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As melhores histórias da fase de grupos do Mundial Feminino

Gonçalo Taborda · 7 min

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O Mundial Feminino de futebol ainda só vai na sua oitava edição, tendo começado em 1991. Em quase três décadas, muito mudou na forma como se vê as mulheres no desporto-rei. Embora uma rápida pesquisa nas caixas de comentários das redes sociais traga à luz alguns preconceitos que ainda há contra a prática feminina do futebol, o Mundial é sempre a melhor hipótese para se demonstrar que não é só o cromossoma Y que está dotado de talento.

Agora que a fase de grupos terminou e estão apuradas as 16 equipas que vão disputar os oitavos de final, fazemos uma retrospetiva para analisar algumas das principais histórias que – dentro e fora de campo – marcaram, para já, este Mundial Feminino de Futebol de 2019.

Do Reggae Jamaicano às polémicas quanto à igualdade de géneros, muito há a dizer do torneio que está a decorrer em França, com final marcada para 7 de julho.

Reggae Girlz fazem história

Havana Solaun celebra o primeiro golo de sempre da Seleção Jamaicana num Mundial Feminino          Fonte: FIFA

O percurso da Jamaica neste Mundial não seria à partida, digno de recordação. Derrotas por 3-0, 5-0 e 4-1 frente a Brasil, Itália e Austrália respetivamente formam um registo bastante negativo. Mas 2019 é um ano que ficará na história do futebol feminino jamaicano como o ano da sua primeira participação num Mundial.

É um feito ainda mais impressionante se voltarmos a 2016. Há apenas três anos, não havia Reggae Girlz – a Federação Jamaicana de Futebol (JFJ) cortara os fundos da Seleção e acabara com a equipa – nem liga profissional de futebol feminino.

Se as jogadoras com as vibrantes camisolas amarelas puderam subir aos palcos de França, país anfitrião do Mundial, bem podem agradecer a dois nomes: Cedella Marley e Hue Menzies.

Cedella Marley, filha de Bob, é a embaixadora da equipa. Após a JFJ ter decidido acabar com o projeto em 2008, foi a própria Cedella que, através da Fundação Bob Marley, patrocinou a equipa, ajudando financeiramente as jogadoras. Ainda assim, em 2016 voltaria a ver a Federação a abandonar as Reggae Girlz. Fez um novo esforço e acabou por reconstituir a equipa a tempo de entrar na fase de qualificação para o Mundial, que culminaria numa vitória nas grandes penalidades sobre o Panamá.

Hue Menzies é o treinador das jamaicanas, e o obreiro deste pequeno milagre. Apesar disto, nem Menzies nem os seus assistentes recebem qualquer tipo de rendimento da JFJ. Ainda assim, é o próprio treinador que afirma que o seu objetivo vai muito para lá das quatro linhas e de qualquer recompensa monetária. “Não estamos a falar de futebol, estamos a falar de cultura, da forma como se vê as mulheres a jogar futebol. Temos de mudar a mentalidade das pessoas na Jamaica”, diz Menzies em declarações à CNN.

Assim, apesar das três derrotas, ver Cedella Marley a chorar de emoção quando Havana Solaun marcou o primeiro golo de sempre da Jamaica num Mundial foi um momento que teve tanto de poderoso quanto de merecido. As Reggae Girlz regressam a casa, mas esperemos que de França tenham trazido alguma esperança para o futuro.

Noruega sem Bola de Ouro

Hegerberg teve uma época fantástica, que culminou num hat-trick na final da Liga dos Campeões de Futebol Feminino
Fonte: FIFA

A ideia do Mundial não passa só por ver o que os underdogs como a Jamaica podem fazer nos grandes palcos. Parte do entusiasmo destes torneios também se centra em ver as melhores a jogar contra as melhores. Assim, quando a Bola de Ouro de 2018, Ada Hegerberg, anunciou que não acompanharia a Seleção Norueguesa no avião para França, o choque foi generalizado.

Mas porque é que a jogadora do Olympique Lyonnais (clube com quem conquistou quatro Ligas dos Campeões seguidas) tomou esta decisão? Na verdade… ninguém percebeu ao certo.

Referiu questões já conhecidas, como a diferença de condições entre homens e mulheres no desporto rei, e ainda a disparidade nos pagamentos, tanto de clubes como de patrocinadores. Mas também pareceu criticar as suas próprias compatriotas, quando falou da mentalidade no futebol feminino norueguês. “Estão sempre a dizer que temos de maximizar o nosso potencial, mas isso não acontece na prática. Eu sinto que tenho feito isso, mas não posso ser só introspetiva. É por isso que cheguei a esta escolha”.

Isabel Herlovsen celebra o seu golo contra a Coreia do Sul, na vitória que carimbou o passaporte norueguês para os oitavos de final
Fonte: FIFA

Hegerberg ficou assim em causa, sob muita confusão alheia. E foi em casa que viu a sua Seleção a vencer dois dos três jogos da fase de grupos (perdeu 2-1 contra a França), com exibições que não deixaram propriamente água na boca aos adeptos da seleção nórdica.

Com a Austrália pela frente nos oitavos de final, a Noruega terá de mostrar a Hegerberg a tal mentalidade, se quiser trazer para o país o seu primeiro título num Mundial.

Marta de chuteira preta

Na imagem, pode ver as polémicas chuteiras
Fonte: CBF

Se as razões do protesto de Hegerberg eram algo turvas, as razões para os de Marta são bastante claras. E, aliás, estão à vista de todos. Se já viu algum jogo do Brasil neste Mundial, terá reparado certamente no talento do seu número 10, que já foi sete vezes nomeada Bola de Ouro. Talvez até tenha reparado num detalhe curioso: esta número 10 joga com chuteiras totalmente pretas, sem qualquer patrocínio de uma marca desportiva. Se olhar com atenção, pode ver um bandeira rosa e azul nestas chuteiras.

Essa bandeira representa a igualdade de géneros, e é por ela que Marta está a protestar. Com o seu antigo patrocínio a expirar no ano passado, a brasileira recusa-se a assinar um novo contrato, afirmando que as quantias oferecidas às atletas femininas são inferiores às que se oferecem aos homens. Assim, pintou as chuteiras de preto – um processo que não é de todo invulgar (os jogadores fazem-no se, por exemplo, estiverem a discutir um novo contrato com outro patrocinador) – e desenhou nelas a tal bandeira, para onde apontou após marcar o primeiro golo da derrota do Brasil frente à Austrália (3-2).

Com ou sem patrocinador, a verdade é que Marta já fez história neste Mundial. Com golos nas cinco últimas competições, a brasileira é agora a melhor marcadora de sempre em Mundiais, ultrapassando o alemão Miroslav Klose (16 golos). Apesar dos seus 17 tentos, falta-lhe ainda a medalha de vencedora, o troféu que serviria para coroar a carreira de uma jogadora que tanto fez pelo futebol feminino.

13 é o número do azar

As americanas celebraram efusivamente cada um dos 13 golos, o que levou a críticas por parte dos adeptos                                                                                                                                       Fonte: United States Women’s National Team (USWNT)

A jogar o seu segundo Mundial de sempre, a Tailândia era das equipas com menos probabilidades de passar a fase de grupos. Estas hipóteses ainda ficaram mais reduzidas quando viu que teria pela frente os EUA, atuais campeões do Mundo. Ainda assim, no primeiro jogo da competição, as tailandesas não cederam totalmente, e foram para o intervalo a perder por 3-0. Um resultado negativo, mas longe de humilhante. O que viria a acontecer na segunda parte, porém, ficaria na história do Mundial.

As jogadoras americanas não mostraram piedade por uma fraquíssima defesa tailandesa e registaram mais 10 golos na segunda metade da partida, para fixar o resultado final em 13-0(!). Logo após o jogo, algumas questões foram levantadas quanto à atitude das jogadoras americanas, devido a uma suposta falta de respeito pelo adversário. Alex Morgan, que marcou cinco dos 13 golos na partida, foi peremptória: “Com o marcador de hoje, temos de olhar para a fase de grupos, em que cada golo conta. Era importante para nós continuar. Sabíamos que cada golo importava”.

Do outro lado, as tailandesas acabaram o jogo em lágrimas, após aquela que foi a pior derrota de sempre em Mundiais, superando o 11-0 que as alemãs aplicaram às argentinas em 2011 e o 10-1 que os húngaros aplicaram à seleção de El Salvador no Mundial Masculino de 1982.

Os EUA aproveitaram o embalo para ganhar os seus dois próximos jogos (3-0 contra o Chile e 2-0 frente à Suécia), enquanto a Tailândia perderia 5-1 e 2-0, para acabar com um diferença de golos negativa de 19.

Obviamente não cobrimos aqui todas as histórias deste Mundial. Desde a fantástica recuperação da Argentina, que a perder 3-0 frente à Escócia conseguiu o empate, ao dramático golo dos Camarões aos 95 minutos contra a Nova Zelândia, que valeu a passagem à próxima fase. Este tem sido um Mundial repleto de grande momentos, com emoção e, acima de tudo, uma qualidade de jogo acima das outras sete edições.

Fonte: FIFA

Das 32 equipas que foram a França com um sonho, restam 16. Mas esta competição tem algo que o Mundial masculino não tem. Independentemente das animosidades, das derrotas e das vitórias, haverá sempre o objetivo comum de elevar o futebol feminino, de mudar mentalidades e mostrar que elas também merecem ser vistas. As diferenças entre homens e mulheres são inegáveis, mas estas senhoras têm feito um excelente trabalho em dar a conhecer algum do espetáculo que o desporto rei pode proporcionar, independentemente do sexo de quem chuta a bola.

Foto de Capa: FIFA

Gonçalo Taborda

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