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Jogo 1000 de José Mourinho | Nem sempre vencedor, eternamente especial

Vasco Borges · 8 min

Foto: FC Porto

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Há quem o adore, há quem o odeie e até há quem tente, sem sucesso, ignorá-lo. O fim-de-semana até pode de ser de Cristiano Ronaldo, mas há outro português que vai estar em evidência. No domingo, em Roma, José Mourinho faz o milésimo jogo como treinador de futebol.

Aos 58 anos, é um dos nomes mais marcantes da história do futebol mundial. Desde o passado discreto como jogador, aos 25 títulos como treinador, passando pelos tempos como pupilo de Bobby Robson e pelo início conturbado na Liga portuguesa. Já foi “special one”, o “happy one”, já teve o rótulo de melhor do mundo e o de técnico “ultrapassado”.

Goste-se ou não, Mourinho esta aí para as curvas, com o carisma que vai mantendo entre títulos e desilusões. Hoje, entra no clube dos milhares à procura de novas conquistas, num país onde já foi muito feliz.

O Início: Do Comércio e Indústria ao SL Benfica, com Bobby Robson pelo meio

Nasceu em Setúbal e é filho de Mourinho Félix, histórico guarda-redes do Vitória FC e do CF Os Belenenses, que também passou por muitos bancos do futebol português. Ainda muito jovem seria presença regular nos treinos do pai, onde começou a ganhar o gosto pelo futebol. Iniciou carreira como jogador, integrando os planteis de clubes como o Rio Ave FC e Belenenses, mas nunca conseguiu muito tempo de jogo.

Pendurou as botas aos 25 anos no UF Comércio e Indústria e, imediatamente começou a treinar os escalões jovens do mesmo clube. Estávamos em 1987, treze anos antes da estreia como técnico principal. Durante mais de uma década foi figura secundária, mas raramente passava despercebido.

Um ponto decisivo na carreira de dá-se em 1992, quando ingressa no Sporting CP como adjunto de Bobby Robson. Acompanha o inglês durante oito anos, também por FC Porto e FC Barcelona. São muitas as entrevistas em que o setubalense revela a importância que Bobby Robson teve, tanto a nível pessoal como profissional.

 

Algures pelo ano de 2006, no programa humorístico “Diz que é uma Espécie de Magazine”, Ricardo Araújo Pereira satirizava as previsões de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Numa delas, o agora Presidente da República, teria dito nos anos 90 que “esse tradutor de Bobby Robson nunca vai dar treinador”. Claro que, na realidade, Marcelo nunca disse isso, mas é bem provável que muitos benfiquistas o tenham pensado quando substituiu Jupp Heynckes à quarta jornada da Liga 2000/2001.

Pouco terão mudado de opinião durante os 11 jogos que Mourinho fez à frente dos encarnados. O jogo número um da sua carreira foi uma derrota por 1-0 no Estádio do Bessa. Demorou quatro jogos para conseguir a primeira vitória e foi despedido em dezembro, depois de perder por 3-0 em Alvalade. Para a posteridade ficou o estilo, que hoje o caracteriza, mas que na altura caiu mal em muitos adeptos … e jogadores. Felizmente, Mourinho manteve-o.

2001-2004: As primeiras (grandes) conquistas

José Mourinho é um homem de frases marcantes e duas delas disse-as ainda no início da sua carreira. Depois do fracasso na Luz, assumiu o comando da UD Leiria no início da temporada 2001/2002. Chegado a um clube que tinha como objetivo fazer um campeonato tranquilo, disse que andaria a lutar pelos primeiros lugares. E assim o fez.

No final de janeiro, quando trocou o Magalhães Pessoa pelas Antas, deixou os leirienses no quarto lugar, à frente do FC Porto. Desse plantel viria a recrutar para os “dragões” Nuno Valente e Derlei que, dois anos depois, levantaram com ele a Liga dos Campeões e, ainda, Tiago Pereira (ficou apenas em 2002/2003) e Maciel (fazia parte da equipa, mas não foi inscrito na “Champions”).

 

No FC Porto disse: “em condições normais vamos ser campeões. Em condições anormais também vamos ser campeões!”. Mais uma vez cumpriu. Em dois anos, foi bicampeão português, ganhou a Taça UEFA e a Liga dos Campeões, acrescentando ainda uma Taça de Portugal e uma Supertaça ao palmarés. Títulos que foram a confirmação de que aquele treinador não se limitava a frases fortes.

A conquista de Gelsenkirchen, que teve tanto de espetacular como de improvável, foi a cereja no topo do bolo de dois anos em que o Porto se tornou uma equipa dominante. Um trajeto que que incluiu aquele histórico empate em Old Trafford (o mais saboroso da carreira de Mourinho), com celebração a condizer. Mesmo mantendo a equipa da época anterior, poucos acreditariam que, tão cedo, uma equipa portuguesa voltasse a vencer a Liga dos Campeões.

2005-2015: O Special One e dez anos de ouro

No verão de 2004 fez as malas para Londres e abraçou o projeto do multimilionário Roman Abramovich, no Chelsea FC. Apelidou-se de “Special One” e a alcunha pegou. E, mais uma vez, não foi para menos. O português manteve a onda vitoriosa e levou os “Blues” à conquista de um campeonato que fugia desde 1955. Repetiu a façanha no ano seguinte e ficou-se pela Taça e Taça da Liga, em 2006/2007. Em poucos anos, Mourinho tinha passado de perfeito desconhecido para um dos mais carismáticos e bem-sucedidos treinadores do futebol europeu.

A época 2007/2008 acabou por ser uma mancha nesta década de títulos. Foi despedido após oito jogos, terminando a primeira aventura inglesa com o sabor amargo de não ter repetido a conquista da Liga dos Campeões com o Chelsea. Voltaria em 2013, ainda a tempo de acrescentar mais um campeonato inglês ao museu dos “Blues”.

 

Em 2008, abriram-se as portas de Itália, através do FC Internazionale Milano. Mourinho passou a ser “Il Speciale” e em campo pouco mudou. Foi bicampeão da Serie A e em 2010 conquistou a Champions. Na caminhada fica a derrota mais saborosa da sua carreira – palavras do próprio – no célebre FC Barcelona 1-0 Inter, que bastou para os “Nerazurri” garantirem o acesso à final. O seu estilo encaixou que nem uma luva em Itália e saiu de Milão como ídolo dos adeptos e com o prémio de melhor treinador do mundo para a FIFA no bolso.

Seguiu-se o Real Madrid CF. A tarefa era provavelmente a mais difícil da carreira: destronar o FC Barcelona de Pep Guardiola. As três épocas que passou na capital espanhola foram conturbadas, entre polémicas com adversários e até dentro da sua equipa. Ainda assim, conseguiu conquistar o título de 2011/2012 com 100 pontos arrecadados. Faltou a tão desejada “La Décima”. Em Espanha, Mourinho foi mais ácido do que nunca, mas nem sempre saiu vencedor.

2016-2021: De especial a normal, sem perder o carisma

A partir de 2015/2016 os tempos têm sido mais complicados para o português. Nessa época foi despedido do Chelsea pela segunda vez, deixando o clube num impensável décimo lugar. No verão seguinte voltou a aceitar um desafio aliciante, para assumir o comando de um dos seus rivais de quase sempre, com o objetivo de devolver o Manchester United FC aos títulos na era pós-Ferguson.

No primeiro ano em Old Trafford conquistou três títulos: Supertaça, Taça da Liga e Liga Europa, mas foi assombrado pelo modesto sexto lugar na Liga. Essa acabou por ser a época mais bem-sucedida entre as três, tendo saído no decorrer de 2018/2019.

 

Mais surpreendente foi a chegada ao Tottenham Hotspur. Um grande clube, é certo, mas que não lutava assumidamente pelo título inglês. Pela primeira vez desde a União de Leiria, José Mourinho estava num clube onde o mínimo pedido não era ser campeão.

Para muitos foi um sinal de decadência, de que os melhores dos melhores já não viam no português uma boa opção para o banco, para outros era uma oportunidade para mostrar que conseguia transformar aquela equipa numa equipa ganhadora. Mas com Mourinho os “Spurs” raramente foram bem-sucedidos, naquela que terá sido a pior prestação da carreira de Mourinho.

2021: Uma nova oportunidade

As coisas têm começado bem em Roma. Cumpriu serviços mínimos ao qualificar-se para os grupos da Conference League – competição onde os romanos estão no lote de favoritos – e soma duas vitórias em dois jogos no campeonato. É muito cedo para falar num regresso de Mourinho aos grandes títulos e há que ter em conta que a AS Roma tem um plantel uns furos abaixo dos principais rivais italianos. O objetivo realista é terminar no top-4 e regressar à Liga dos Campeões; quem sabe, juntar uma Taça ou a Conference League ao palmarés.

Hoje, diante do US Sassuolo Calcio, procura a vitória número 638 no jogo 1000. Mais do que brindar este número redondo com um triunfo, Mourinho quer arrecadar três pontos na Liga italiana e não desarmar do primeiro lugar.

Talvez Mourinho seja agora mais humilde e saiba reconhecer que não é favorito a ganhar tudo em Itália e na Europa, como fez com o Inter. Mas não seria o mesmo se não fosse para os “Giallorossi” à procura de mais.

Para já, parece, pelo menos, revigorado e mais confortável numa cultura futebolística onde encaixa muito bem. Diz que se sente melhor treinador do que há dez anos, foi recebido em êxtase pelos adeptos e tem a total confiança da estrutura e dos jogadores. O impacto que a sua chegada teve só prova que, apesar tudo, 999 jogos depois da estreia com o SL Benfica, José Mourinho continua a ser especial.

Vasco Borges

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