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Scouting: o segredo do futebol português

Tiago Serrano · 6 min

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Cabeçalho Futebol NacionalVivemos num país exportador de jogadores. Para além do futebol formação português ter crescido exponencialmente nesta década, o nosso campeonato começou a ganhar visibilidade neste século pela capacidade de prospecção de jogadores (portugueses e estrangeiros) que depois são vendidos a clubes das principais ligas europeias por bons preços.

Algumas pessoas provavelmente até pensarão como é que este país pequenino plantado à beira-mar pode produzir tantos jogadores talentosos, mas se fomos a ver, não somos um caso único nesse aspecto: a Bélgica e a Holanda, países com uma área semelhante à do Alentejo também têm talento para dar e vender.

O factor mais relevante neste aspecto, é que entre os países europeus situados no top-10 do ranking da UEFA, Portugal é certamente um dos que tem uma economia menor, o que dá mais relevância aos feitos que o nosso futebol consegue.

Mas, será que alguém já pensou de forma mais aprofundada sobre a capacidade de revelar jogadores que o nosso futebol tem? Ora, sigamos o seguinte raciocínio: os treinadores destacam-se ao potenciarem os jogadores, são os presidentes que dão o dinheiro para contratar os jogadores, são os dirigentes e os empresários que os negoceiam. Mas, quem é que descobre os jogadores e dá as primeiras indicações sobre eles?

Cristiano Ronaldo foi descoberto pela rede de recrutamento liderada por Aurélio Pereira Fonte: Sporting Clube de Portugal
Cristiano Ronaldo foi descoberto pela rede de recrutamento liderada por Aurélio Pereira
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Falo dos olheiros. Daqueles homens que observam os jogos num canto discreto do estádio, que em muitos casos atravessam o oceano para observar um jogador, uma região, um país ou uma competição onde possa recolher informações sobre aqueles que podem ser os futuros craques do clube que representam.

E, apesar dos olheiros trabalharem na sombra, as suas capacidades também são fundamentais para assegurarem um futuro de sucesso no clube para o qual trabalham. Têm de ter capacidade para detectar e selecionar os jogadores e precisam de ser ágeis no seu recrutamento, de modo a anteciparem-se a outros clubes e também aos empresários, que nos dias de hoje têm cada vez mais peso no futebol e no mercado.

Os olheiros andam muitas vezes em cantos discretos dos estádios para observar jogadores que correspondam ao perfil que se pretende. Esses olheiros não se preocupam com o resultado que o placard indica mas sim com o desempenho individual do jogador que observam: a sua habilidade, a forma como trabalha com e sem bola, como ele se comporta em situações de pressão, etc. Sendo que os olheiros recolhem toda essa informação num relatório posteriormente é enviado para o departamento de futebol do clube.

Ser olheiro é uma tarefa bem mais difícil do que parece, porque é uma tarefa que exige um conhecimento minucioso de todos os perfis de um jogador e de todos os aspectos de jogo, de modo que posa avaliar os jogadores consoante as várias situações de jogo.

Creio que o Sporting Clube de Portugal foi o “pioneiro” no recrutamento de jovens jogadores para os seus escalões de formação. A formação do Sporting começou a tornar-se conceituada nos anos 80 com o aparecimento de jogadores como Paulo Futre e Luís Figo, que deram o mote a um vasto leque de jovens talentos formados no clube leonino que deram cartas no futebol nacional e internacional, entre os quais, 10 dos 23 jogadores que se sagraram campeões europeus no ano passado. Tudo isto graças a um departamento de recrutamento e formação liderado por Aurélio Pereira e ao qual pertenceram outros “caça-talentos” como Artur Garrett, João Ruas ou o Tenente-Coronel José Santos, homens que deram ao Sporting a reputação de clube formador, não só em Portugal mas também em toda a Europa.

As vendas de jogadores como Ricardo Quaresma, Cristiano Ronaldo e Nani, foram fruto da capacidade de prospecção destes homens. E depois do Sporting ter passado por um período mais discreto na formação no início desta década, mas voltou a dar cartas aquando da revelação de jogadores como Cedric Soares, João Mário, Rúben Semedo e Gelson Martins, e certamente não ficará por aqui.

Durante os cerca de 20 anos em que o Futebol Clube do Porto dominou o futebol português, o seu Departamento de scouting também ganhou bastante visibilidade, não a nível da formação, mas sim ao nível do recrutamento de jogadores estrangeiros, nomeadamente sul-americanos. E foi esse departamento de scouting que conferiu ao clube a possibilidade de manter uma equipa forte e competitiva, vendendo jogadores influentes todos os anos.

Luís Gonçalves regressou ao FC Porto após 5 anos a coordenar o scouting do Shakthar Donetsk Fonte: FK Shkathar
Luís Gonçalves regressou ao FC Porto após 5 anos a coordenar o scouting do Shakthar Donetsk
Fonte: FK Shkathar

João Luís Afonso foi o director do scouting do FC Porto entre 2005 e 2016, sendo um dos trunfos por detrás da forma como o clube azul e branco se precavia à venda dos seus maiores craques, tendo sido substituído pelo “bibota” Fernando Gomes no ano passado. Também Luís Gonçalves, regressado ao FC Porto no ano passado para substituir Antero Henrique, foi um dos homens fortes do scouting do clube entre 1993 e 2011, sendo o responsável pela contratação de vários sul-americanos que deram cartas nos dragões, desde Mário Jardel a Radamel Falcao.

E apesar do FC Porto atravessar uma seca de títulos, o scouting do clube não perdeu qualidades, como se viu pelas recentes conquistas da sua equipa B e pela revelação de jogadores como Omar Govea, Fede Varela, Ismael Díaz e Wanderson Galeno.

Nesta década, o Departamento de scouting do Sport Lisboa e Benfica também tem ganho bastante notoriedade, com vários dos seus elementos a serem pretendidos por clubes de topo, sendo que alguns deles foram mesmo “assediados” por Jorge Jesus quando este se mudou para o Sporting CP em 2015.

Um dos seus principais elementos, José Boto, trabalha no Benfica desde 2007 e é o scouter do Benfica para a Europa, tendo descoberto jogadores como Rodrigo, Nolito, Matic, Axel Witsel, Fejsa e Zivkovic. Outro dos seus elementos mais activos, Francisco Oliveira, é o olheiro do Benfica no Brasil, tendo descoberto jogadores como Luisão, David Luiz, Ramires e Anderson Talisca.

Esta aposta do Benfica no Departamento de prospecção tem colhido muitos frutos ao clube e foi um factor essencial na recuperação da hegemonia encarnada, pela forma como a equipa se regenera após a venda de jogadores influentes todos os anos.

Fejsa e Zivkovic: dois talentos descobertos por José Boto Fonte: Sport Lisboa e Benfica
Fejsa e Zivkovic: dois talentos descobertos por José Boto
Fonte: Sport Lisboa e Benfica

No entanto, não são apenas os clubes grandes que de destacam pelo seu scouting. Por exemplo, o Rio Ave FC também se tem destacado nos últimos anos na descoberta de jovens talentos como Filipe Augusto e Krovinovic. O Vitória Sport Clube também se tem destacado neste ramo. Com a grave crise financeira que atravessaram nesta década, o clube vimaranense também se destacou na descoberta de jogadores oriundos de divisões inferiores ou de campeonatos pouco conhecidos. Jogadores como Soudani e Dalbert renderam bons negócios ao clube, e outros jogadores que se destacaram nesta época como Konan, Zungu e Raphinha também abrem perspectivas quanto a bons negócios futuros.

Regra geral, o mercado sul-americano é o mais apetecível para os clubes nacionais. Provavelmente, porque os atletas sul-americanos são aqueles a que os clubes portugueses mais têm a oferecer, tendo em conta o salto qualitativo que estes dão na vida ao viram para Portugal, e também a forma como os nossos clubes trabalham os atletas, fazendo-os crescer e evoluir para depois darem o salto para patamares competitivos mais elevados.

Cada clube com a sua visão e dentro das suas possibilidades, os clubes portugueses dos melhores scouters do mundo. É óbvio que nenhum olheiro acerta em todas as recomendações que faz. A partir do momento em que um jogador é recrutado, existe uma grande variedade de factores que influenciam o seu percurso e o seu sucesso futuro, ou a falta dele.

E como tal, creio que o segredo do futebol português ser tão competitivo para as condições financeiras que tem e produzir tantos jogadores de qualidade está no scouting. Muitas vezes os olheiros não são reconhecidos, e também não é fama que eles pretendem ter, visto que a discrição é a sua imagem de marca. Mas o seu “trabalho silencioso” é uma mais valia para os clubes portugueses, principalmente nos dias de hoje em que estamos perante um mercado cada vez mais feroz e cada vez mais influenciado pelo poder dos empresários.

Foto de Capa: Câmara Municipal de Lisboa

 

Tiago Serrano

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