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Filho de Setúbal, Silvino Louro nasceu e cresceu para o futebol ao lado de casa. Mas, ao contrário de tantos conterrâneos, partiu, ainda jovem, das margens do Sado, decidido em escrever o seu destino à sombra de outras redes. No Benfica, tornou-se “capitão” e símbolo – defendendo até a baliza das águias nos dois últimos capítulos da lenda criada pela língua comprida de Béla Guttmann. As voltas que a vida dá levaram-no, mais tarde, ao FC Porto – e essas imagens de dragão ao peito continuam, hoje, a dividir opiniões (e a provocar fissuras no pedestal que ocupa, por direito próprio, no Panteão benfiquista). Como treinador de guarda-redes de José Mourinho alcançou o topo do mundo. Venceu o que havia para vencer. Agora, na sua casa, em Madrid, Silvino Louro olha desconfiado pela janela para uma cidade “refém” da doença e da morte. E enquanto deixa o tempo correr, devagarinho, junto de quem mais gosta, “puxa” pela memória para recordar os dias de glória como jogador de luvas grossas nas mãos. E como treinador de excelência. Lembra os momentos e os amigos que foi somando durante todos estes anos. Com saudade. Às vezes com alegria, outras com tristeza. Fê-lo, esta tarde, na companhia do Bola na Rede. A conversa, essa, foi esta que aqui partilhamos – mas podia ser ainda muito mais. Silvino Louro tem passado, presente e futuro.

«Com o Fernando Santos, no FC Porto, e depois com o José Mourinho estes anos todos conquistei 28 títulos. É importante não deitar tudo a perder agora, indo para um projeto que não vai dar em nada»

 

Bola na Rede: Olá, Silvino. Como é que se vive em Madrid nesta fase? Com estes números da pandemia, todas as restrições…

Silvino: Não é nada fácil. Mas já foi bem pior, principalmente em abril.

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Bola na Rede: Nessa altura, a situação em Espanha era mesmo dramática…

Silvino: Sim, sim. E senti muito medo. A partir de março, contam-se pelos dedos das mãos as vezes que saí de casa… Não arrisquei durante quatro meses. Era só mesmo para ir comprar pão ou fruta, por um minuto, e voltava logo para casa. E mesmo nas lojas, se estivesse lá uma pessoa que fosse, preferia esperar cá fora, e só depois de a loja estar completamente vazia é que entrava.

Bola na Rede: Os números da pandemia na altura impunham respeito…

Silvino: Muito. Em Portugal, havia 100/120 novos infetados e cinco/seis mortos. Em Madrid? Estamos a falar de 10, 12 ou 15 mil novos infetados e 600, 700, 900 mortos… chegaram a morrer mil pessoas num único dia…Eu acordava, via estes número, e pensava: “Espera aí! Não saio de casa! Não vamos sair!”… Felizmente, não aconteceu nada até ao momento. Nem a mim, nem à minha família.

Bola na Rede: E a nível profissional, como é que se vive este período e este contexto? Ainda por cima sem estares a trabalhar numa equipa… Como é que te manténs ligado ao futebol e te manténs atualizado?

Silvino: Atualizado mantenho-me desde que deixei de trabalhar, no dia 14 de dezembro de 2019. Nós quando estamos no ativo não temos muito tempo para pensar. Só nos preocupamos com o jogo seguinte, com a forma como a equipa adversária joga, como jogam os seus jogadores mais importantes, como executam as bolas paradas: os cantos, os livres, os penáltis… Não há tempo para mais nada. Neste momento, posso estudar, melhorar, trabalhar a vertente do treino… até porque, hoje, o papel de um guarda-redes numa equipa mudou completamente. Um guarda-redes joga de forma totalmente diferente do que jogava há dois ou três anos… e é preciso acompanhar isso.

Bola na Rede: Que diferenças são essas?

Silvino: Um guarda-redes, antes, só defendia bolas. Hoje, tem essencialmente de ser mais um jogador que sabe jogar bem com os pés. Basta ver como jogam a maior parte das grandes equipas, que começam o processo ofensivo a partir de trás. E para os treinadores poderem fazer isso têm obrigatoriamente de ter guarda-redes com bons pés. Todas as grandes equipas jogam agora assim. Começou com o Barcelona, mas o Tottenham do José Mourinho também já joga assim. O Liverpool, Manchester City, Manchester United, Real Madrid… E isso é a prova evidente que os treinadores dessas equipas têm confiança nos seus guarda-redes com a bola nos pés. Mas para isso, é preciso trabalhar, trabalhar muito.

Bola na Rede: E como manténs a forma física? Isso também é essencial para um treinador…

Silvino: Lógico! Isso tem de se fazer sempre. Estive nos últimos três meses na terra da minha mulher [Mellilla], só regressei na semana passada. A situação da pandemia lá está mais tranquila. O condomínio onde vivíamos tinha um ginásio para onde ia trabalhar todos os dias. Depois, comprei uma bicicleta e fazia 50 quilómetros todos os dias… colocava os fones, música a tocar e fazia pelo menos duas horas e meia de bicicleta todos os dias.

Bola na Rede: Então estás em forma?

Silvino: Estou. Eu também não sou pessoa de engordar. Só peso um quilo e meio a mais desde o tempo em que jogava.

Bola na Rede: Há ex-jogadores que até dizem que não conseguem deixar de pensar como jogadores. Também és assim? Ainda tens essa “cabeça” de jogador?

Silvino: Não, não, não (risos). É impossível… Tenho 61 anos. É preciso ter cuidado (risos). Às vezes convidam-me para jogar, mas já nem vou para a baliza, jogo só lá na frente… só vou para a baliza se o guarda-redes for muito mau (risos). Mas agora com esta situação [da pandemia] há muito tempo que não faço isso.

Bola na Rede: Continuas a estudar, estás em forma… Mas o teu último projeto foi o Manchester United, de onde saíste em dezembro do ano passado… Entretanto, depois disso, saíste da equipa técnica do José Mourinho e já não o acompanhaste para o Tottenham, mas já lá vamos. Para quando um regresso ao ativo? Tens tido convites?

Silvino: Olha, apareceu-me um convite da China… não quis ir. Depois, apareceu-me um convite do Catar… também não quis ir. Na época passada, fui convidado pelo Leganés, que estava na Liga espanhola, mas que depois acabou por descer, mas também não aceitei.

Bola na Rede: Mas sempre para ser treinador de guarda-redes? Liderar um projeto está fora de hipótese?

Silvino: Está, está… nada de ser treinador principal, isso nunca. É lógico que também tenho as minhas ideias, derivado aos meus anos como jogador e treinador, sei ver essas situações, mas prefiro estar ligado à área especifica de guarda-redes, que é a que mais entendo e tenho mais prazer em trabalhar.

Bola na Rede: Mas esses convites da China e do Catar deviam ser muito bons financeiramente… Também rejeitaste uma equipa da Liga espanhola… O que é que estás à procura?

Silvino: Essa resposta é muito fácil. Para aceitar um projeto tenho de saber com quem vou trabalhar, quem são as pessoas, se são competentes e sérias, e também tenho de saber aquilo que o clube quer. Quando já se tem algum prestígio não podemos aceitar qualquer coisa, não é? Temos de perceber que aquilo que já fiz, ao longo dos anos, foi feito com muito suor, sofrimento, lágrimas… Com o Fernando Santos, no FC Porto, e depois com o José Mourinho estes anos todos… conquistei 28 títulos… É importante não deitar tudo a perder agora, indo para um projeto que não vai dar em nada. Portanto, depende do projeto e das pessoas. E é isso que estou à espera, e até tenho a certeza que dentro de pouco tempo estarei no ativo…

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O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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