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Vanderlei Fernandes Silva, mais conhecido como Derlei, nasceu e cresceu na pobreza do pacato município de São Bernardo do Campo, chegando a Portugal através da União de Leiria, clube que o acolheu e onde encontrou um “treinador especial” que retirou o melhor dele. Tal como um Ninja, alcunha adquirida ainda nos tempos de Leiria, Derlei aplicou golpes certeiros e foi o goleador máximo da histórica Taça UEFA em 2003. Depois da lesão grave no ano seguinte, veio a consagração em Gelsenkirchen. Com a saída atribulada do Dragão, seguiu-se a experiência em solo russo, uma passagem apagada na Luz e o reaparecimento em Alvalade. Numa entrevista recheada, Derlei abriu o livro de histórias e não deixou nada por contar, pautando todos os momentos com uma humildade notável.

– Da pobreza das favelas aos anos em Leiria com Mourinho a tirar o melhor do “Ninja”-

Quando Mourinho assumiu a equipa do União de Leiria, ele já conhecia muito bem os jogadores”

Bola na Rede [BnR]: Chegaste a vencer o prémio de melhor jogador do São Bernardo do Campo e ir jantar à famosa churrascaria da cidade, que era um sonho teu quando eras miúdo?

Derlei [D]: (risos) Não, não. Quando eu sonhava com isso era muito jovem e conforme eu fui crescendo praticamente não deu tempo de jogar no São Bernardo. A churrascaria ainda existe e o importante é que eu já fui lá algumas vezes e não precisei de ter recebido a eleição de melhor jogador.

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BnR: Os puxões de orelhas que recebias do teu pai quando chegavas atrasado à mesa por estares a jogar futebol foram importantes na transmissão dos teus valores da família?

D: Claro, com certeza. Isso são as regras e nós temos que respeitá-las. Foi isso que o meu pai me ensinou desde sempre. Então ele colocou uma regra em casa: ele chegava por volta das 18h30/19h depois do trabalho, tomava um banho e gostava que nós estivéssemos juntos quando o jantar estava a ser servido. Essa regra basicamente era só para mim (risos) … porque eu ia para o campo jogar à bola e no verão eu perdia a noção da hora e daí vinha aquele velho puxão de orelha. Mas tenho uma gratidão imensa ao meu pai.

BnR: O futebol era um escape para não pensares na pobreza à tua volta e da dura realidade da favela onde vivias?

D: Quando eu era criança me lembro que não tinha saneamento básico, água canalizada e não tinha luz no bairro onde eu nasci. O que fica são os valores que os teus pais te vão passando e conforme você vai crescendo, você vai sabendo o porquê de estar ali e o porquê de não ter as condições dos outros lugares e só existe uma forma de sair dali: estudando. Através do conhecimento é mais fácil você se libertar, juntamente com o trabalho. Durante o meu caminho fui vendo algumas pessoas que buscaram o “mau caminho”, que é o caminho mais curto e mais fácil. Infelizmente tive muitos amigos que se envolveram com drogas e assaltos. Mas também tenho muitos amigos daquele tempo, pais de família e trabalhadores, que seguiram o seu caminho dentro da lei e é um orgulho enorme para nós.

BnR: Lembras-te do nome do treinador que te passou de número 10 para número 9?

D: É difícil, porque eu desde muito jovem jogava no meio-campo a trinco e aos poucos fui subindo. Lembro que quando jogava nos juvenis eu já jogava mais à frente. Só sei que me colocaram a jogar a avançado e as coisas correram bem.

BnR: Tens ideia do momento exato em que o sonho de ser jogador de futebol passa a tornar-se cada vez mais uma realidade para ti?

D: O sonho permanece desde criança, você sonha ser jogador profissional porque vê os atletas na televisão. Essa realidade foi por volta dos 17 anos, talvez até mais tarde, porque nessa idade ainda tinha outros caminhos. Mas o futebol sempre foi a primeira opção.

BnR: Três épocas no América-RN, uma passagem despercebida no Grémio Mauaense, com o Biro Biro como treinador. Depois estás muito perto de ir para o Corinthians, mas o Guarani joga na antecipação e assegura a tua contratação. Achas que tudo teria sido diferente se tivesses assinado pelo Corinthians?

D: É difícil falar em suposições, há pessoas que acreditam que há coisas pré-programadas, mas eu não acredito que tem um destino que você está fadado a passar por aquilo. Acredito que conforme as nossas decisões e aquilo que se vai escolhendo, as coisas vão acontecendo. Talvez se eu tivesse escolhido ir para o Corinthians, possivelmente iria ser emprestado e talvez nem iria ter oportunidade de jogar por eles.

BnR: Também ias ter muita concorrência lá na frente com Edilson, Mirandinha, Donizete…

D: Isso, naquela época o Corinthians tinha uma grande equipa!

BnR: Fazes dois meses no Madureira, a convite do teu amigo Dauri, em que marcas sete golos em sete jogos. Essa experiência foi determinante para a tua vinda para Portugal?

D: Com certeza. A gente aqui de São Paulo só conhecia o campeonato Carioca pela televisão e a visão que tínhamos era que esse campeonato era só Vasco, Fluminense, Flamengo, Botafogo e América FC. Quando surge o Madureira eu nem se quer conhecia. Acabei por ir para lá e foi uma oportunidade para jogar com mais frequência. Era um clube pequeno, mas muito organizado. Felizmente, em sete jogos fiz sete golos, fiz golos aos quatro grandes clubes e isso chamou a atenção. O Presidente do Madureira, Elias Duba, que tinha uma boa ligação com o Presidente do Vasco da Gama, acabou comprando os meus direitos federativos ao Guarani e eu assinei contrato. Entretanto tinha tudo acertado para assinar pelo Vasco da Gama e apareceu o convite do Jorge Baidek, que trabalhava na altura com o José Veiga, para ir para Portugal e aí acabei por ir para o União de Leiria onde começou tudo.

BnR: O teu ídolo de infância era o Careca. A passagem dele pelo Nápoles, alimentou o teu sonho de vires para a Europa um dia?

D: O que pesava mais até era a questão financeira porque naquela época no Brasil, tirando os clubes grandes, os clubes pequenos pagavam muito pouco. Para além da questão financeira era a oportunidade de entrar no mercado europeu.

BnR: Tenho aqui um dado curioso para ti: sabias que o Careca também venceu uma Taça UEFA em 88/89 e que, tal como tu, marcou dois golos na final?

D: Sim, sim, eu me lembro que eu era muito jovem e acompanhava muito de perto, mais pelos jornais porque na televisão só apareciam os melhores momentos. Por isso eu não tive oportunidade de assistir o jogo completo, mas assisti os golos dessa final. Ele e o Maradona formavam uma dupla sensacional de se ver.

BnR: Chegas a Portugal com 24 anos e é o União de Leiria que te abre as portas em Portugal, onde jogas três épocas. É um clube que tem um lugar especial no teu coração?

D: Muito, muito grande! Se você jogar três anos num clube como o União de Leiria e você jogar apenas um ano num clube como o FC Porto, ele não apaga aqueles três anos que você fez em Leiria. Geralmente o nível que se atinge ao jogar num grande clube, principalmente com conquistas, leva o adepto a lembrar-se do atleta que esteve no auge e dificilmente se lembra do atleta do clube menor. Sem falar na quantidade de adeptos. Por exemplo, os adeptos do FC Porto falam de conquistas enquanto que os torcedores do Leiria focam na situação em que o clube vive. É um clube que tem um peso enorme e que eu guardo no meu coração, porque sem a União de Leiria nada disso teria acontecido e os três anos que lá passei foram fantásticos.

BnR: No Leiria cruzas-te com Paulo Alves, Silas, Maciel, Nuno Valente, Jacques e Krpan lá na frente. Quem era mais rápido, tu ou o Krpan?

D: O Krpan. Eu tinha que dar dois passos para dar um passo do Krpan na corrida. O Maciel também era muito rápido. Eu até gostava de os ter juntos na mesma época para ver quem corria mais. O Krpan era muito rápido, nos primeiros 20 metros era até mais rápido do que o Maciel.

(UD Leiria 3-1 FC Porto- Liga Portuguesa 2000/01: Golo de Derlei aos 0:27)

BnR: No Leiria o plantel tinha uma média de idades alta de 27 anos. A experiência da equipa aliada à experiência do Manuel José foram o segredo por detrás do histórico quinto lugar do União de Leiria?

D: Eu sempre creio que a experiência é essencial num grupo de trabalho. Não é uma regra, nós vemos, por exemplo, o Leipzig tem uma média de idades muito jovem e têm feito um trabalho fantástico. Mas eu acredito que em momentos essenciais da temporada falta um pouco de experiência e essa experiência decide muitos jogos. Por isso esses jogadores do Leiria tinham muito conhecimento da liga e havia jogos que nós íamos jogar fora de casa e sabíamos: “hoje temos que levar pelo menos um ponto daqui”. Em determinados momentos do jogo, você acaba por usar essa experiência para segurar um pouco mais o jogo, para sofrer menos ataques e manter um pouco mais a bola. A experiência ali na equipa tinha um papel fundamental aliadas também às ideias do treinador.

BnR: Na tua terceira época em Leiria alcanças a tua melhor marca de golos na carreira em Portugal com 21 golos. Por coincidência ou não, essa tua melhor época coincide com a época de estreia de Mourinho. Como era esse Mourinho de 38 anos que em apenas 20 jogos já tinha colocado o Leiria no quarto lugar?

D: Eu me lembro que quando ele saiu para o FC Porto, se nós vencêssemos o Sporting CP nós passávamos para o terceiro lugar. Ele era um treinador jovem que chegou com uma metodologia totalmente diferente. Desde o primeiro dia era totalmente diferente do Manuel José e do Mário Reis. A pré-temporada do Manuel José e do Mário Reis era muito mais focada na parte física e a gente corria muito. A forma que o Mourinho encontrou para trabalhar essa parte física era sempre com bola e isso acaba por “enganar” o cérebro do atleta porque ele continua correndo na mesma, a diferença é que está com a bola. Desde o primeiro dia a equipa assimilou muito bem a ideia de jogo dele. Quando ele assumiu a equipa do União de Leiria, ele já conhecia muito bem os jogadores individualmente, através de vídeos ou jogos, para que pudesse montar ao máximo a sua equipa e explorar os seus jogadores. Acredito que desde o princípio, ele tenha visto em mim algumas características que ele podia aproveitar que não tenham sido aproveitadas até então.

BnR: Outra curiosidade: tu realizas o mesmo número de jogos pelo Leiria e pelo FC Porto, 92 jogos, e acabas por marcar mais golos no União de Leiria, 42, do que no Porto, 39. Antes de passar para o FC Porto, queria te relembrar que na tua última época no Leiria fazes 21 golos e és o segundo melhor marcador do campeonato. Lembras-te quem foi o primeiro?

D: Lembro sim. Na verdade, eu me considero o melhor marcador do campeonato porque o Jardel não estava neste planeta. Ele fez 30 jogos e fez 42 golos. Sempre houve grandes jogadores, mas naquela altura dificilmente aquilo aconteceria. Em uma palavra eu acho que o Jardel era letal. Dentro daquilo que eu pude ver, eu acho que o Jardel foi o maior goleador que a Liga Portuguesa já viu atuar. Tinhas o Fernando Gomes, o próprio Nuno Gomes que eu também gosto muito, mas igual ao Jardel não há.

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