«Custou-me estar na qualificação e depois levarem o Custódio. Chamavam os jogadores do Mendes» – Entrevista BnR com Paulo Machado

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– Seleção Nacional –

BnR: Quanto ao teu percurso na seleção, é impossível não falar da conquista do Europeu de Sub-17, em 2003, que decorreu no nosso país. Que recordações guardas desse torneio?

PM: Foi um torneio em que havia uma seleção mais forte que a nossa, a espanhola, e que tinha jogadores incríveis. A maioria de nós não acreditava que era possível alcançar o título, e no grupo havia jogadores melhores que eu como o Vieirinha, Márcio Sousa e João Coimbra. Eu acabei por ser o médio defensivo titular e fui um dos melhores desse Euro, pela agressividade que tinha e a forma como me entregava ao jogo, o que, de certa forma, ajudou o coletivo a acreditar que podíamos fazer história, pois haviam jogadores que davam tudo e que metiam a cabeça onde os outros metiam os pés, acho que foi isso que fez a gente acreditar e ganhar o Euro.

BnR: Como a prova foi no nosso país, sentiram alguma pressão para ter de vencer?

PM: Quando és assim mais novo, acho que não existe pressão nenhuma porque estás ali e queres é jogar. Se calhar, se me disseres assim, pressão havia era depois na final, quando vês o estádio cheio e tens a tua família toda lá a apoiar e, aí sim, sentes um pouco mais de pressão. Agora nos outros jogos não muito, tanto que até dizia “Vamos lá jogar e, se ganharmos, tudo bem, se não, olha, demos o nosso máximo”.

Fonte: UEFA

BnR: Grande parte dos 18 convocados para essa prova não conseguiu ser internacional A. No teu entender, o que faltou a essa geração para chegar ao patamar máximo ao nível das seleções?

PM: Se for analisar por clube, todos os jogadores do Porto, se calhar nenhum chegou à Seleção A ou a um patamar mais alto, porque o próprio Porto tinha os melhores e não aproveitava isso. Naquela altura, o Miguel Veloso era o titular e João Moutinho ficava no banco, e hoje o Moutinho conseguiu chegar lá em cima e o Veloso também. Isso acaba por acontecer, pois o Sporting apostava nos miúdos e o Porto não, mesmo tendo os melhores jogadores das camadas jovens. A bem dizer, a seleção de 1986 na grande maioria era tudo do Porto. Toda a gente me dizia quando jogava nas camadas jovens “Se fosses jogador do Sporting, eras titularíssimo na equipa A”. Isso influencia e, se fosse hoje, os jogadores do Porto naquela época (eu, Márcio Sousa e Vieirinha) jogavam todos a titular. Só que nessa altura, o Porto preferia ser campeão em vez de apostar nos miúdos.

BnR: Isso acontecia por medo de não vencer títulos?

PM: O Porto preferia ganhar com jogadores já feitos, a apostar nas camadas jovens. E, atualmente, ouve-se a conversa “Apostamos na formação”, mas é mentira, não vês o Porto a apostar na formação. Se apostassem, os jogadores não iam embora. O Rúben Neves não ia embora, eu não tinha ido embora, o Vieirinha não tinha ido embora. E agora quando dizem “Tanto apostamos que…”, diz-me um jovem que joga a titular no Porto? Nenhum.

BnR: Têm aparecido jovens como o Romário Baró, Fábio Silva…

PM: Eu sei disso, mas titularíssimos? Não jogam. Se fosse no Benfica ou Sporting, metem-nos a titular e nunca mais os tiram, como foi o caso do João Félix e muitos outros. Eu falo porque o Porto é o meu clube, mas não pode dizer que aposta nos jovens porque é mentira. Meteu os miúdos 5, 10 minutos, mas isso também fez na minha época em que jogava 5,10 minutos. Agora, dar oportunidade e o miúdo estar ali os jogos todos? Não se vê nenhum. Não é querer falar mal, mas é a realidade.

BnR: Há a famosa história em que compraste bilhetes para a tua família e amigos do bairro do Cerco no jogo Portugal vs Dinamarca. Ainda sentes alguma mágoa por não ter jogado essa partida?

PM: Claro que sim, sinto um bocado de mágoa por não ter jogado. Levei a família toda, o bairro todo, foram mais de 300 pessoas ao estádio. Estava a contar mesmo que pudesse entrar, nem que fosse só dois minutos ou pelo menos ir para o banco de suplentes. Levaram cartazes, as minhas camisolas, foi lindo. O próprio Paulo Bento, sabendo disso, e mesmo assim não me convocar, claro que me deixou triste, mas o que podia fazer? Só o poder estar ali na Seleção já era uma enorme felicidade.

BnR: A tua primeira internacionalização A foi contra…

PM: Contra a Espanha, ganhámos 4-0 e rebentamos com eles! (risos).

BnR: Que memórias guardas desse amigável?

PM: Foi uma alegria, poder entrar e vencermos por 4-0 à Espanha, não podia ter pedido melhor estreia. Estrear-me contra a seleção espanhola que tinha acabado de vencer o Mundial 2010, eu entrar e festejar o golo com o Hugo Almeida foi espetacular! Ainda me lembro do golo do Cristiano Ronaldo, em que o Nani toca na bola e estragou uma jogada fenomenal. Apesar disso, foi lindo esse jogo.

Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: Apenas participas em jogos amigáveis pela seleção A. Uma das maiores frustrações da tua carreira foi nunca ter representado Portugal num Europeu ou Mundial de seniores?

PM: Claro que sim, uma pessoa fica frustrada. Eu fazia os apuramentos todos, e depois chegava a hora da convocatória final e chamavam os outros jogadores, os do Jorge Mendes claro, e eu não era, temos de dizer a verdade. Lembro-me que fiz o apuramento todo para o Euro 2012, e chega a convocatória final e levam o Custódio que não fez nem sequer um jogo de qualificação.

BnR: Foi difícil ouvir a convocatória e não ver o teu nome lá?

PM: Claro que sim, até estava em casa com a família e disse um palavrão e tudo: “Olha que se f*da a seleção”. Depois de estar ali o apuramento todo, mesmo não jogando dava apoio aos meus colegas, e quando vês a convocatória final em que estão jogadores que não fizeram um jogo sequer de apuramento e tu estiveste lá nesses jogos, claro que ficas triste.

Guilherme Costa
Guilherme Costahttp://www.bolanarede.pt
O Guilherme é licenciado em Gestão. É um amante de qualquer modalidade desportiva, embora seja o futebol que o faz vibrar mais intensamente. Gosta bastante de rir e de fazer rir as pessoas que o rodeiam, daí acompanhar com bastante regularidade tudo o que envolve o humor.                                                                                                                                                 O Guilherme escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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