Carta aberta ao Sr. Lopetegui – A culpa é do treinador

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Caro Mister Lopetegui,

Tão certo como a morte ou os impostos, em cada temporada desportiva existem vencedores e perdedores. Mais especificamente existe apenas um vencedor e então depois tudo o resto. E para as equipas que não ganham, toda a gente (fãs, staff, directores, jogadores, treinadores, etc…) tem uma opinião sobre porque a “sua” equipa não foi bem-sucedida nessa época.

A realidade é que ganhar um campeonato nunca é fácil. Hoje mais do que nunca, mesmo antes de entrar para a recta final, as épocas são definidas por um jogo ou alguns jogos, a meio caminho para o final. Para alcançar este derradeiro sucesso, o treinador deve ter tido a capacidade de montar um puzzle enigmático, tipo quebra-cabeças, que contém mil ou mais peças, e montado esse quebra-cabeças não apenas uma vez mas semana a semana, pelo campeonato fora. Saber quais são as peças que ele tem à sua frente é um desafio; outro é saber em que ordem colocá-las e, claro, saber por onde começar e quando mudar.

Ganhar um campeonato requer que o treinador tenha sido um verdadeiro líder. Um verdadeiro mentor. Alguém que conhece os meandros de tudo em que está envolvido. As especificidades e as generalidades. Requer que o treinador principal tenha respondido positivamente às adversidades, tenha sido um líder dotado de grande resiliência, entre outras inúmeras coisas que poderá ler nos meus artigos. Como portista que sou não posso admitir que o líder da equipa pela qual eu torço e me emociono, que me alegra quando ganha e me entristece quando perde, desça a um nível tão baixo e demonstre competências parcas para aquilo que representa e para aquilo que aufere.

Julen Lopetegui chegou ao FC Porto no início desta temporada Fonte: FC Porto
Julen Lopetegui chegou ao FC Porto no início desta temporada
Fonte: FC Porto

Mister Lopetegui, eu reconheço-lhe competências técnicas por momentos demonstrados pela equipa. Reconheço também que lhe falta muita coisa para ser o melhor treinador para o meu Futebol Clube do Porto, e posso enumerar-lhe uma lista delas se aceitar a ajuda e permanecer no clube na próxima época. Caso queira ter sucesso no FCP eis o que convém saber:

  1. Durante o defeso desportivo, leia, estude e aprenda muita coisa da cultura e mentalidade portuguesa (várias experiências anteriores em Portugal de treinadores espanhóis nunca deram grandes resultados por falta de identificação e adaptação às realidades nacionais, à excepção do grande Paco Fortes, que fez um trabalho fabuloso à frente do S. C. Farense – vários não tiveram grande sucesso, nomeadamente Camacho, Quique Flores, Víctor Fernandez, Castro Santos, Alberto Pazos, entre outros mais antigos).
  2. Aprenda e compreenda a mística e a maneira de estar com antigos “místicos” do clube: Vítor Baía, Jorge Costa, João Pinto, Rui Barros, Jaime Magalhães, Deco, António Oliveira, Frasco, Costa, André, Gomes, Paulinho Santos, Fernando Couto, etc. Para já não falar do Presidente Pinto da Costa, que deve andar distraído com outras coisas para ainda não ter feito nada (ou se fez ainda não surtiu nenhum efeito visível).
  3. Aprenda a liderar segundo os valores e identidade do clube, pois se não for assim o que transparece cá para fora é que só cá está para ganhar umas coroas… A malta não gosta disso, acredite!
  4. Siga o exemplo de comunicação de alguns novos e inteligentes treinadores que são inteiramente assertivos e coerentes perante a comunicação social e não entram em confusões quando “picados” por agentes da concorrência (por exemplo Marco Silva e Leonardo Jardim). É notório que precisa de ajuda a este nível.
  5. Mantenha um nível alto. Seja portador de standards elevados. Não reaja a provocações de nível mais baixo pois só irá desperdiçar energia. Deixe essa energia nos treinos e nos jogos.
  6. Procure entender que modelos usados no passado podem não funcionar no presente. Não falo de modelos de jogo pois isso é consigo. Qualquer um serve desde que ganhe jogos…
  7. Mentalize-se de que o FCP é o clube que lhe pode proporcionar o momento mais alto da sua carreira que até agora foi pautada por voos relativamente baixos. Reflicta seriamente sobre isso. Pode ser que lhe dê alguma motivação intrínseca.
  8. Seja mais humilde e tenha um orgulho mais positivo. Seja você mesmo aquilo que quer ver nos que o rodeiam.
  9. Deixe de ser um Treinador Cebola (se quiser saber o que significa compre e leia o meu livro “Como Ser Um Treinador de Excelência”). Deixe de arranjar desculpas focando-se na arbitragem, no adversário, no relvado, nos apanha bolas, nas convocatórias, nas lesões dos jogadores, etc. A responsabilidade da sua equipa, dos jogadores convocados, do onze inicial, da maneira como joga, da garra que ela transpira (ou não), dos resultados não é só sua mas em grande percentagem é…
  10. Leia a obra “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, e aprenda a ser o estratega que me parece que não é.

Por mais razão que possa ter quando fala, perde-a no momento em que olhamos para trás e vemos o percurso e o comportamento da sua equipa. Quando vemos o seu comportamento e o que comunica. O que transparece ou é excesso de confiança ou falta de confiança. Cometer erros todos cometem, mas recusar-se a não aprender com eles é estupidez.

Se ficar na próxima época tenha consciência e assuma para si mesmo que falhou rotundamente em várias ocasiões. O fracasso pode ser um grande aliado mas há que ter a humildade de percebê-lo como um instrumento de realização, que já foi usado por muitas pessoas de grande sucesso que souberam aproveitá-lo. Não espere obter resultados diferentes se fizer sempre a mesma coisa, que eu também não…

Um grande abraço!

Foto de Capa: FC Porto

Alcino Rodrigues
Alcino Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Já foi jogador mas há uns tempos passou para o outro lado e ajuda os treinadores com as coisas que escreve. Adora desporto e todas as componentes do jogo interior, ou treino mental. O seu foco são os processos e adora estudar as dinâmicas do trabalho em equipa. Coloquem muita malta a trabalhar junta e ele descortina todas as suas nuances. Já teve filhos, plantou árvores e ultimamente lançou um livro. Parece que está safo…                                                                                                                                                 O Alcino não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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