele chegou de uma realidade completamente diferente, dos Estados Unidos, muito jovem, com apenas 18 anos, e tudo isso fez com que ele não conseguisse projetar a carreira para o nível que se esperava. Mas, de facto, o Fredy Adu tinha muita capacidade.
Bola na RedeFalou do António Conceição, que foi importante na sua carreira, mas quando se fala de treinadores há um nome que se destaca na carreira do Miguelito, que é mais especial: o de Carlos Brito. Foi o treinador que o lançou na primeira equipa, com quem subiu à 1.ª divisão com o Rio Ave. Trabalhou cinco épocas com ele…
Miguelito: Sim, o mister Carlos Brito foi o mais importante, de todas as pessoas que foram importantes. De facto, foi ele que me deu a oportunidade de ser jogador de futebol profissional. Como disse, há pouco, havia um fosso muito grande entre a formação e os seniores, e se já era difícil pertencer à equipa principal, mais difícil ainda era jogar. O Carlos Brito deu-me essa oportunidade.
Bola na RedeE quais foram os outros treinadores que mais o marcaram?
Miguelito: Acho que todos foram importantes. Uns porque viram potencial em mim, e puxaram-me para contextos diferentes e melhores, outros porque me deram a oportunidade de jogar com regularidade, noutros clubes, quando as coisas não estavam a correr assim tão bem. Portanto, acredito que todos foram importantes e que consegui aprender com todos eles. Agora, é natural que as pessoas liguem o meu percurso – pelo início da carreira, por épocas mais positivas – ao Carlos Brito. Mas quero dar ênfase a todos os treinadores com quem trabalhei, porque todos foram importantes em determinada altura da minha carreira.
-O pendurar das chuteiras com a sensação de dever cumprido-
«Estou bastante orgulhoso pelo meu percurso, por aquilo que fiz e conquistei»
Bola na RedeEm 2012, aventurou-se no estrangeiro, no Apollon Limassol, do Chipre. Como foi essa experiência, num país e num futebol tão diferentes?
Miguelito: Foi uma boa experiência. Olhando para trás, só posso considerá-la positiva. Jogar fora de Portugal era algo que queria muito experimentar, e já tinha falado disso com o Carlos Gonçalves, mas nunca tinha tido essa oportunidade. Nesse defeso, até já tinha tudo acertado com o V. Setúbal “de boca” para lá ficar mais um ano. Durante esse período tentei passar o acordo para o papel, mas nunca consegui falar com os responsáveis do clube. Quando me apercebi que poderia ficar desempregado, apareceu esta oportunidade no Apollon Limassol. E posso dizer que foi uma boa experiência. Foi até pena ter sido apenas um ano. Eu já tinha este espírito aventureiro, de poder ir para qualquer sitio, desde que saí do Rio Ave – mesmo em Portugal, estive em regiões muito distintas, e não hesitei em ir para o Chipre. Queria jogar, mostrar o meu futebol também lá fora, e acabei por jogar com muita regularidade, ganhar uma Taça do Chipre nesse ano e, por essa via, conseguir o apuramento para a Liga Europa. Mas as coisas acabaram por durar apenas um ano e, no final da época, regressei a Portugal.
Bola na RedeE regressa a Portugal para o Moreirense, que estava na 2.ª divisão. É um projeto para subir à I Liga, ou não fosse a equipa treinada por Vítor Oliveira, com quem já tinha trabalhado no Rio Ave. O Moreirense sobe, mas o Vítor Oliveira até acabou por sair a sete jornadas do fim e quem acaba a época (e conquista a subida) é António Conceição. Essa troca causou, na altura, estranheza. Conseguiu perceber o que se passou?
Miguelito: Sim, de facto, nesse ano, venho para o Moreirense que era, de longe, a melhor equipa da II Liga. As coisas correram muito bem, desde o início. A sete jornadas do fim já tínhamos praticamente a subida garantida e deparámo-nos com essa “bomba”. Ninguém conseguiu compreender. Estávamos em 1.º lugar, a alguma distância para o segundo e terceiro classificados, o que nos dava praticamente a garantia que iríamos ser campeões e subir de divisão. De um momento para o outro, ao final de um/dois jogos menos conseguidos – o que acontece a todas as equipas ao longo de uma época – e, se não me engano, depois de uma vitória em casa, em que nada o fazia prever, acabámos por nos deparar com a mudança de treinador. Ninguém nos deu qualquer tipo de explicação sobre essa situação, e acabou por vir o mister António Conceição, que acabou por dar sequência àquilo que estava praticamente garantido quase desde o início da época. Mas, lá está, éramos de longe a melhor equipa daquele campeonato.
Bola na RedeDepois, também na II Liga, ainda tenta subir com o Desportivo Chaves, mas, desta vez, não conseguiu…
Miguelito: Não subimos de divisão a 30 segundos do final do campeonato… O desfecho ficou decidido noutro jogo. Mas o futebol é assim mesmo. Num momento estás na I Liga e, segundos depois, já não. Era mais um feito que iria conseguir – seria a minha terceira subida de divisão e, possivelmente, sagrar-me-ia novamente campeão da II Liga, o que ainda é mais difícil. Infelizmente, acabou por não acontecer.
Bola na RedeUm ano mais tarde, com 35 anos, o Miguelito vai para o Tirsense, já no Campeonato de Portugal… E é aí que termina a sua carreira, em 2016. Tinha-me dito que, por esta altura, já tinha pensado em deixar de jogar. Para alguns jogadores este processo é mais complicado, para outros nem tanto… E como foi para si deixar os relvados?
Miguelito: Vou para o Tirsense, mas sempre disse ao Carlos Gonçalves e aos meus familiares que só queria jogar até aos 35 anos. Era essa a minha meta. A partir daquela altura iria sempre tentar perceber como estava o meu corpo e, de facto, constatei, ao longo da época, que o melhor era mesmo terminar a carreira naquele momento. Terminei com a idade com que sempre tinha sonhado, com capacidade de jogar mais uns anos, talvez não ao nível da I Liga, mas penso que na II Liga ainda teria capacidade para jogar. Mas a verdade é que nesses últimos anos, desde que vim do Chipre, comecei a sentir alguma reticência dos clubes em contratarem-me devido à idade. Então, como já era uma coisa pensada poder desemprenhar as funções que estou hoje a desempenhar, decidi terminar a carreira. E como já estava interiorizado que, no final dessa época, no Tirsense, terminaria a carreira, foi menos doloroso do que seria, por exemplo, se nenhum clube me quisesse e isso tivesse precipitado essa decisão…
Bola na RedeO facto de ter outro objetivo, certamente, também ajudou. Normalmente é esse vazio que se segue à carreira que, por vezes, custa aos jogadores…
Miguelito: Sim, também ajudou. É por isso que este problema – “o que vão fazer os jogadores no final das carreiras?” – se tem vindo a debater. A verdade é que, por vezes, os atletas só se começam a mentalizar que a carreira está a chegar ao fim a partir dos 30 anos. É importante começar a precaver esse final mais cedo, e eu, como tinha sempre isso em mente, como isto é algo que gosto de fazer, sabia que podia deixar de jogar de um dia para o outro, sabia que um dia estaria aqui, a trabalhar com o Carlos Gonçalves.
Bola na RedeE que balanço faz da sua carreira? Pela nossa conversa vejo o Miguelito orgulhoso e satisfeito pelo seu percurso. Mas ficou algo por conquistar?
Miguelito: Estou bastante orgulhoso pelo meu percurso, por aquilo que fiz e conquistei. Estou muito feliz e agradecido pelas oportunidades que me foram sendo dadas ao longo da minha carreira, pelas direções, pelos treinadores… Ficaram algumas coisas por fazer, nomeadamente, chegar à equipa principal da seleção nacional ou jogar mais anos fora do país. Mas só tenho de ficar contente com a carreira que construí, orgulhoso também, porque, naquela altura, já era difícil ser jogador profissional, então fazer a carreira que fiz… Só tenho de estar orgulhoso e satisfeito.









