A (des)crença no Espírito Santo

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Há dias, o FC Porto perdeu em Setúbal uma boa oportunidade de se colocar em excelente posição de – em caso de vitória no clássico do próximo domingo – ascender ao topo da classificação. Esse foi, de resto, o momento que marcou (de forma negativa, claro) a semana não só da equipa, mas sobretudo dos adeptos. O estado de “euforia” que as quatro vitórias consecutivas e a crescente elevação do nível exibicional vinham criando na massa associativa rapidamente se desvaneceu com os dois pontos deixados no Sado.

Desde logo, na cabeça da generalidade dos portistas (que ultimamente vibram com as vitórias e desesperam nas derrotas), Nuno é o grande culpado pelo mau momento da equipa. E por ‘mau momento da equipa’, convém explanar o seguinte: 2º lugar no campeonato a cinco pontos do líder Benfica e com excelente oportunidade de reduzir a distância para apenas dois pontos, com 24 jornadas ainda por disputar (72 pontos); 2º lugar na fase de grupos da Liga dos Campeões, com boas perspetivas de apuramento para a fase seguinte, já depois de eliminar, com elevada sagacidade e mestria, a poderosa Roma. Importa também referir neste ponto a receita monetária adjacente a este, para já razoável, percurso na prova milionária, que vai permitindo um certo desafogo à SAD depois dos resultados conhecidos há algumas semanas.

Mas, voltando ao empate da última jornada, é notória a falta de paciência dos adeptos (desde já compreensível, diga-se, tendo em conta a ausência de conquistas) para com os erros de uma equipa ainda a sofrer as dores de crescimento. Mas tomemos como exemplo os dois últimos jogos do FC Porto fora de portas, no campeonato: Nacional e V. Setúbal. No primeiro, os dragões venceram confortavelmente por 4-0, naquela que muitos apelidam da melhor exibição da época até ao momento. 18 remates, 35 entradas na área adversária, 60% de posse de bola e 7 cantos. Números que espelham bem a superioridade da equipa de Nuno Espírito Santo e que justificam os quatro golos apontados. Estava dado o mote para uma série bastante positiva de triunfos. Porém, o empate em Setúbal teve o condão de colocar tudo em causa e, segundo o que se leu na generalidade da imprensa desportiva, “faltou tudo ao FC Porto, nessa partida”. Desde a atitude à (in)capacidade de criar ocasiões, da falta de pressão alta à lentidão de processos, tudo foi mote para que se escrevesse e dissesse ‘horrores’ sobre a exibição dos dragões. Pois bem, analisando então os números, temos: 21 remates, 62% de posse de bola, 55 entradas na área adversária, 33 cruzamentos, 8 cantos e, pelo menos, quatro oportunidades flagrantes de golo. Claro que a estatística nem sempre justifica tudo, mas explica uma certa parte. Quais são, então, as diferenças entre este e o ‘melhor jogo da época’? Simples, o resultado. O volume de jogo ofensivo foi elevado em ambas as partidas, a diferença esteve na eficácia que, de facto, foi madrasta em Setúbal.

O FC Porto registou em Setúbal o segundo empate no campeonato, depois do nulo em Tondela. Fonte: Facebook oficial do FC Porto
O FC Porto registou em Setúbal o segundo empate no campeonato, depois do nulo em Tondela
Fonte: FC Porto

A reação natural de um típico adepto português é a de pedir logo a cabeça do treinador, que pode ser culpado de muita coisa, menos de falhas incríveis em frente ao guarda-redes. Nuno Espírito Santo ainda não reuniu consenso entre os portistas, seja pelo estilo de jogo que apresenta, pela suposta falta de ‘visão’ a partir do banco ou, simplesmente, pelas falhas da equipa em momentos chave. A preocupação é natural, mas a verdade é que o FC Porto ainda não hipotecou qualquer dos objetivos que delineou para a presente temporada.

Além disso, questionar a falta de atitude de uma equipa que nunca deixou de procurar o golo e só não o conseguiu por manifesta infelicidade (sem querer entrar em análises às arbitragens) é…de bradar aos céus. Seria interessante o prevalecer da razão, ao invés da emoção, na análise aos jogos do FC Porto por grande parte dos escreventes por esse país fora. Já começa a ser sintomática a crescente tentativa de desestabilização a uma instituição que, de facto, não vive tempos de outrora glória, mas que procura, naturalmente, reerguer-se.

De baterias recarregadas após mais uma desgastante noite europeia, o foco está já no Benfica, e vencer no próximo domingo é então o único caminho possível, de forma que se possa continuar a lutar pelo tão desejado título, que teima em fugir há três anos consecutivos.

Texto revisto por: Carlos Valente

Foto de capa: FC Porto

Ricardo Anselmo
Ricardo Anselmohttp://www.bolanarede.pt
O azul e o branco é parte fundamental da vida do Ricardo. O amor pelo FC Porto faz dele um adepto ferrenho dos 'dragões'. Tem na escrita um amor quase tão grande como o que tem pelo clube, sendo sobre futebol que incide a maior parte das suas escrituras. No futuro, espera encontrar no jornalismo a sua ocupação profissional.                                                                                                                                                 O Ricardo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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