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200 jogos: O estranho caso de Pepe | FC Porto

Bernardo Lobo Xavier · 5 min

Foto: Diogo Cardoso / Bola na Rede

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No passado domingo, o FC Porto aproveitou a ressaca do embate com o Vitória SC para enaltecer, via redes sociais, a marca de 200 jogos com a camisola do clube, atingida por Pepe. Para quem não sabe, Képler Laveran Lima Ferreira, é o seu nome.

Apesar de ausente dessa partida, o capitão portista, com os 25 minutos somados no confronto com o Liverpool, atingiu um número redondo e o clube não quis deixar passar a ocasião. É, de facto, um marco assinalável na carreira de um jogador que se assumiu, nos últimos 15 anos, como um dos melhores defesas centrais do futebol mundial.

São 200 jogos de azul e branco, no entanto, se tivermos em conta que Pepe chegou, pela primeira vez, ao FC Porto no verão de 2004, há quase 20 anos, seria expectável que fossem muitos mais.

Não o são pelo simples facto de que o internacional português passou uma década ao serviço de um dos maiores clubes do mundo, o Real Madrid, onde ganhou tudo o que havia para ganhar.

Estou em crer que, não fossem algumas atitudes irrefletidas e antidesportivas que Pepe foi tendo ao longo da carreira, o reconhecimento da opinião pública e publicada mundial seria ainda maior.

Seria da mais elementar justiça, dada a sua qualidade enquanto jogador, mas Pepe só se poderá culpar a si próprio pelos inimigos que foi ganhando ao longo do seu percurso futebolístico.

Pelo FC Porto, estreou-se em 2004. Depois de um primeiro ano de adaptação de alguma irregularidade exibicional, é com a chegada do holandês Co Adriaanse que explode. Muitos se lembrarão do esquema de três defesas (e não de três centrais) que era habitualmente utilizado pelo ex-técnico portista naquela altura. Pepe era pau para toda a obra e, sozinho, fazia o papel de dois.

Já com passaporte e nacionalidade portuguesa, o Pepe que deixa o FC Porto em 2007, depois de uma temporada fantástica a jogar ao lado de Bruno Alves, sob o comando do professor Jesualdo Ferreira, para jogar em Espanha era, já naquela altura, um dos melhores da sua posição.

A sua primeira passagem pelo FC Porto fica marcada por uma capacidade atlética ímpar e uma técnica muito apurada.

Era um jogador ágil e veloz que controlava de forma exímia a profundidade, mestre no jogo em antecipação, praticamente intransponível no um para um, dotado de um assinalável poder de impulsão e de uma capacidade de passe bastante acima da média.

Era, de facto, um jogador muito completo e que pecava, apenas, por algum excesso de virilidade que, em boa verdade, nunca perdeu, mas aprimorou.

O regresso de Pepe à sua pátria adotada

Em janeiro de 2019, chega (ou regressa) ao FC Porto um jogador algo diferente, naturalmente mais maduro. Menos explosivo, é certo, mas mais refinado e matreiro. O central uso é, hoje, um líder nato e capitão de equipa por direito.

É um profundo conhecedor das suas limitações e esconde-as como poucos. Com recurso a outras virtudes, vai mantendo as suas capacidades praticamente intactas. À falta da mesma velocidade, vai controlando a profundidade e a sua área de ação com um meticuloso posicionamento e um preciso timing de decisão.

Apesar de, naturalmente, não ter a capacidade atlética de outros tempos, é, aos 38 anos de idade, um caso de estudo pela longevidade e forma física que apresenta. Não há muitos jogadores a chegarem a esta idade tão capazes e preparados para a alta competição.

E, ao que parece, é para continuar. Não é por acaso que nem Sérgio Conceição, nem Fernando Santos abdicam dele sempre que está apto. E vai estando quase sempre.

Julgo que serão as lesões a ditar o destino da carreira de Pepe. É um jogador que sempre se preparou muito bem e que foi pouco fustigado por lesões. Esta época têm surgido com uma cadência ligeiramente maior, é certo, mas não me parece que a reforma faça parte dos seus planos imediatos.

Pepe FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Pepe é, já, um histórico do FC Porto. De dragão ao peito conquistou três campeonatos nacionais, duas taças de Portugal, duas supertaças e uma Taça Intercontinental. No entanto, a fechar, é importante mencionar o seu trajeto na seleção nacional.

Chegou a Portugal em 2001, com 18 anos, para jogar no Marítimo e rapidamente se enamorou pelo nosso país. Hoje serão poucos (ou nenhuns) a duvidar da sua ligação a Portugal.

O caso de Pepe, quando comparado com outros casos de naturalizações, parece-me, claramente, fruto de uma ligação emocional forte ao país. Isto porque, em muitos casos, se assistem a naturalizações apressadas de jogadores que optam por jogar por Portugal por terem fechadas as portas da seleção brasileira.

Ora, não me parece, de todo, que tenha sido essa a situação de Pepe. Foi (e talvez ainda seja) um dos melhores centrais do mundo e teria tido, certamente, assim quisesse, oportunidade de representar a seleção canarinha.

Pela seleção das quinas já leva mais de 120 internacionalizações, tendo tido o seu ponto alto no Europeu de 2016. Foi, para mim e para muitos, o melhor jogador da competição e um dos grandes responsáveis pela mais bonita e dourada página escrita, até hoje, no futebol português.

Para terminar, justificar o título deste artigo.

Quando vejo Pepe jogar e brilhar com as camisolas do FC Porto e da seleção nacional, do alto dos seus 38 anos, recordo-me sempre do filme de ficção de David Fincher, baseado no conto de Francis Scott Fitzgerald, que retrata a vida de Benjamin Button, que nasceu com o corpo de um homem de 80 anos e que, com o passar do tempo, ia rejuvenescendo.

É certo que Pepe não está a rejuvenescer e que vai perdendo alguns dos atributos que outrora apresentava, todavia, é, igualmente, acertado afirmar que vai continuando a aprimorar muitas outras vertentes do seu jogo e que não vai dando, para já, sinais de abrandamento.

Bernardo Lobo Xavier

Redação Bola na Rede · ver artigos