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Quando encontrei o chefe Ljubomir

Tiago Ferreira · 4 min

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Estava eu a jantar, descansadinho numa esplanada, porque sabe sempre bem apreciar estas belas noites de verão, quando me viro inconscientemente e dou de caras com o ‘nosso’ chefe Ljubomir. Sim. Esse mesmo. Aquele da TV.

Ganhei coragem, respirei fundo e ‘fiz-me à estrada’.

– Boa noite chefe. Desculpe incomodá-lo. Dá-me um minuto do seu tempo? – questionei-o receoso da sua frontalidade já bem conhecida por todos.

– Tudo bem! – respondeu. Desde que me trates pelo meu nome. Aqui não sou chefe nenhum. – continuou, não me surpreendendo aquela imediata informalidade.

– Por aqui? Não me diga que veio em auxílio desta casa. Olhe que o que me costuma ser apresentado até me parece ter alguma qualidade – informei-o.

– Ai é? Isso é porque não viste o que está por detrás do que te chega. – refutou ele sem me deixar terminar.

– A sério? – expressei.

– É verdade. Sabes que não deves ver só o que te chega para consumo final. Isso engana muito. Tens de começar pela raiz das coisas, das causas e dos problemas, para veres se estão a cozinhar de forma verdadeira, com entrega, com alma. Se estão a cuidar dos clientes como merecem. Se todas as matérias primas são tratadas da mesma forma, de forma atenciosamente repartida ou se por outra é dada atenção somente a alguns dos produtos, em detrimento de outros. Tens de entender se o cozinhado é mesmo real!

Quem tem cozinhado melhor no nosso futebol?
Fonte: Ljubomir Stanisic

– E eu que pensava que estava a ingerir bons produtos, que me alimentam o corpo e me dão satisfação – respondi.

– Pois é… Nem tudo é o que parece. Sabes, às vezes o produto é bom. As pessoas é que não sabem cuidar dele e estragam-no. Olha, por exemplo, os produtos de Portugal: vocês são dos melhores a produzir e depois vamos ao estrangeiro comprar ‘porcaria’ só porque é mais barato ou porque é mais fácil ou porque o Sr. Y até vem cá e então temos também de ser clientes dele. – continuou o consagrado chefe.

– Entendo, mas pelo menos em termos de limpeza está tudo nos conformes, ou não? – questionei-o.

– Queres mesmo que te diga? – interrogou-me o chefe, deixando-me um tanto ou quanto preocupado, porque sei que ele não tem papas na língua.

E continuou: aquilo está uma porcaria que mete nojo. E pior que tudo é que nem sei por onde pegar. Não sei como resolver o problema. E eu detesto quando não sei onde ‘atacar’.

– Quem havia de dizer. Nunca pensei! – exclamei com espanto.

– Pois é, meu caro. – prosseguiu. Os problemas são tantos e não é só da falta de aposta no que é nosso. É a parte em que não há organização;a parte em que todos ralham nos bastidores e não se entendem; aparte em que não sabem fazer leis (desculpa, queria dizer ementas) e depois de as fazerem nem sequer as cumprem. Anda tudo ao sabor do vento. Cada um faz o que acha melhor para si próprio e assim não vão longe. E mais: quando as coisas não correm bem, colocam a culpa em cima uns dos outros, para ver se ninguém vê que foram eles os responsáveis pelo resultado final que ficou muito aquém.

No futebol como na cozinha, o espírito de equipa é essencial
Fonte: Ljubomir Stanisic

– Entendo! – disse.

– E depois é isto que se vê. Estes negócios mais pequenos são complicados. Se for bem gerido, se for tudo feito com qualidade, com dedicação e com um bem tratar das coisas, isto vai para a frente. Claro que há sempre erros. Mas só não erra quem não faz! Agora se vão pelo facilitismo, se não forem bem medidos os passos a dar, então o que acontece é isto que está a acontecer cada vez mais neste país: a extinção, a falência, o fim destes negócios que outrora tiveram grandes momentos.

– Desculpa, pá. Tenho que ir ali que não me está nada a agradar o que estou a consumir. Porra! Um gajo tem que andar a comer isto pelos olhos todos os dias? – exclamou o chefe já bastante ‘azedo’.

E lá foi ele. Fiquei a pensar no que ele me havia dito e já não consegui comer mais nada.

Passados alguns instantes batem-me no ombro. Viro-me para trás. Era o chefe Ljubomir.

– Estás a ver do que eu te falava? – Perguntou-me ele, mostrando-me uma notícia com o título: ‘Futebol Português: onde há poucos cozinheiros, mas muitos cozinhados’. Só então entendi que a conversa não era sobre cozinha, mas antes sobre o nosso Futebol.

Assim vai o país futebolístico. Quem quer provar?

Foto de Capa: Ljubomir Stanisic

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

Tiago Ferreira

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Tiago Campos · 4 min de leitura
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