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Isto renhido é outra coisa

André Eusébio · 4 min

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cab futebol feminino

Digam o que disserem, qualquer competição é mais apelativa, interessante, emocionante, electrizante, “gusti”, prazerosa, bonita, cativante, viciante, entusiasmante (pausa para respirar)… quando é renhida. Não, nem me venham com coisas, toda a gente sabe que esta é a mais pura das verdades. Sim, é claro que dominar um campeonato ou uma partida por larga margem é porreiro para a equipa que o consegue fazer. Mas, em qualquer batalha, partida, combate ou simples corrida, o mundo é um lugar melhor quando a competição é renhida.

Agora que penso nisso, faz um pouco lembrar aquela altura na escola primária em que todos fazíamos birras porque não queríamos jogar a alguma coisa que sabíamos que iríamos perder. Uns não queriam jogar cartas porque havia sempre algum marmanjo com um super-deck, uns não queriam jogar à bola porque tinham maus pés (e acabavam sempre na baliza a levar com as clássicas “bujas”), outros recusavam-se a jogar ao “ganhas” nos tazos porque não os queriam perder. Os baixinhos diziam sempre não ao basquetebol, os gordinhos a jogos de corrida, os pequenos a zaragatas. Agora que penso mesmo bem nisso, já passei por cada uma destas fases, ainda que em momentos sempre diferentes. Foi uma bela infância, tenho de admitir.

Gallas amua por não o terem deixado marcar um pénalti Fonte: www.telegraph.co.uk
Gallas amua por não o terem deixado marcar um pénalti
Fonte: www.telegraph.co.uk

Mas, voltando ao assunto em epígrafe, e antes que comece aqui com nostalgias infindáveis, todos nós não gostamos de brincar quando sabemos que, à partida, vamos levar na boca. É a natureza; ninguém gosta de levar no “totiço”. Só que enquanto neste exemplo das crianças tínhamos sempre bom remédio – não jogar –, no mundo adulto as coisas não funcionam bem assim. Temos responsabilidades e temos de as honrar. Somos ou não somos adultos? Somos; então jogamos. Mesmo que uma equipa, tipo Barcelona, esteja com 15 pontos isolada na liderança do campeonato a quatro jornadas do fim, o Real Madrid ainda vai e joga. Já sabe que ser campeão é impossível, que perdeu, que levou na boca, que levou no “totiço”. Mas ainda joga, porque, lá está, tem essa responsabilidade. Se uma equipa de futebol estiver a levar 5-0 aos 85 minutos de jogo, é claro que já não quer jogar os minutos finais, mas ainda o faz, seja pela “honra” da coisa, ou só para ver se não leva mais.

A comparação saiu-me muito fraquinha, eu sei. Perdi-me ali por momentos a reviver a minha infância, mas acho que todos podemos concordar numa coisa: o desporto é muito mais mágico quando é renhido. Quando há duas equipas com semelhante força, quando a vitória pode cair para qualquer um dos lados, quando um simples deslize pode deitar tudo a perder, quando um pequeno movimento pode ditar uma vitória gloriosa… é pura magia. Ninguém se lembra das goleadas aos “mijas-na-escada”, mas aquela vitória arrancada a ferros por 2-1 no último minuto frente ao eterno rival, essa sim, fica para a memória.

Dwight Yorke e Peter Schmeichel abraçam-se depois da mítica vitória por 2 a 1 frente ao Bayern Munique, na final da Champions de 1999 Fonte: www.whoateallthepies.tv
Dwight Yorke e Peter Schmeichel abraçam-se depois da mítica vitória por 2 a 1 frente ao Bayern Munique, na final da Champions de 1999
Fonte: www.whoateallthepies.tv

Esta é outra daquelas características especiais do desporto, transversais a qualquer modalidade, idade e género. E estas últimas semanas têm sido especialmente entusiasmantes para qualquer fã de desporto, exactamente porque anda tudo mais renhido. Ora vejamos três exemplos no mundo do futebol:

1º Liga Portuguesa – O Porto perdeu (!), o que é igual a: Sporting e Benfica empatados em primeiro (finalmente!!) e Porto a dois pontos. É claro que os adeptos portistas se calhar gostavam de já andar com uma porrada de pontos de avanço na liderança, como de costume. Mas ainda que andem mais nervosos, sou capaz de apostar que alguns, bem lá no fundo, até gostam de ver as coisas mais renhidas. É certo que ainda há muito campeonato pela frente, mas já há muito tempo que não se via uma luta entre os três grandes pelo título de campeão português. É bonito.

La Liga – O Barcelona perdeu (!!), o que significa: Atlético de Madrid apanha Barcelona em primeiro, Real Madrid a apenas três pontos de distância. Ainda só estamos no início, mas já dá para ver que as coisas vão aquecer pela terra de nuestros hermanos.

Campeonato Português Feminino – O A-dos-Francos perdeu (!!!). Aqui calma, que tenho de fazer um reparo – comparar Porto e Barcelona ao A-dos-Francos não é sequer plausível, dado que estamos a falar de equipas que venceram o campeonato o ano passado, enquanto o A-dos-Francos acabou de subir ao primeiro escalão. Mas, ainda assim, é bom, a bem da competitividade do campeonato feminino, que a equipa sensação, invicta até aqui, tenha perdido.

Neste momento, o A-dos-Francos continua em primeiro lugar, Ouriense em segundo, a seis pontos, e Clube Futebol Benfica em terceiro, a sete, mas ambas com menos um jogo que o líder. Se estas duas equipas conseguirem aproveitar o tropeção do líder e fizerem os três pontos, as oito jornadas que faltam para acabar a fase regular prometem ser electrizantes. Curiosamente, os jogos em falta do Ouriense e do Clube Futebol Benfica são contra a mesmíssima equipa: o Boavista, que está no quinto posto com dois jogos em atraso. Mais curioso ainda: o Boavista tem neste momento um goal avarage de zero – marcou 12 golos e sofreu 12.

Estes dois jogos são provavelmente dos mais importantes da temporada para o Boavista, que, em caso de vitória em ambos, pode passar directamente para o segundo lugar, à frente do Ouriense. Mas, lá está, vai defrontar o segundo e terceiro classificados, que querem a todo o custo aproveitar o único deslize dado pelo A-dos-Francos até agora. Not an easy task.

Numa frase? Things are getting interesting. Numa palavra? Gosto. Muito mesmo. É que isto renhido é outra coisa.

André Eusébio

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