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O Herói de Sines – Entrevista a Márcio Madeira

Emanuel Melo · 6 min

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O futebol de hoje em dia, é cada vez mais corrompido pelo dinheiro. Longe vão os tempos onde vários jogadores permaneciam a carreira toda no clube de formação. Se em Itália há Francesco Totti, em Portugal há Márcio Madeira. O jogador de Sines, formado no Vasco da Gama, abdicou de tudo, para voltar a ser feliz na terra que lhe viu nascer. Márcio Madeira é hoje um verdadeiro exemplo de que o amor à camisola ainda existe, felizmente.

Bola na RedeMárcio, num mundo do futebol onde impera o dinheiro, as contratações milionárias, as trocas constantes de clubes, você consegue fugir a este paradigma. Como é que começou a sua carreira no Vasco da Gama e porque razão quis voltar a “casa” ? Puro amor à camisola?

Márcio Madeira: Comecei a jogar futebol no Vasco da Gama com 10 anos, na altura não havia equipa de infantis e fui fazer as captações com os iniciados que era o escalão acima. As coisas correram bem e fiquei na equipa, jogava pouco pois os meus colegas tinham 13 ou 14 anos mas foi importante para mim estar entre os mais velhos. A razão do meu regresso teve a ver com o falecimento da minha Mãe, foi uma altura complicada para mim a nível emocional e necessitei de voltar a casa para estar junto da minha família que passava por uma fase difícil na altura. Foi algo natural e que ganhou uma dimensão que não esperava, mas como já referi algumas vezes, vivemos numa sociedade com os valores alterados, o que eu fiz foi o mais normal possível de quem está a sofrer a dor de um luto, recorri e apoiei-me no meu pai, nos meus irmãos e nos meus amigos de infância.

BnR: Atravessou um momento difícil na carreira. Quer nos explicar como aconteceu e de que forma ultrapassou isso?

MM: Na altura estava no Nacional quando tive o primeiro impacto, o diagnóstico da doença que a minha Mãe sofria foi como um murro no estomago que me levou ao tapete a mim e à minha família. Foram alguns anos de uma luta dura e muito sofrida que terminou da pior forma. Ninguém se prepara para perder quem mais ama. Por muito que nos digam ou que nos façam entender nunca se está preparado. Gostava de vos explicar como se ultrapassa a situação mas a verdade é que ainda não a ultrapassei logo também não vos sei dizer. Vou sobrevivendo e lidando o melhor que posso com as muitas saudades que tenho.

BnR: Pretende continuar no Vasco da Gama por muitos anos? Acha que há condições para o clube conseguir subir degraus?

MM: Não gosto de fazer planos a longo prazo, acho que sou a prova viva de que isso nem sempre resulta como pensamos, se me perguntasse há alguns anos atrás se eu estaria onde estou hoje com 31 anos, eu dir-lhe-ia que não. Mas a vida tem esta magia, leva-nos por caminhos que julgamos não ser possíveis e por escolhas que nem sempre dependem só da nossa vontade. Respondo-lhe dizendo que nesta altura estou muito feliz aqui e que espero ficar por muitos e bons anos, chegará o dia em que não conseguirei ajudar mais dentro de campo mas fora serei sempre uma mais valia.

BnR: Foi você que veio ajudar o Vasco da Gama, ou o Vasco da Gama que o ajudou a si?

MM: Numa primeira fase sem duvida que o Vasco da Gama é que me ajudou, deixaram-me treinar mesmo sem saber se eu aceitaria jogar, e mais tarde quando aceitei trataram-me sempre com muito carinho, ainda hoje o fazem. Eu só lhes trouxe a visibilidade que tiveram outrora, nada de novo portanto. Não desequilibrava como hoje faço talvez porque eu também estava desequilibrado emocionalmente. Encontrei de novo a estabilidade aqui e depois claro fiz e faço o que melhor sei.

BnR: Não acha que teria condições para jogar num clube de primeira ou Segunda Liga?

MM: Nesta altura tenho bastantes dúvidas, adaptei-me ao futebol distrital e ganhei outras qualidades que talvez na I ou na II Liga não sejam tão valorizadas. Perdi outras que tinha porque aqui não utilizava tanto. E a questão física, acho que nesta altura não tenho condições físicas para jogar profissionalmente, aqui treinamos muito menos vezes que o necessário para estar noutros patamares. A vida é fértil em surpresas mas acho que já não me guarda nenhuma desse género.

BnR: O futebol é como uma escapatória para si? Ou é, a coisa mais importante das menos importantes da sua vida?

MM: Eu já vivi do futebol, logo ele já foi muito mais importante do que é hoje em dia. Hoje é um passatempo mas que ainda levo muito a sério. Quem é profissional como eu sou nunca chega a jogar como um amador. Quem tem filhos, quem tem família e preserva a sua saúde não pode dar uma carga muito forte a um jogo de futebol. Concordo com essa velha máxima, é o mais importante das coisas menos importantes que tenho na vida.

É no Vasco da Gama que Márcio tem reencontrado a alegria em jogar futebol. Márcio tem sido fundamental para a equipa de Sines, assinalando uma grande temporada Fonte: Vasco da Gama de Sines
É no Vasco da Gama que Márcio tem reencontrado a alegria em jogar futebol
Fonte: Vasco da Gama de Sines

BnR: Ao longo da sua carreira passou por vários clubes: Vasco da Gama, Moreirense, União Micaelense, Nacional, Operário. Como é que foi a experiência nas duas regiões autónomas?

MM: Foram experiências incríveis e que guardo com enorme carinho. Adorei viver nas ilhas, tanto nos Açores como na Madeira, guardo boas amizades de ambos os locais e espero voltar para visitar porque a beleza que encontramos naqueles lugares é incomparável e única. A minha filha é madeirense porque fiz questão que assim fosse, acho que isto é significativo do quanto eu me sentia em casa no Funchal por exemplo.

BnR: Como surge o convite para ir para S.Miguel e como avalia essa sua experiência?

MM: Surge no defeso depois da época que fiz no meu primeiro ano de sénior em Sines, fui o melhor marcador da equipa e marquei ao União Micaelense e ao Operário os golos desses mesmos encontros. Ficaram ambos com referencias positivas e fui convidado para representar primeiro o Micaelense e um ano depois o Operário. Penso que nesse ano jogávamos contra 9 equipas insulares, o campeonato era muito competitivo (II Divisão e jogávamos às quartas e aos domingos em virtude do numero de equipas ser elevado). Outros tempos.

BnR: Recentemente publicou um texto a apelar à força de vontade e à união dos jogadores do Nacional da Madeira, clube onde jogou. É outro clube pelo qual guarda um carinho especial?

MM: Sim como disse nesse mesmo texto, não tenho apenas uma costela madeirense, tenho uma filha. Foi um pedido de vários adeptos que recordam a minha passagem pela forma de estar, não jogava muito mas sinto que marquei pela positiva quem comigo privou. Jogar no principal escalão do nosso futebol era um sonho e foi ali que o realizei. E nesta altura senti que podia ajudar desta forma, acredito que o Nacional se vai manter na I Liga e que tudo não passará de um tremendo susto. Guardo excelentes recordações e muitos jogadores que fazem parte do plantel jogaram comigo. Desejo-lhes a melhor sorte para os próximos desafios.

BnR: E agora, o futuro? O que é que pretende fazer nos próximos anos da sua carreira?

MM: Quero estabilizar a nível profissional, estudei para isso quando terminei a carreira, neste momento tenho um emprego estável e quero evoluir dentro do mesmo. Ser melhor e fazer melhor dentro desta nova área pela qual me apaixonei. No futebol quero como lhe disse manter-me no ativo aqui na minha terra e ajudar o Vasco da Gama a cimentar o seu lugar como uma das melhores equipas do distrito.

Foto de capa: Vasco da Gama de Sines

Emanuel Melo

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