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«Custou-me estar na qualificação e depois levarem o Custódio. Chamavam os jogadores do Mendes» – Entrevista BnR com Paulo Machado

Guilherme Costa · 33 min

Foto: Mumbai City FC

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Se dentro de campo é caraterizado pela raça, entrega e determinação, fora dele, a boa-disposição e simpatia são os seus pontos fortes. Originário do Bairro do Cerco, Paulo Machado aceitou o convite do Bola na Rede para falar sobre a carreira que conta com passagens por campeonatos fora de Portugal. Da estreia pela mão de Mourinho até ao reencontro com Jorge Costa na Índia, sem esquecer a conquista do Europeu de sub-17 de 2003, eis então o percurso do médio que diz querer continuar a jogar até quando tiver forças para o fazer.

– Origens e Anos de Dragão ao Peito –

Bola na Rede (BnR): Antes de começarmos, e em tom de brincadeira, deixa-me fazer esta questão: o teu bigode em 2014 quando estavas no Olympiacos fez um enorme sucesso. O senhor Machado foi a inspiração para esse look?

Paulo Machado (PM): Aquele grande bigode mesmo! (risos). O meu pai já tem o bigode, não vou dizer desde que nasceu, pois não se nasce com bigode, mas, desde que o teve, sempre usou. Houve um jogo em que disse “Vou cortar o bigode e fazer uma homenagem ao meu pai”, fiz isso e os gregos ficaram malucos! Nunca pensei que fosse fazer tanto sucesso a nível mundial, pois toda a gente falou nisso e até comentaram “Olha o Freddie Mercury!”. Até me lembro que fizemos uma publicidade para o Olympiacos e obrigaram-me a ter o bigode.

BnR: O Hugo Almeida é que te copiou ou foi ao contrário?

PM: Isso já não sei ao certo, pois metemos os dois o bigode num jogo da Liga dos Campeões e andávamos iguais. Depois disso, dissemos “Isto vai virar moda, vamos voltar ao tempo antigo”. (risos)

BnR: Confesso que ainda jogo o FM2008, e os teus atributos mais fortes nesse jogo são a Determinação, Trabalho de Equipa, Agressividade, num bom sentido claro. De que forma a vivência no Cerco ajudou a ser um atleta mais forte psicologicamente e bastante comprometido com a equipa ao longo da tua carreira?

PM: Ajudou um bocado, pois quando vives num bairro e vês coisas que se calhar outras pessoas que têm outras possibilidades não veem. Vi pessoas a injetarem-se o dia todo e a traficar droga, e pensas para ti mesmo “Não quero isto para a minha vida, quero ser jogador”. Essa frase começa a entrar no teu pensamento, ganhas uma força mental e não te deixas ir abaixo. Quando assinas por uma equipa e estás totalmente comprometido, e dás tudo o que tens e não tens. Isso foi sempre o que meu pai me ensinou “Podes nem sempre jogar bem, mas dá sempre o teu máximo dentro de campo e as pessoas vão valorizar o teu esforço” e foi o que eu fiz. E digo isto muitas vezes: tenho um irmão mais velho que jogou no Leça e tem mais qualidade que eu, só eu que eu ganhei pela raça e entrega. O que ele tinha a mais, tinha eu menos, mas o que eu tinha a mais, ele tinha menos que era a agressividade e vontade.

BnR: É no Cerco que começas a dar os primeiros pontapés na bola. Já te destacavas quando faziam jogos?

PM: No Bairro havia jogadores melhores que eu, como o meu primo Rui que jogava muito, tanto que o Porto o queria e ele não quis ir, e esse era um dos melhores jogadores do Cerco. Até escolhiam antes o meu irmão que a mim, tanto que ainda hoje vamos jogar futebol com o pessoal do Bairro e escolhem-no primeiro.

BnR: A sério?

PM: Sim, ainda continuam a fazer isso! Podes pensar “Ah, ele é jogador”, mas quando vamos jogar peladinhas, toda a gente prefere ter o meu irmão do que a mim na sua equipa.

BnR: A tua ida para o FC Porto dá-se aos 10 anos de idade. Falaram diretamente contigo para ir lá treinar?

PM: Não falaram primeiro comigo diretamente, falaram depois. Tínhamos o Alcino Palmeira que foi um grande boxista do Porto, e ele ainda era treinador de Boxe no Porto e também diretor no Bairro Cerco do Porto. O sr. Alcino disse aos diretores do Porto que tinha lá no Bairro um miúdo que podia dar jogador, perguntou-lhes se podia ir treinar à experiência e disseram que sim. Foi ele próprio e o senhor Figueiredo que me levaram diretamente ao Porto para treinar.

BnR: A chegada a esse treino foi com toda a pompa e circunstância…

PM: Foi mesmo! (risos). Levei um apito, e pensei “Ora bem, estou a chegar aqui e tem de ser em grande”, abro a porta e apitei, toda a gente ficou a olhar para mim. O pensamento dos outros jogadores foi, “Mas quem é este maluquinho que vai entrar agora com um apito?”, e, na verdade, aparecia lá de tudo um pouco para treinar. Depois de começar a jogar lá, apanhei malta um pouco estranha, os que não falavam com ninguém, apanhei de tudo.

BnR: Os teus primeiros tempos na formação não foram fáceis para ti. Quais foram as maiores dificuldades?

PM: Foi difícil, porque nessa altura, e mesmo agora, existiam aqueles pais com mais possibilidades, os ditos “ricos” e que conseguiam meter os filhos a jogar no Porto, e havia muitos desse tipo, e como eu vinha de um bairro ninguém queria estar ao pé de mim. O único que quando cheguei lá e comecei logo a dar-me bem, foi o Ivanildo. Depois acabei por me dar com o (João Pedro) Macieira e inclusive era o pai dele que até me trazia a casa, mas, de resto, a maioria eram filhos de pais ricos e ninguém se sentava ao meu lado. Sentia-me um pouco discriminado nesses tempos.

BnR: Ao longo da tua formação, partilhaste o balneário com vários jovens craques do Olival. Qual foi o companheiro de equipa que mais te marcou e porquê?

PM: O que me marcou mais foi o Ivanildo. Nas camadas jovens, ele era um fenómeno e não havia ninguém que conseguisse pará-lo. Lembro-me dum jogo que fizemos no Alentejo, mal começa a partida, o Ivanildo pega na bola, finta toda a gente e marca golo. Era o único da nossa equipa que fazia isso. Toda a gente que via o Ivanildo, fugia e pensava “Lá vou eu levar com o Ivanildo”. As lesões que ele teve acabaram por impedi-lo de chegar mais longe, infelizmente.

Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: A tua estreia nos seniores foi no jogo de inauguração do Estádio do Dragão. O José Mourinho disse-te algo antes do jogo que te marcou?

PM: Sim disse, e é normal que me marcou. Na noite anterior ao jogo, eu quase nem dormi só de pensar “Amanhã vou jogar na inauguração do Dragão”, que é o sonho de qualquer jogador da formação. Fiquei a pensar se ia jogar muito ou pouco tempo, e lembro-me dele vir ter comigo e dizer “Amanhã vais jogar 30 minutos. Dos jovens todos, vais ser quem vai jogar mais tempo”, fiquei maravilhado com as suas palavras. E, de facto, fui mesmo de todos os jovens o que jogou mais tempo.

BnR: Além desse jogo, há ainda o da Taça…

PM: Tive a felicidade de poder jogar nas Antas e na inauguração do Estádio do Dragão. A partida nas Antas contra o Vilafranquense treinado pelo Rui Vitória foi também especial, pois já sonhava poder jogar pelo Porto e conseguir fazê-lo no Estádio das Antas era um orgulho. O meu pai é sócio do Porto há cerca de 30 anos e vê-lo na bancada a apoiar-me foi uma enorme alegria.

BnR: Deves ter-te sentido radiante nesse dia…

PM: Claro. Aliás, a minha família é toda portista, e conseguir chegar à equipa A e jogar, apesar de não ser titularíssimo ou ter as oportunidades que muitos tiveram, não reclamo das oportunidades, porque muita gente diz que não fui nada no Porto, mas esquecem-se que tinha jogadores que jogavam na minha posição e não era fácil, tinha de ser um fenómeno para passá-los à frente.

BnR: A concorrência no meio-campo era de peso, o que acaba por impedir a tua afirmação no Porto. Recebias algum conselho dos jogadores mais experientes?

PM: Jogavam Costinha, Maniche e Deco, saía o Maniche, entrava o Alenichev. Conselhos recebia sempre. Eles gostavam de mim e davam-me valor porque, apesar de ser jovem, chegava aos treinos e se tivesse de dar “porrada” a este ou àquele, eles gostavam disso pois demonstrava um bocado a minha personalidade e raça que tinha. Por vir do Bairro e tudo, diziam “Este aqui não vai ter medo de nada” e se calhar isso fez conquistar o Mourinho e as pessoas dali. Vim dum bairro muito pobre, não passava fome, graças a Deus, tínhamos dinheiro para comer e beber, o que era mais importante. E ter conseguido alcançar a equipa A, era valorizado por isso.

BnR: Como eras um dos mais novos da equipa, acabavas por ser o “estafeta” e acatar os pedidos dos jogadores mais experientes. Vias isso como algo de negativo?

PM: Eu na equipa A fazia de tudo, era mesmo o estafeta. Ia buscar garrafas de água, quando íamos para a piscina diziam-me “Olha o miúdo, vai buscar toalhas” e lá tinha de ir. Naquela altura, se dissesse que não, estavas tramado, o melhor era fazer o que te pediam (risos). Sinceramente, não pensava muito se faziam de mim um escravo ou qualquer coisa do género, até ficava todo feliz por ir buscar toalhas para o Jorge Costa e Vítor Baía. Era uma oportunidade única puderes jogar no clube do teu coração e estar ao lado dos jogadores que vias na televisão, tu fazes qualquer coisa para ser amigo deles.

– Ganhar experiência longe do Dragão –

BnR: Em 2005/2006, é a tua primeira época longe do Dragão. És tu quem pede para ser emprestado para ter mais minutos de jogo?

PM: Não, nunca pedi nada. Aliás, fui para o Estrela da Amadora, União de Leiria e Leixões sem ter pedido para ir, foi o Porto que me mandou. E com o Leixões foi pior, soube da minha ida para lá através do jornal. Apesar disso, não guardo mágoa e nem nunca guardei, porque adoro o Porto. No Estrela, disseram “Vais para lá que precisas de jogar”. Saí do Estrela a pensar que ia voltar ao Porto, mas não, vou para o Leiria. Nem sequer tinha voto na matéria, ia para onde me mandavam.

BnR: Sendo o primeiro ano fora da zona de conforto, sentiste algumas diferenças entre o modo de viver em Lisboa e no Porto?

PM: Senti um bocado. Fui emprestado com o Bruno Vale que jogava comigo na equipa A e B, sabia que íamos morar perto um do outro, e disse “Vamos embora que isto vai correr bem”. Se calhar a melhor ajuda que tive foi estar com o Bruno. Senti muitas diferenças, porque de Lisboa para o Porto não tem nada a ver. Vivi um ano no prédio e não conheci sequer um vizinho, eles passavam e nem um “Bom dia” diziam. Em Lisboa, as pessoas são mais fechadas e desconfiadas, enquanto que aqui no Porto convivem contigo uma, duas vezes e, se gostarem, passas a ser o melhor amigo.

BnR: Uma realidade bem diferente do que estavas habituado…

PM: Como te disse, em Lisboa, uma vez estava no elevador, entra um vizinho e digo “Bom dia vizinho, então tudo bem e tal?”, não respondeu (risos). Perguntei logo “Fogo, custa alguma coisa dizer ‘Bom dia’?”. Falou que não era obrigado a falar. E eu “Pronto, está bem. Mas olhe quando voltar a vê-lo, vou sempre dizer ‘Bom dia’ na mesma, pois é a minha forma de ser”.

BnR: A simpatia e boa-disposição que te é caraterística, não é verdade?

PM: (Paulo esboça um enorme sorriso) Isso aí foi sempre o que tive, a alegria e animar o pessoal é comigo!

BnR: No Estrela, fazes os primeiros golos no campeonato. Qual foi o melhor: o lance individual contra Naval ou o livre lateral ao Benfica?

PM: Aquele lance individual contra a Naval foi dos melhores golos que marquei na minha carreira, em que arranco do meio-campo, passo por três jogadores e atiro a contar. Até me lembro que dei uma entrevista e obrigaram-me a recriar o lance sozinho em campo, só que aí não consegui marcar golo (risos).

BnR: Foi estranho ter de recriar isso sem adversários não? (Risos)

PM: Foi um pouco, ter de dizer “Fui para aqui, e depois para ali…” (risos). O golo ao Benfica também foi especial, não só por ser o Benfica, mas também porque, para mim, nesse jogo, ganhei duas vezes: primeiro, dei uma “fruta” no Petit num lance em que devia ter visto o vermelho, e depois marquei golo.

BnR: Ui…

PM: É! No lance com Petit devia ter levado vermelho e não levei, depois faço o golo de livre.

BnR: Nesse livre, vê-se bem que aproveitaste o facto do Moretto estar à espera que batesses o livre para a área.

PM: Sim. Eu tenho alguns golos assim na minha carreira de livres laterais, em que os guarda-redes estão preparados para o cruzamento e a pensar “Ora bem, ele vai mandar para a área, vou sair e agarrá-la”, só que eu vejo que vão todos fazer isso, então chuto direto à baliza, e quando eles querem ir buscar a bola, já ela está lá dentro da baliza.

BnR: O famoso efeito-surpresa…

PM: É isso mesmo. Uma das coisas que aprendi quando comecei a bater livres, e foi no Estrela da Amadora que aprendi a bater livres com um dos adjuntos do António Conceição, em que me ensinou “Tu bates bem os livres, mas muita das vezes não é tu saberes que metes ali, tens sim é de olhar para o guarda-redes, os pés dele contam muito, a forma como se posicionam.” Se tiveres isso em atenção, quando bateres a bola para um lado, o guarda-redes não vai conseguir chegar lá.

BnR: O tempo de reação por vezes não é o ideal.

PM: Não conseguem. Às vezes, eles estão posicionados só para ir para um lado e ficam com aquilo na cabeça: “Ele vai meter para ali, então vou me atirar para ali”, só que se esquecem que meto do outro lado, e foi isso que aprendi.

BnR: Leiria é a paragem seguinte na tua carreira. Gostaste da experiência na equipa do Lis?

PM: Gostei, o meu objetivo era poder jogar cada vez mais e adquirir mais experiência, e tinha sempre na mente que ia voltar um dia ao FC Porto. Vi muitos jogadores que foram emprestados, tiveram um bom ano, regressaram e conseguiram ser titulares no Porto.

BnR: Temporada 2007/08 e vais para o Leixões que estava de regresso à Primeira Liga, 18 anos depois. Que tal foi o ano em Matosinhos?

PM: Se calhar, no Leixões, foi para mim a melhor época até então. Joguei bastante, começaram a falar mais de mim, tanto que os adeptos do Leixões também foram importantes para mim. É uma massa adepta que apoia muito o clube, são muitos e vibram imenso, até cheguei a ter uma música com o meu nome. Parecendo que não, começou-se a falar muito mais no nosso país e isso fez a diferença, tanto que, quando os diretores do Porto me dizem que iria fazer a pré-época no ano seguinte, aparece o Saint-Étienne.

– A aventura em França –

BnR: A tua primeira viagem para jogar fora de Portugal deu-se no verão de 2008, e aterras em Saint-Étienne. Lembras-te como foste parar aos “Les Verts”?

PM: Lembro perfeitamente, tinha acabado a época no Leixões em que me correu mesmo bem, marco golos importantes e a equipa consegue manter-se na Primeira Liga, e tinha mesmo em mente que ia fazer a pré-época no Porto e o que as pessoas que trabalhavam lá diziam era que ia ter uma oportunidade. Depois, num certo dia, estou em casa com o meu pai e ligou-me o senhor Pinheiro, o vice-presidente da formação toda do Porto da equipa B até aos infantis, a informar que tinha uma proposta para ser emprestado ao Saint-Étienne. Acabei por ser emprestado mesmo renovando o contrato, e lá fui ser emigrante pela primeira vez.

BnR: Como foi a adaptação à nova realidade?

PM: A ida para França foi mesmo difícil para mim. Nos primeiros dois, três meses, eu perdi 10kg. Estava sozinho, não falava nada, nem sequer um “Bom dia” ou “Boa tarde” dizia. A comida lá não leva temperos, davam-me um bife sem sal e sem nada, salada sem temperos e eu “Que é isto?”. Comia fruta todos os dias para poder ter força para o treino. Os primeiros tempos foram difíceis, tanto que levo duas malas e ficaram fechadas dentro do quarto. Só abri para tirar dois fatos-treino e andei quase sempre com as mesmas coisas. Depois, recebi a roupa do clube e andava equipado do clube, nem usava a minha roupa. Foi difícil, quando falava com a família por telefone, começava a chorar e tudo, o que é normal, já que estava ali a passar super mal.

Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: O que te fez ultrapassar esse período menos positivo?

PM: Ao mesmo tempo, vi que não era o momento de desistir, já que me tinham mandado para aqui, vou mostrar o meu valor fora do país, vão dizer que tinha lugar no Porto. Eu tive sempre na mente a ideia de regressar ao Porto, tanto que dizia para mim “Vou rebentar aqui e o Porto até se vai arrepender”. Isso foi mesmo a minha força.

BnR: Mesmo com uma forte concorrência no meio-campo, consegues ser uma aposta firme, jogas 46 partidas e até foste considerado o melhor jovem jogador do campeonato. Essa época foi fundamental para a tua afirmação definitiva no panorama do futebol?

PM: Acho que foi a partir daí, em que estou num clube histórico, e toda a gente começa a dizer “Como é que ele consegue jogar num clube que venceu 10 campeonatos e não joga no Porto?” e já me viam com outros olhos. Deixo de ser o “Paulo Machado, o miúdo” para ser tratado como “Paulo Machado, o jogador”. Lembro-me que nesse ano aquilo correu-me tão bem que o Porto queria que eu voltasse, mas já não quis. As coisas tinham-me corrido bem, sentia-me bem em França, o campeonato era bom para mim e preferia ficar cá.

BnR: Mesmo com o bom ano, acabas por não ficar no Saint-Étienne. O que aconteceu?

PM: Não fiquei, pois houve uns problemas com um diretor do clube, problemas por causa do contrato e não fico lá. O meu objetivo era manter-me no Saint-Étienne, nem queria ir para o Toulouse, adorava o clube, toda a gente gostava de mim e tenho a certeza que se tivesse ficado, acabaria por me tornar um dos capitães de equipa.

BnR: No Toulouse envergas o número 5 nas costas. Que significado tem para ti o “5”? Até aí, só no Leixões é que não usas um número acabado em cinco.

PM: Nas camadas jovens, era sempre o número 6, 8 e houve vezes que fui o 10, mas não dava grande importância a isso. Como na equipa A recebi o número 55 sem sequer escolher, perguntavam se gostava e disse “É bonito ter os dois números iguais”. Como me mostrei ao mundo do Futebol com o 55 no Porto, mentalizei que a partir desse dia para onde quer que fosse ia utilizar o número 55…ou o 5, o 25, ou seja, queria sempre ficar com um número acabado em 5. Acabo por utilizar o 25 no Saint- Étienne, cheguei ao Toulouse, o 5 estava disponível e fiquei logo com ele.

BnR: Isso acabou por ter algum peso no tempo em que por lá estiveste? É que tens três anos bons no Toulouse…

PM: Sim, eu gostava do número, e depois, coincidência ou não, as coisas corriam-me bem.

BnR: Desse tempo todo, qual foi o momento mais alto ao serviço do Toulouse?

PM: Foi jogar na Liga Europa, naquela altura era a Taça UEFA. Eu também troquei um bocado o Saint-Étienne pelo Toulouse, por que eu sabia que eles iam jogar a Taça UEFA, e era algo que ambicionava jogar. Disse “Eu quero mesmo jogar a Taça UEFA, vou ter de ir para o Toulouse, sei que vai ser histórico e único”. Aliás, foi para mim um momento marcante no Toulouse, pois toda a gente esperava para ver o que se ia fazer na Taça UEFA, onde havia muitos clubes que não eram fáceis de vencer.

Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: No geral, acabas por ter quatro épocas de bom nível em território gaulês. Em que aspetos a experiência em França te ajudou a melhorar a tua qualidade de jogo?

PM: Ajudou-me muito, quando eu saio de Portugal praticamente só jogava numa posição, a de número 6. Quando vou para França, começaram-me a meter a 6, à esquerda e à direita, porque tinha um bocado de técnica e era raçudo, o que não era normal para um jogador de meio-campo, tanto que quem tinha um pouco de técnica sobressaía. Eu sobressaí em França por causa disso, devido à minha raça e técnica.

BnR: Conseguias também empurrar a equipa para a frente, levavas a bola…

PM: Sim, levava a bola, transportava-a, coisa que nem todos faziam isso em França. Atualmente, apenas o PSG, Marselha e Lyon é que têm jogadores com essa capacidade, se fores ver as outras equipas não têm um jogador que consiga transportar a bola.

BnR: O tal “box-to-box”, certo?

PM: Sim. Para mim, o futebol de hoje vive muito de um número 8, um “box-to-box” como se costuma dizer, o que vai e vem, recupera bolas, e tem de ter tudo.

BnR: Também tem de ter uns bons pulmões, para aguentar o tempo todo a correr…

PM: Se calhar foi isso que me fez jogar mais em França, pois aguentava sem problemas os 90 minutos sempre a correr e com a mesma intensidade, e acabo por conseguir jogar tanto tempo devido a isso.

– A proposta do SL Benfica – 

BnR: Sendo tu uma pessoa que não teme novos desafios, em 2012 assinas pelo Olympiacos da Grécia, onde te cruzas com o técnico Leonardo Jardim. Foi ele que fez mais força para ires para Atenas?

PM: Não foi ele que fez mais força, porque o Olympiacos já andava atrás de mim desde o final da minha primeira época no Toulouse. Nesse ano, toda a gente me queria: eram eles, equipas da Liga dos Campeões e até cheguei a receber uma proposta do Benfica e tudo.

BnR: A sério?

PM: Sim, tive proposta só que o clube não aceitou. O Olympiacos já me andava a “namorar” há algum tempo, e a chegada do Jardim acaba por dar uma maior força e acabo por ir para lá. Na terceira época no Toulouse, eu e o treinador Alain Casanova já não nos estávamos a dar bem, e decidi mudar.

Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: A primeira vez que jogas na Liga dos Campeões foi na Grécia. Recordas-te contra quem foi a tua estreia?

PM: (Paulo pensativo) Por acaso, não me lembro…

BnR: Foi em casa contra Schalke 04, em que os alemães vencem por 2-1.

PM: Ah, pois foi! Perdemos, mas foi um bom jogo esse.

BnR: A adrenalina aumentou quando entras em campo e começa a tocar o hino da Champions?

PM: Claro que sim, nesse dia levei a minha família para ir ver o jogo, e quando começo a ouvir o hino vieram-me as lágrimas. “Fogo, estou a jogar a Liga dos Campeões”, foi o meu pensamento nesse instante, já que era um sonho de qualquer jogador.

BnR: Os gregos são caraterizados por viver o Desporto Rei de uma forma bastante apaixonada. Tens algum episódio que te tenha marcado durante a tua estadia lá?

PM: Tenho sim, quando marquei golo ao Montpellier para a Liga dos Campeões em casa. Foi incrível! Lembro-me de marcar o golo e os adeptos em vez de me chamarem por Machado, gritaram “Moustaki” por causa do bigode. Essa é alcunha por que sou conhecido, e ver o estádio todo a cantar isso, até fiquei emocionado e senti que tinha conseguido conquistar os adeptos, foi incrível.

BnR: Tocaste no moustaki (bigode em grego), e não podemos deixar passar de lado o famoso festejo! A ideia para “Moustaki Walk” veio donde?

PM: Quando era mais novo, no Carnaval vestiamo-nos de “Cadeirudo”, que era uma personagem de uma novela brasileira, usava uma bengala de Charlot e andava da mesma forma como festejo. Achei piada e tentei andar como ele, tanto que consegui apanhar o jeito (risos). Pensei logo “Vou usar isto e vai tornar-se um festejo mundial”. Quando toda a gente marca e festeja quase sempre da mesma forma, decidi fazer uma coisa diferente. Já ninguém me tira esse festejo!

BnR: Apesar de teres ajudado nas conquistas de duas Ligas e Taça, acabas por abandonar o clube. Custou-te sair do campeão helénico?

PM: Custou-me muito, recordo-me que viajei com o meu pai até à Croácia para falar com o Dínamo, e quando ele me falou da possível ida para lá, disse logo “Não pai, eu adoro a Grécia, é um país único, o clube é excelente, para quê sair?”. Ele falou que era um clube campeão e tal, isso acabou por me convencer. Eu não queria mesmo sair do Olympiacos, mas tinha assinado o treinador espanhol Míchel antes da época acabar, e, numa conversa que tivemos, indiretamente disse que não contava comigo para o ano seguinte. Pensei logo “Joguei duas épocas sempre a titular, se ficar aqui não vou ser colocado a jogar e vai contratar os espanhóis todos”. Uma coisa que até hoje não percebo é o porquê de os técnicos espanhóis não gostarem dos jogadores portugueses. Achei por bem ir para Zagreb.

BnR: No Dínamo, encontras o guarda-redes Eduardo, o defesa Ivo Pinto, o médio Gonçalo Santos e o extremo Wilson Eduardo. O facto de teres colegas que falassem a mesma língua ajudou à tua rápida adaptação à Croácia?

PM: Claro que ajudou, mas mesmo tendo portugueses, se formos falar de adaptação, a deles foi mais fácil que a minha. Eu em Zagreb era o número 10, fui a contratação mais cara, tinha uma enorme pressão sobre mim que eles não tiveram. Eles podiam errar e ter um jogo menos bem conseguido que ninguém os assobiava. Eu cheguei a ter o estádio todo a assobiar-me, a insultar-me.

BnR: Complicado

PM: Adorei estar na Croácia, o Dínamo respeitou-me, as pessoas dentro do clube gostaram de mim pois sou brincalhão, mas, todos os dias, se fosses ver os jornais era fortemente criticado. Marcava golo, era o melhor em campo, só que no dia seguinte era rasgado do tipo “Não joga nada!” ou “Como é possível terem pagado tanto dinheiro?!”.

BnR: Os jogadores por vezes também sentem o peso do valor da transferência…

PM: Claro que sentem. Cheguei a França, ninguém me conhecia. Cheguei lá, fiz os jogos, fui para o Toulouse, como não tinha muita pressão, dava tudo e joguei o meu melhor futebol. Para o Olympiacos, já fui com pressão, tanto que, no início, pensaram “Vai chegar aqui o Messi”, mas não tenho nada a ver com o Messi. Da maneira que falaram, parecia o Messi e ia decidir os jogos todos. Não basta ver a minha carreira? Não sou jogador que vá marcar muitos golos, dou assistências e trabalho para a equipa, que dá tudo o que tem e não podem pedir mais que isto. Fui para o Dínamo e aconteceu o mesmo. Cheguei lá e adorei, mas foi dos piores anos da minha carreira.

BnR: Custou assim muito a experiência lá no Dínamo?

PM: Nem tanto, pois ia para os jogos e dentro de campo fazia o meu trabalho. Já fora de campo não ligava muito, pois nem sequer lia os jornais. Tanto é que fui para a Grécia e aprendi grego, e, quando chego à Croácia, começo a aprender a língua ao início, só que vi que toda a gente falava mal de mim, pensei mesmo “Não vou aprender esta língua, pois vai-me entrar na cabeça que falam mal de mim e vai ser pior”, então decidi não ter aulas de croata. Aprendi a falar francês, inglês, espanhol mesmo sem ter jogado lá e sei um pouco de grego. Podia ter falado croata, só que os jornalistas me atacavam todos os dias. Se fosse hoje, eu diria que era racismo, não percebia o que é que tinham comigo para me criticar mesmo quando não fazia nada de errado.

BnR: Felizmente, a etapa croata resultou em mais quatro títulos para o currículo. Com que ideia é que ficaste do campeonato no final dessa experiência?

PM: O meu objetivo, quando saí do Olympiacos, era ir para uma equipa que fosse campeã também, não podia juntar-me a um clube que andasse a lutar para não descer. Tive propostas da Turquia e tudo, só que pensei “Vou para a Turquia para lutar para não descer?”. Não podia trocar o sucesso do Olympiacos por isso. Fui para a Croácia onde o Dínamo era campeão. Para mim, o campeonato da Grécia é melhor que o da Croácia, em termos de competitividade, nem há comparação possível. Na Croácia, só tens o Rijeka, o Hadjuk é só por ser o rival, mas aquilo nem competitividade havia quase. Íamos para os jogos e pensávamos “Quantos vamos dar? 4,5?”. Isso acaba por desmotivar um bocado, tanto que, às vezes, as equipas adversárias até começavam a ganhar 1-0, eu dizia logo “Tenham calma, que daqui a pouco já levam 4 ou 5”, e isso era certinho.

– Seleção Nacional –

BnR: Quanto ao teu percurso na seleção, é impossível não falar da conquista do Europeu de Sub-17, em 2003, que decorreu no nosso país. Que recordações guardas desse torneio?

PM: Foi um torneio em que havia uma seleção mais forte que a nossa, a espanhola, e que tinha jogadores incríveis. A maioria de nós não acreditava que era possível alcançar o título, e no grupo havia jogadores melhores que eu como o Vieirinha, Márcio Sousa e João Coimbra. Eu acabei por ser o médio defensivo titular e fui um dos melhores desse Euro, pela agressividade que tinha e a forma como me entregava ao jogo, o que, de certa forma, ajudou o coletivo a acreditar que podíamos fazer história, pois haviam jogadores que davam tudo e que metiam a cabeça onde os outros metiam os pés, acho que foi isso que fez a gente acreditar e ganhar o Euro.

BnR: Como a prova foi no nosso país, sentiram alguma pressão para ter de vencer?

PM: Quando és assim mais novo, acho que não existe pressão nenhuma porque estás ali e queres é jogar. Se calhar, se me disseres assim, pressão havia era depois na final, quando vês o estádio cheio e tens a tua família toda lá a apoiar e, aí sim, sentes um pouco mais de pressão. Agora nos outros jogos não muito, tanto que até dizia “Vamos lá jogar e, se ganharmos, tudo bem, se não, olha, demos o nosso máximo”.

Fonte: UEFA

BnR: Grande parte dos 18 convocados para essa prova não conseguiu ser internacional A. No teu entender, o que faltou a essa geração para chegar ao patamar máximo ao nível das seleções?

PM: Se for analisar por clube, todos os jogadores do Porto, se calhar nenhum chegou à Seleção A ou a um patamar mais alto, porque o próprio Porto tinha os melhores e não aproveitava isso. Naquela altura, o Miguel Veloso era o titular e João Moutinho ficava no banco, e hoje o Moutinho conseguiu chegar lá em cima e o Veloso também. Isso acaba por acontecer, pois o Sporting apostava nos miúdos e o Porto não, mesmo tendo os melhores jogadores das camadas jovens. A bem dizer, a seleção de 1986 na grande maioria era tudo do Porto. Toda a gente me dizia quando jogava nas camadas jovens “Se fosses jogador do Sporting, eras titularíssimo na equipa A”. Isso influencia e, se fosse hoje, os jogadores do Porto naquela época (eu, Márcio Sousa e Vieirinha) jogavam todos a titular. Só que nessa altura, o Porto preferia ser campeão em vez de apostar nos miúdos.

BnR: Isso acontecia por medo de não vencer títulos?

PM: O Porto preferia ganhar com jogadores já feitos, a apostar nas camadas jovens. E, atualmente, ouve-se a conversa “Apostamos na formação”, mas é mentira, não vês o Porto a apostar na formação. Se apostassem, os jogadores não iam embora. O Rúben Neves não ia embora, eu não tinha ido embora, o Vieirinha não tinha ido embora. E agora quando dizem “Tanto apostamos que…”, diz-me um jovem que joga a titular no Porto? Nenhum.

BnR: Têm aparecido jovens como o Romário Baró, Fábio Silva…

PM: Eu sei disso, mas titularíssimos? Não jogam. Se fosse no Benfica ou Sporting, metem-nos a titular e nunca mais os tiram, como foi o caso do João Félix e muitos outros. Eu falo porque o Porto é o meu clube, mas não pode dizer que aposta nos jovens porque é mentira. Meteu os miúdos 5, 10 minutos, mas isso também fez na minha época em que jogava 5,10 minutos. Agora, dar oportunidade e o miúdo estar ali os jogos todos? Não se vê nenhum. Não é querer falar mal, mas é a realidade.

BnR: Há a famosa história em que compraste bilhetes para a tua família e amigos do bairro do Cerco no jogo Portugal vs Dinamarca. Ainda sentes alguma mágoa por não ter jogado essa partida?

PM: Claro que sim, sinto um bocado de mágoa por não ter jogado. Levei a família toda, o bairro todo, foram mais de 300 pessoas ao estádio. Estava a contar mesmo que pudesse entrar, nem que fosse só dois minutos ou pelo menos ir para o banco de suplentes. Levaram cartazes, as minhas camisolas, foi lindo. O próprio Paulo Bento, sabendo disso, e mesmo assim não me convocar, claro que me deixou triste, mas o que podia fazer? Só o poder estar ali na Seleção já era uma enorme felicidade.

BnR: A tua primeira internacionalização A foi contra…

PM: Contra a Espanha, ganhámos 4-0 e rebentamos com eles! (risos).

BnR: Que memórias guardas desse amigável?

PM: Foi uma alegria, poder entrar e vencermos por 4-0 à Espanha, não podia ter pedido melhor estreia. Estrear-me contra a seleção espanhola que tinha acabado de vencer o Mundial 2010, eu entrar e festejar o golo com o Hugo Almeida foi espetacular! Ainda me lembro do golo do Cristiano Ronaldo, em que o Nani toca na bola e estragou uma jogada fenomenal. Apesar disso, foi lindo esse jogo.

Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: Apenas participas em jogos amigáveis pela seleção A. Uma das maiores frustrações da tua carreira foi nunca ter representado Portugal num Europeu ou Mundial de seniores?

PM: Claro que sim, uma pessoa fica frustrada. Eu fazia os apuramentos todos, e depois chegava a hora da convocatória final e chamavam os outros jogadores, os do Jorge Mendes claro, e eu não era, temos de dizer a verdade. Lembro-me que fiz o apuramento todo para o Euro 2012, e chega a convocatória final e levam o Custódio que não fez nem sequer um jogo de qualificação.

BnR: Foi difícil ouvir a convocatória e não ver o teu nome lá?

PM: Claro que sim, até estava em casa com a família e disse um palavrão e tudo: “Olha que se f*da a seleção”. Depois de estar ali o apuramento todo, mesmo não jogando dava apoio aos meus colegas, e quando vês a convocatória final em que estão jogadores que não fizeram um jogo sequer de apuramento e tu estiveste lá nesses jogos, claro que ficas triste.

– Regresso a Portugal e Viagem até à Índia –

BnR: Em 2017/18, acabas por regressar a Portugal e assinas pelo Desportivo das Aves. O que esteve na origem para o retorno ao nosso campeonato?

PM: O que motivou o regresso foi a entrada do meu filho mais velho, que ia começar o primeiro ano na escola, e achei que era importante estar ao pé da família. Até cheguei a receber a proposta de renovação do Dínamo e recusei, porque queria estar em Portugal. Acabou por aparecer o Desportivo das Aves e aceitei o desafio.

BnR: Sendo que tiveste dez épocas consecutivas fora do país, na tua opinião, o Futebol português sofreu melhorias em termos de ritmo de jogo?

PM: Claramente senti algumas diferenças, tinha de estar bem fisicamente, pois agora os miúdos começam a estar bem e senti alguma dificuldade ao princípio. Não estava à espera, cheguei ali ao Aves, a maioria achava que ia chegar lá um jogador que, por ter jogado em tantos sítios e tido uma carreira boa, pensa que é o maior, mas não. Eu sou mais simples possível, comecei a conquistar o pessoal, acabei por ir jogando e correu-me bem. Mas confesso que não estava preparado para regressar, pois a mentalidade portuguesa ainda está fechada, um bocado “arcanha”.

BnR: Em que sentido?

PM: Jogas num clube e vais ver a equipa do teu coração, as pessoas vão dizer “És um vendido”. Cheguei na altura em que qualquer coisa te vendias.

BnR: O lado mais polémico infelizmente…

PM: As ditas polémicas, tanto que dizia que Portugal estava mesmo… Estava não, está no limite. Qualquer coisa é a conversa do “Vendido”. Mas agora ninguém pode errar? Se fores a ver, quando se falam nessas histórias, é sempre os clubes grandes, as outras equipas não se ouve nada.

BnR: Os Três Grandes acabam por estar no topo das polémicas

PM: Nem são os Três Grandes, é só o Porto e o Benfica, o Sporting quase nem conta. Como joguei no Porto, ninguém fala que o meu melhor jogo no Aves foi contra o Porto em que empatámos a um golo. Mas pronto, não se fala nisso, o mais fácil é dizer que o jogador está “vendido”.

BnR: Apesar do percurso algo sofrido na Liga em que a manutenção é alcançada apenas no final, a época terminou em grande com a conquista da Taça de Portugal. Que memórias guardas do dia 20 de maio de 2018?

PM: Essa conquista foi esplêndida. Nós começamos a acreditar em vencer a Taça quando batemos o Caldas, em que estávamos a ver a situação bem complicada. É por isso que a Taça é especial, pois quando jogas com os clubes pequenos que dão a vida, jogam com tudo, e digo que mesmo que passamos “à rasca”. Depois de acabar o prolongamento, a equipa disse toda “Passámos isto, nós vamos ganhar na Final” e isso fez-nos acreditar. Aconteceu aquilo que todos sabemos ao Sporting, mas tínhamos em mente que íamos ganhar a Taça.

BnR: Desvalorizou-se o triunfo do Aves devido ao que aconteceu com o Sporting, na tua opinião?

PM: Sim, senti isso, mas é como eu digo: daqui a 10, 20 anos, o que se vão lembrar é da conquista do clube e fico feliz por ter ficado na história do Aves.

BnR: No final do jogo, optaste por fazer algo que espelha bem a tua boa-disposição não foi?

PM: Decidi colocar a música do Quim Barreiros para animar o pessoal. O que é que toda a gente faz normalmente? Vai logo para as entrevistas quando ganham a Taça falar com os jornalistas. Eu cheguei à zona mista, e disse “Hoje sou eu que vos vou dar música”, liguei a coluna e comecei a cantar. Acharam todos piada. (risos) A festa continuou no autocarro, tanto que não deixei ninguém dormir, pois ia fazer a festa com a coluna e microfone, o que é normal, pois logo no ano em que regresso a Portugal, consigo ganhar a Taça, foi uma alegria enorme.

BnR: De seguida, decides encarnar o navegador Vasco da Gama e partes à descoberta da Índia. Aceitaste o desafio do Mumbai City sem pensar duas vezes?

PM: Não, até porque a primeira proposta que recebi nem foi do Mumbai, mas sim do NorthEast, outra equipa indiana. Fiquei a pensar imenso “vou, não vou”, admito que nem queria muito ir, pois não sabia como era a Índia, só sabia que tinha muita população, pobreza, poluição, e disse “O que vou fazer para lá?”. Refleti imenso se ia ou não, o mister Jorge Costa acabou por assinar com o Mumbai, falei com ele sobre a proposta que tinha recebido e disse-me para ir antes para o pronto. Acabei por assinar muito por causa do Jorge Costa.

BnR: A comida super picante foi o maior desafio que tiveste de te habituar rapidamente?

PM: Claro, foi isso e comer frango durante sete meses, parece que não há mais nada. As ementas basicamente eram “frango, frango e mais frango”. Mesmo que não queiras comer frango, comes uma omelete, é com ovos de frango (risos). Eu sou fã de boa comida e gosto de frango, mas sete meses a comer o mesmo… O problema é que não tens grande opção de escolha, ou comes ou comes.

BnR: Lá voltas a encontrar com o Jorge Costa, o mítico “Bicho”, mas agora como treinador. Tiveste mais atenção às chuteiras que usaste nos primeiros treinos?

PM: Isso já não foi um grande problema, pois o Mumbai veste de azul (risos). Comprei umas chuteiras todas brancas e outras todas azuis, mas ele também não reparou nisso. Quando viras treinador, não dás grande importância à cor das botas, já que trocas de clube, e alguns têm vermelho, e nisso ele já não era como nos tempos do Porto, já está mais tranquilo. Foi uma enorme alegria reencontrá-lo, depois de ter jogado com ele no Porto e apanhá-lo agora como treinador, foi único.

Fonte: Mumbai City

BnR: E que tal o campeonato indiano? Quais as maiores diferenças que encontraste ao nível do ritmo de jogo?

PM: Em relação ao ritmo, digo que este ano foi melhor que o primeiro ano em que fui para lá. No primeiro ano, não havia tanto ritmo, os jogadores indianos não estavam tão preparados e acho que os estrangeiros acabam por dar mais qualidade ao campeonato, e agora nota-se mais qualidade, agressividade, o ritmo já é outro e aproxima-se ao da Europa. Eles começaram-se a habituar aos jogadores estrangeiros, e ganharam mais ritmo que não notei no meu primeiro ano. É normal que os estrangeiros ajudem no aumento da competitividade.

BnR: Quais são os planos para o futuro?

PM: Eu agora ainda tenho um ano de contrato com o clube, e ainda sinto que tenho pernas para andar. Se fosse um jogador que tivesse muitas vezes lesionado, mas, graças a deus, não é caso e sinto forças para continuar.

BnR: Então ainda é cedo para pensar em “arrumar as botas”…

PM: Nem pensei nisso ainda! (risos). Eu já disse a muita gente que “Só vou pendurar as botas quando não me quiserem mais”, agora se sentir que as pessoas ainda acreditarem que posso dar algo ao Futebol, vou continuar. Falo muito com ex-jogadores que são meus amigos, e hoje eles arrependem-se de ter terminado o Futebol mais cedo. É que ser treinador não tem nada a ver com ser jogador. Enquanto puder jogar, vou jogar, e nem que vá jogar para a Segunda, Terceira ou por aí abaixo, pelo menos o Futebol não vou deixar de jogar.

– Passes curtos –

BnR: Melhor jogador com quem jogaste?

PM: Cristiano Ronaldo, na Seleção.

BnR: Melhor golo?

PM: O golo contra a Naval pelo Estrela da Amadora.

BnR: Melhor momento da carreira?

PM: Vencer o Europeu de Sub-17, em 2003.

BnR: Maior frustração?

PM: Não ter jogado mais tempo no Porto.

BnR: Adversário mais difícil de marcar?

PM: Manuel Fernandes. Em termos físicos, técnicos e tudo, era um fenómeno. É um dos melhores médios portugueses que já vi.

BnR: Treinador que mais te marcou?

PM: José Mourinho. A atitude que ele teve comigo antes do jogo no Dragão ao dizer que ia jogar meia-hora, só demonstra que era e tornou-se especial.

BnR: Melhor estádio onde jogaste?

PM: Estádio do Dragão.

Foto de Capa: Mumbai City FC

 

Artigo revisto por Joana Mendes

Guilherme Costa

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