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Na atualidade, e ainda que não tanto como num passado recente, o futebol tende a ser analisado, sobretudo por parte dos adeptos, com recurso substancial à estatística. Os treinadores são avaliados com base nos resultados desportivos que obtêm (esquecendo-se frequentemente a qualidade dos futebolistas que têm ao seu dispor), os avançados são avaliados com base no número de golos que marcam (esquecendo-se frequentemente a capacidade que a equipa apresenta para lhes fazer chegar a bola em boas condições para finalizar), os médios ofensivos são avaliados com base no número de assistências que fazem para golo (esquecendo-se frequentemente o número de lances de perigo potencialmente perdidos caso a decisão dos mesmos tivesse sido outra que não a procura pelo último passe).

É com base na sua qualidade de drible, mas também nas suas estatísticas, que os adeptos sempre tenderam a considerar, por exemplo, que Ricardo Quaresma é um excelente futebolista. As 56 assistências para golo realizadas em 216 jogos de dragão ao peito sempre foram apontadas como indicador de sucesso da passagem do atleta pelo FC Porto. Contudo, tende a subvalorizar-se o contexto no qual essas assistências são realizadas, sendo que tal apenas pode ser analisado observando atentamente o jogo. No caso particular de Ricardo Quaresma é irrefutável a sua qualidade nos duelos individuais, mas também é evidente que as 56 assistências para golo realizadas ao serviço do FC Porto resultaram mormente de cruzamentos para a área, arma da qual o futebolista usa e abusa levando, em alguns casos, à não criação de oportunidades flagrantes de golo caso a opção fosse outra que não cruzar a bola para a área.
No FC Porto atual há dois atletas que têm, tal como Ricardo Quaresma, dificuldades significativas ao nível da tomada de decisão: Alex Telles e Miguel Layún. No caso deste último é certo que as 23 assistências para golo realizadas em 57 jogos pelo FC Porto levam a que os adeptos tendam a considerá-lo, vulgarmente, como peça-chave da equipa, mas…será que o é realmente?

Facebook Oficial de Miguel Layún
Miguel Layún é um futebolista com boa capacidade técnica, na qual se destaca, entre outros aspetos, a capacidade de remate de longa distância e de cruzamento. Contudo, este nunca procura espaços interiores, não olha à sua volta em busca de colegas mais bem posicionados para dar seguimento às jogadas. A sua tomada de decisão centra-se sempre em duas opções major: a) se recebe a bola na última metade do seu meio-campo ofensivo, cruza para a área; b) se recebe a bola um pouco mais atrás, estica o jogo nos avançados.
Já Alex Telles é um futebolista rápido, com boa qualidade no passe e na condução de bola. Pode até dizer-se que em (quase) tudo o que diz respeito a aspetos individuais, ao “aspeto”, Telles parece tratar-se de um excelente jogador. Porém, sempre que a bola chega aos seus pés, os ataques do FC Porto ficam mais próximos do insucesso. Alex Telles não procura atrair os adversários, não temporiza à espera que os seus colegas se coloquem em melhor posição para dar seguimento à jogada. Frequentemente decide de forma rápida e com verticalidade quando, no corredor lateral, muitas vezes o que o jogo pede é uma variação horizontal depois de atrair o opositor. Tal como Miguel Layún, mas ainda com défices mais significativos ao nível da tomada de decisão, as opções de Alex Telles tendem a não ir para além de cruzar a bola para a área ou esticar o jogo nos avançados.

Fonte: FC Porto
Em oposição, o outro lateral da equipa, Maxi Pereira, é um jogador francamente mais completo do ponto de vista ofensivo. É certo que já não tem a velocidade nem a resistência de outrora mas, talvez até por já não apresentar essas caraterísticas individuais como as suas principais armas, tem agora uma capacidade superior de leitura de jogo. Maxi procura atrair o adversário, temporizar, tocar no companheiro mais próximo para ir buscar a bola mais à frente, busca combinações interiores, etc. Ou seja, oferece à equipa, no momento de organização ofensiva, caminhos que a aproximam mais do sucesso porque, contrariamente a Layún e, sobretudo, a Alex Telles, Maxi tem a capacidade de jogar o que o jogo dá. Provavelmente, no final de cada época desportiva tem, na sua conta pessoal, menos assistências e golos marcados do que os outros dois laterais da equipa, mas contribui de forma significativamente superior para o sucesso do coletivo.
No futebol, a opção por cruzar a bola para a área apenas é positiva quando: a) o cruzamento é realizado a partir de uma zona do terreno de jogo que não permita aos defesas opositores ter a possibilidade de, na abordagem ao lance, defender de frente para a bola (situação na qual beneficiam de uma clara vantagem sobre os avançados); b) existe superioridade numérica dos avançados sobre os defesas na grande área ou, não existindo a mesma, os avançados encontram-se a atacar um espaço vazio no qual a bola pode ser colocada. Portanto, o cruzamento apenas é potencialmente eficaz quando constitui um “passe longo”, um gesto bem pensado para um espaço no qual existe possibilidade de êxito. Caso contrário, não passa de uma opção irrefletida e simplista, com reduzidas possibilidades de vir a ter sucesso e que constitui, não raras vezes, o desperdício de situações de potencial perigo para a baliza adversária.
Alex Telles e Miguel Layún são futebolistas que, tal como Ricardo Quaresma, são extremamente vistosos no que às suas qualidades individuais diz respeito. São também atletas que, no final de cada época desportiva, tendem a apresentar estatísticas ofensivas individuais extremamente interessantes e, aparentemente, reveladoras da sua qualidade futebolística. Contudo, será que são jogadores que beneficiam a dinâmica coletiva e, consequentemente, o sucesso desportivo do FC Porto?
Artigo revisto por: Francisca Carvalho













