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A manifestação e a justificação

Bernardo Lobo Xavier · 4 min

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Na passada sexta-feira, aquando do apito final de Artur Soares Dias e da confirmação do empate do FC Porto em Vila do Conde, assistiu-se ao pouco habitual descontentamento dos adeptos portistas e ao insurgimento destes contra jogadores e equipa técnica. Apesar de mais do que justificada, discordo da forma, do conteúdo, do motivo e dos alvos da mesma.

A verdade é que uma época que esteve para ser do “quase tudo” está prestes a terminar com “quase nada”. Ora vejamos. Na Taça da Liga o FC Porto fez mais uma vez um percurso meritório e alcançou a final. Depois de ter colocado a cereja (vitória sobre o SL Benfica na meia-final) no topo de um bolo que ainda não era seu, cedeu mais uma vez na “lotaria” das grandes penalidades frente ao Sporting CP, num jogo de sentido único, diga-se.

O Campeonato, que esteve ganho, está agora praticamente perdido. Depois de desperdiçada uma vantagem de sete pontos, o sonho do bi-campeonato é agora não mais do que uma miragem. Apesar de o FC Porto ir lutar até à última jornada por esse título, é mais uma competição que parece fugir. A Liga dos Campeões, essa, fica marcada pelo recorde de pontos na fase de grupos, uma eliminatória exuberante frente à AS Roma e o recorde de receitas.

No entanto, no fim do dia, não acrescenta qualquer troféu as vitrines do museu e a última imagem tem tanto de pesada como de injusta. Resta, portanto, a Taça de Portugal, que ganha cada vez mais importância na época do clube. Apesar de o FC Porto estar presente em quase todas as decisões, o número e relevância dos títulos conquistados parece que vai ficar a desejar. Assim se compreende a profunda magoa dos portistas.

Essa frustração foi manifestada perante Sérgio Conceição e os seus jogadores. O treinador do FC Porto nunca foi um mestre da tática e só pode estar desiludido quem alguma vez acreditou nisso. Sérgio Conceição não é um Guardiola nem um Mourinho (mesmo que até este já tenha vivido melhores dias). Ainda assim, não deixa de estar a operar um verdadeiro milagre no clube. Como treinador, será sempre o responsável máximo pelos fracassos que possam vir a acontecer e, em boa verdade, poderá ser o grande responsável pelo pobre futebol que a equipa apresenta e pelos erros clamorosos na receção ao SL Benfica, jogo que acaba por marcar a corrida pelo título.

No entanto, não pode nunca ser esquecido tudo o que de bom tem sido feito e o respeito que o clube recuperou desde que chegou ao clube. Sou contra a ideia de jogo, como já referi inúmeras vezes, mas não deixo de reconhecer que faz omeletes saborosas com os ovos que vai tendo à disposição. Não merecia o que ouviu no final do último jogo.

Sérgio Conceição e a equipa tiveram que enfrentar a ira dos adeptos no final da partida frente ao Rio Ave FC
Fonte: UEFA

Quanto aos jogadores, são, agora, acusados de maus profissionais. Não podia estar mais em desacordo com esta ideia. Nada tenho a apontar em relação à entrega dos jogadores. Respeitam e reproduzem a ideia de jogo do treinador da melhor forma que podem e a incapacidade para gerir jogos com bola deve-se à falta de talento e à falta de habituação a esse método de jogo.

A equipa está viciada na vertigem e na profundidade e tem dificuldades para manter a posse e o controlo do jogo quando este o exige. O que aconteceu em Vila do Conde já vem sendo um hábito ao longo da época e só atinge proporções apocalípticas porque, desta vez, o adversário conseguiu mesmo o empate. Ainda assim, e apesar da evidente culpa que os jogadores têm pelo sucedido, ilibo-os das acusações que têm sido feitas ao seu carácter.

Há, no entanto, uma terceira parte que continua a passar pelos pingos da chuva. Uma estrutura que continua a parecer intocável, mas que não tem sido mais do que errática. Errática nas contratações, errática na proteção da equipa, errática na gestão das finanças, errática na gestão das renovações (tantos das que faz como das que não consegue efetivar) e errática no discurso e nas aparições. Ainda assim, os canhões dos adeptos parecem apontados para outra direção.

Em suma, há motivos para descrença e frustração. O que aqui advogo é que a sua forma e conteúdo são injustificadas (nunca poderei ser a favor de violência seja ela física ou verbal) e que os seus alvos fazem dos adeptos um tanto ou quanto ingratos. Resta à equipa e adeptos uma réstia de esperança. É a esta que nos temos que agarrar até ao fim do campeonato e se, como parece que vai acontecer, acabarmos por cair, teremos que estar em peso no Jamor.

Foto de Capa: FC Porto

artigo revisto por: Ana Ferreira

Bernardo Lobo Xavier

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