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FC Porto | Dragões com areia na engrenagem

André Eusébio · 4 min

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Poucos dias depois das comemorações dos 120 anos dos Dragões, o reduto do FC Porto vestiu-se de gala para a primeira grande noite europeia da temporada. O duelo com o Club Atlético de Madrid, adversário reconhecidamente difícil, antevia-se equilibrado.

Afinal, era o encontro entre os líderes dos campeonatos ibéricos e ambas as equipas conservavam um registo de invencibilidade até à data. Mais do que isso, este jogo representava o primeiro grande teste de Paulo Fonseca enquanto treinador do Porto, no Porto.

Os azuis e brancos entraram com uma postura dominadora e pressionante, chegaram ao golo e foram para o intervalo com uma justa vantagem no marcador. No segundo tempo, os colchoneros cresceram e chegaram ao empate; o FC Porto reagiu, procurando recuperar a liderança, mas acabaram por ser os espanhóis a chegar ao triunfo, na sequência de um livre “à Zanetti” perto do final.

Após o apito do árbitro, o placard registava 1-2 e os dragões tinham voltado a perder no Dragão para a Liga dos Campeões, o que já não acontecia desde os tempos de Jesualdo Ferreira.

A equipa apresentou alguns momentos de bom futebol e até subiu ligeiramente o rendimento face ao que já havia produzido. No entanto, mais do que a derrota, eventualmente fortuita, o que preocupa os portistas é o facto de esta ser o espelho de um novo FC Porto que ainda não conseguiu encontrar-se, que continua abaixo das expectativas e a quem se exige que melhore rapidamente o nível futebolístico. Depois do primeiro desaire, há que fazer um balanço e perceber quais são as areias na engrenagem.

Fonte: FC Porto

A grande mudança que o novo treinador operou na equipa foi a alteração da mecânica do meio-campo e isso teve repercussões em todos os sectores do terreno. Durante anos e anos, os dragões jogaram com um tampão à frente dos centrais (Costinha, Paulo Assunção, Fernando) e dois médios à sua frente. Paulo Fonseca decidiu inverter o triângulo do meio-campo e passar a jogar com o famoso “duplo pivot” e um “n.º10”.

No papel, a ideia até pode ser interessante: libertar os laterais para dar largura à equipa; libertar o médio mais adiantado para criar jogo na frente e permitir aos extremos procurar posições interiores, criando superioridade numérica junto à área adversária.

No entanto, esta estratégia não está a surtir os efeitos desejados: os laterais não têm conseguido desequilibrar como se previa (Alex Sandro ainda está à procura da melhor forma e Danilo, que tem melhorado, continua longe valer 18M€); há uma cratera entre Fernando/Defour e Jackson, onde aparece um Lucho demasiado sozinho e incapaz de ligar os dois sectores; Defour parece desenquadrado neste novo desenho e não se consegue soltar para missões ofensivas, uma vez que tem de compensar as constantes subidas de Fernando e Otamendi; Fernando é obrigado a transportar a bola com frequência e a assumir tarefas que não está habituado nem habilitado a desempenhar; e Jackson está constantemente desapoiado e sem margem para explorar a sua formidável capacidade de pivot ofensivo.

No fundo, a equipa está menos coesa: defensivamente, porque surge demasiadas vezes descompensada; e ofensivamente, porque o meio-campo parece sistematicamente desligado do ataque.

Quando chegou ao clube, Paulo Fonseca disse que pretendia explorar o jogo interior e deixou claro durante a pré-época que era o 4-2-3-1 que pretendia implementar. Até ver, parece não ter sido a escolha mais sensata.

Como a maior parte dos opositores do FC Porto joga com as linhas muito recuadas e próximas entre si, povoando maioritariamente o centro do terreno, as diagonais e os movimentos interiores dos extremos não estão a ser suficientes para auxiliar Lucho no apoio ao ponta-de-lança e estão a retirar largura à equipa, incapacitando-a de esticar o jogo pelas faixas.

Parece-me que a chave para desbloquear este emaranhado táctico em que se tornou o FC Porto passa por subir Defour para junto de Lucho. Esta pequena variação no miolo beneficiaria substancialmente as prestações de Fernando (joga melhor sozinho atrás do que com o belga a seu lado), do próprio Defour (que se sente demasiado amarrado neste seu novo papel e pode passar a desequilibrar, em vez de se limitar a equilibrar se passar a actuar mais adiantado), de Lucho (que precisa de alguém a seu lado para render o máximo; não consegue, sozinho, ocupar uma zona tão grande do campo), de Jackson (que passaria a ter os apoios necessários para voltar às suas performances de excelência) e de toda a defesa (habituada a jogar com Fernando à sua frente). Não acredito, porém, que Paulo Fonseca abdique das suas ideias e regresse à fórmula antiga.

Fonte: FC Porto

É imperioso que, de uma maneira ou de outra, se reconquiste a solidez defensiva, a capacidade de gerir a posse de bola e os ritmos do jogo, a largura no ataque e a proximidade entre os médios e os avançados. Tudo isto tem faltado aos dragões e tudo isto tem redundado em exibições com laivos de mediocridade. Resta à equipa técnica perceber o que está a correr menos bem e corrigir os erros; resta aos portistas esperar que a equipa assimile rapidamente esta nova identidade e eleve a qualidade do seu jogo o quanto antes.

P.S.: Não posso terminar sem fazer referência à inauguração do Museu do FC Porto, a última grande obra que Pinto da Costa sonhava deixar concluída no seu “reinado”. Ao projectar um museu carregado de interactividade e altamente inovador no panorama internacional, os dragões deram, uma vez mais, provas do seu vanguardismo, da sua singularidade e da sua competência. Estou ansioso por visitar este espaço de memórias que será, de hoje em diante, um ponto turístico de referência na cidade do Porto.

 

Foto de Capa: Diogo Cardoso/Bola na Rede

André Eusébio

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