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TRIBUNA VIP é um espaço do BnR dedicado à opinião de cronistas de referência para escreverem sobre os diversos temas da atualidade desportiva.
O Estrela da Amadora está na Segunda Liga! O regresso de um histórico após uma época memorável. Aqui, na primeira pessoa, deixo-vos um pequeno resumo do que foi este ano de loucos.
Quando a 11 de junho de 2020 me convidaram para integrar o projeto para reerguer o Estrela da Amadora, estava longe de imaginar tamanha aventura que foi esta época 2020/2021. Para mim foi fácil aceitar. Não só pela grandeza do clube, como também pelas pessoas que trilharam este bonito caminho que devolveu o Estrela da Amadora aos campeonatos profissionais.
Entrei pela primeira vez no Estádio José Gomes a 19 de junho e a imagem era desoladora. Um relvado que nem era digno desse nome, bancadas degradadas, balneários com poucas condições, gabinetes sujos e com papéis amontoados… Pensei para mim: “O que é isto? Como é possível o Estrela estar assim?”.

Mas, bem, metemos mãos à obra e foram dois meses intensos para conseguirmos trabalhar com dignidade e também oferecer dignidade a quem visitasse o Estádio José Gomes e aos nossos jogadores.
Tanto que tivemos de andar com a casa às costas durante toda a pré-época. E que pré-época complicada. Quisemos contratar com o máximo critério possível e isso atrasou a nossa preparação, mas o que é certo é que chegados ao fim da época percebemos todos que tomamos as decisões certas nos momentos certos e por isso conseguimos ter um plantel extraordinário, repleto de soluções para a equipa técnica e, sobretudo, sem jogadores sobre os quais não tivéssemos a certeza absoluta de que seriam mais valias.
É claro que sempre esteve nas nossas cabeças subir de divisão, mas em agosto e setembro tínhamos plena noção de que se ficássemos na Liga 3 seria uma grande vitória depois de todo o trabalho que tivemos.
Só que com o passar das semanas fomos percebendo que além de uma estrutura muito forte, tínhamos mesmo acertado nos jogadores e na equipa técnica. Jogo após jogo conversávamos uns com os outros e percebíamos que efetivamente todas as horas que dedicámos à causa Estrela da Amadora faziam sentido.
Quis o sorteio que o nosso primeiro jogo fosse nos Açores. Pela frente um GD Fontinhas que tinha fortes aspirações nesta série. 20 de setembro. Primeiro jogo, primeira vitória. Recordo claramente que tínhamos apenas 20 jogadores inscritos e dois estavam castigados. Convocatória com 18 à conta para o mister Rui Santos.
Semana seguinte novo jogo nos Açores para a Taça de Portugal. Mais uma vitória diante do São Roque. Vencemos depois o SC Ideal e o Lusitano FC de Vildemoinhos. Quatro vitórias seguidas. Incrível. A chama do Estrela começava a crescer. Era fantástico o contacto (pouco pela COVID) com as pessoas nas ruas da Amadora. O sorriso daqueles que tantos anos viram o Estrela sem competir e enterrado na última distrital era absolutamente impagável.
No Dia Internacional da Família desejamos que todos consigam estar junto das suas, com a devida segurança, e aproveitamos para mostrar a nossa…
… Família Tricolor!Obrigado por estarem sempre presentes!
⭐💪🇹🇯#familiatricolor #diadafamilia #estreladaamadora pic.twitter.com/NFZKcGaNIl— Estrela da Amadora (@cfeamadora) May 15, 2021
Porque os amadorenses gostam verdadeiramente do Estrela e para milhares de pessoas esta época foi um grande escape para a COVID. Ir ao Del Negro e ter pessoas a agradecer pelo que estávamos a fazer ao Estrela da Amadora dava-nos ainda mais força para encarar cada dia de trabalho.
A 17 de outubro, após as tais quatro vitórias, empatámos com o Real SC, fora. E aí choveram críticas nas redes sociais. Injustas. Todas elas. Mas no futebol é mesmo assim. Num dia heróis, no dia seguinte vilões.
Mas a todos os que criticaram esse empate, fiquem a saber que nós lemos todas as críticas e respondemos em campo. Sete vitórias seguidas. Seis das quais depois de nos vermos todos forçados a um isolamento de 14 dias devido a um pequeno surto no nosso plantel.
Nesta sequência de vitórias há dois momentos que temos de destacar. Um deles a eliminação do SC Farense. Equipa da Primeira Liga que se apresentou na máxima força e caiu com estrondo no Estádio José Gomes. E também há que referir a vitória diante do Anadia FC também na Taça de Portugal. De repente estávamos nos oitavos de final e já todos os adeptos sonhavam com a Final.
Mas nós sabíamos que esse caminho era longo e difícil e, apesar de todos sonharem com isso evidentemente, sempre mantivemos o nosso foco no campeonato.
Antes de virarmos o ano de 2020 para 2021 tínhamos pela frente o Sporting CP “B” que assumiu desde o início que queria subir para a Segunda Liga, mas que andou sempre atrás de nós. Um empate num jogo em que fomos superiores e merecíamos mais.
É claro que depois deste jogo o “chip” de todos mudou de vez. Percebemos claramente que se continuássemos a trabalhar da forma disciplinada que o fizemos, iriamos alcançar o 1.º lugar no grupo. E foi por isso que corremos, foi por isso que lutamos e no final foi o que conseguimos!
Na segunda metade da temporada, antes da fase de subida, tivemos mais dificuldades do que na primeira metade. O que é normal em todos os campeonatos, mas que nunca nos tirou o foco. E isso foi o mais importante ao longo da época. O foco, a entrega, a determinação e o acreditar que poderíamos fazer história.
12 de janeiro de 2021. CF Estrela da Amadora – SL Benfica. Oitavos de final da Taça de Portugal. Lembro-me perfeitamente do dia do sorteio. Desde o primeiro minuto que foi conhecido o alinhamento dos jogos começámos a trabalhar para que o jogo fosse no Estádio José Gomes. E o que lutámos por isso! E o que tivemos de fazer por isso! Mas conseguimos, todos nos superamos e o José Gomes voltou a receber um grande muitos anos depois. José Gomes esse que na temporada 2019/2020 recebia jogos da 3.ª Distrital da AFL. Passado menos de um ano estava a receber uma das melhores equipas nacionais num jogo que foi visto por quase dois milhões de pessoas na televisão.

A certa altura todos achámos que estávamos a sonhar acordados. Tudo corria bem (o resultado do jogo com o Benfica foi o que menos interessou), planeávamos, executávamos e alcançávamos os resultados. Muitas vezes não conseguimos até explicar como conseguíamos algumas coisas. Mas conseguíamos!
Contudo, este sonhar acordado teve também uma parte de pesadelo. 14 de fevereiro, empate fora com o SC Praiense. 20 de fevereiro, derrota fora com o Oriental Dragon FC.
Dois jogos seguidos sem ganhar no campeonato era algo que ainda não nos tinha acontecido na época. E foram duas semanas terríveis. Os escritórios onde todos os dias trabalhamos viraram, nessas semanas, autênticos velórios. Era muito trabalho para perdermos a oportunidade das nossas vidas de ficar em 1.º lugar na série.
E mais uma vez transformamos as fraquezas em forças e nos últimos seis jogos, vencemos cinco. Estávamos na fase final e com quatro pontos de avanço para o 2.º classificado, Sporting B. E que sensação tivemos naquele dia. Sensação de dever cumprido, mas também sensação de responsabilidade ainda mais acrescida. É que, estando na fase de subida, não podíamos pensar em nada menos do que a subida.
Pela frente, SCU Torreense e UD Leiria com orçamentos astronómicos face ao nosso e um Vitória FC com um plantel de Primeira Liga. Três jornadas e sete pontos. Já ninguém pensava noutra coisa. Muita tinta correu nessa semana após a vitória por 2-1 diante da U. Leiria. Muita gente tentou desestabilizar-nos. E até admito que possam ter pensado que o conseguiram, porque depois perdemos com o Vitória de Setúbal e empatámos com o Torreense.

Mas o que se esqueceram foi de que em nenhum momento dependemos de terceiros para alcançar o nosso objetivo e todos eles dependeram. Desde o dia 20 de setembro de 2020 até ao dia 30 de maio de 2021, o Estrela da Amadora nunca dependeu de terceiros para chegar à Segunda Liga. E que confusão que isso deve ter feito na cabeça de muitos.
No final, e já com a subida garantida, após a vitória por 2-0 diante da U. Leiria, o trabalho compensou. O esforço compensou. As horas infinitas passadas nos gabinetes compensaram. O Estrela da Amadora está vivo, está de volta aos campeonatos profissionais e está mais pujante do que nunca.
É certo que perdemos a final, mas alcançámos a subida à Segunda Liga. Uma subida em que ninguém acreditava quando o Club Sintra Football se fundiu com o CD Estrela.
Conseguimos. Está feito. O Estrela voltou. E não vai ficar por aqui. Este já longo texto é apenas o primeiro capítulo da história do regresso do Estrela.
Artigo de opinião de Marco Ferreira,
diretor executivo CF Estrela Amadora
Artigo revisto por Joana Mendes
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