Pronúncia do Norte

Na ressaca de uma péssima exibição coroada com a derrota na Madeira, frente ao Marítimo, para o campeonato, o FC Porto defrontava hoje o Estoril-Praia num jogo a contar para os quartos-de-final da Taça de Portugal. A instabilidade provocada pelos resultados negativos obtidos recentemente e pelo modo conturbado como o plantel foi gerido durante a janela de transferências de Janeiro era um obstáculo que a equipa teria invariavelmente de ultrapassar caso quisesse continuar em prova.

No Dragão, perante os seus adeptos, o FC Porto apresentou algumas novidades no onze em relação à partida anterior: Fabiano retomou o seu posto na baliza, como tem acontecido sempre nas Taças; Diego Reyes cumpriu o seu terceiro jogo na equipa principal; Herrera e Licá voltaram a surgir como titulares, o que já não acontecia desde o clássico em Alvalade, ainda no ano transacto.

A história do jogo conta-se em duas partes perfeitamente distintas: no primeiro tempo, o FC Porto foi pura e simplesmente subjugado, em casa, pela turma “canarinha”; no segundo tempo, subiu consideravelmente o rendimento e acabou por alcançar um justo triunfo.

Durante os quarenta e cinco minutos iniciais, o FC Porto voltou a exibir-se a um nível inadmissivelmente baixo para uma equipa com tamanhas responsabilidades. Esbarrando constantemente na intensa pressão alta da turma de Marco Silva, as enormes dificuldades em sair a jogar voltaram a atormentar os azuis e brancos. Os sectores voltaram a não estar ligados, as transições ofensivas perdiam-se invariavelmente em passes sem nexo e eram poucas as vezes que o FC Porto conseguia chegar à área adversária.

A superioridade do Estoril e a vantagem alcançada pelos "canarinhos" obrigava à reflexão  Fonte: Zero Zero
A superioridade do Estoril e a vantagem alcançada pelos “canarinhos” obrigava à reflexão
Fonte: Zero Zero

Dos primeiros minutos, ficam na retina as dificuldades de Quaresma e Licá ao receber a bola na área do Estoril em posição privilegiada, não chegando sequer a rematar: no primeiro caso, Carlos Eduardo serviu o Mustang sobre a direita, que a perdeu assim que tocou nela; no segundo, uma soberba trivela do Harry Potter deixou Licá isolado, mas a bola acabou por bater no chão e sobrar para Vagner. Na verdade, o primeiro remate feito pelo FC Porto só chegou aos 36 minutos. Isso diz tudo.

Para ajudar à festa, a lesão de Carlos Eduardo a meio da primeira metade obrigou Paulo Fonseca a uma substituição forçada – Josué foi o eleito para assumir o papel do ex-Estoril. Poucos minutos mais tarde, já depois de um falhanço inacreditável de Sebá na cara de Fabiano, o Estoril chegou mesmo à vantagem na sequência de uma brilhante finalização de Babanco – um chapéu perfeito que só podia acabar no fundo das redes. Em ambas as jogadas, Reyes – um talento inegável – falhou clamorosamente.

O Estoril continuou a controlar perfeitamente as investidas dos dragões, cuja apatia enervava o seu exigente público. Na ausência de um fio de jogo, acabou por ser à base da “força bruta” que o FC Porto chegou ao empate. Já ao cair do pano, Herrera – dos menos maus em campo – tabelou com Jackson à entrada da área, ganhou a linha, cruzou rasteiro para o colombiano, que não chegou à bola, acabando por ser Quaresma, no meio da confusão, a empurrar a redondinha para a baliza. Apesar de, à altura, ter metade dos remates do Estoril (3-6), o FC Porto repunha a igualdade.

Quaresma marcou poucos minutos antes do intervalo.  Fonte: Público
Quaresma reestabeleceu o empate poucos minutos antes do intervalo.
Fonte: Público

No regresso dos balneários, tudo mudou. Ainda que durante os instantes iniciais da segunda parte a toada parecesse vir a ser a mesma, o FC Porto rapidamente pegou no jogo e mostrou uma atitude completamente diferente. Com o Estoril acusando o cansaço de uma primeira parte de grande desgaste do ponto de vista físico e mental e com as linhas substancialmente mais recuadas, o FC Porto impôs-se. A defesa reorganizou-se e deixou de cometer erros, a mecânica do meio-campo começou finalmente a resultar e as jogadas de ataque continuado sucederam-se em catadupa. A entrada de Varela para o lugar de Licá, ainda antes de o relógio marcar uma hora de jogo, foi determinante para empurrar a equipa para a frente.

O FC Porto não foi esmagador e esteve longe de roçar a perfeição. No entanto, conseguiu manter a posse de bola, fazê-la circular pelas várias zonas do meio-campo adversário e espreitar pacientemente o golo. Além disso, não concedeu quaisquer veleidades aos visitantes e foi muito mais agressivo nos duelos. Os momentos de maior perigo surgiram por intermédio de Danilo, quando fuzilou as malhas laterais; de Jackson, primeiro quase aproveitando uma saída em falso de Vagner e depois atrapalhando-se na hora de dominar um passe fantástico de Josué por cima da defesa contrária; e de Quaresma, em sucessivos remates desenquadrados com a baliza.

Aos 83 minutos, quando o cenário do prolongamento se ia tornando cada vez mais previsível, Paulo Fonseca decidiu lançar Ghilas, que rendeu Quaresma. A aposta do treinador portista revelou-se acertadíssima, uma vez que o argelino, muito pouco tempo depois, correspondeu da melhor maneira a um cruzamento de Alex Sandro e colocou os dragões em vantagem pela primeira vez. Estava feito o 2-1; estava feito o primeiro golo oficial do ex-Moreirense com a camisola dos tri-campeões nacionais. A seguir, o FC Porto limitou-se a guardar a bola e a esperar que Rui Costa fizesse soar o apito final.

Se a fraquíssima primeira parte não permite registar nenhum destaque individual, há que realçar pelo menos três prestações positivas ao longo do segundo tempo: o lateral esquerdo Alex Sandro, bastante interventivo no ataque, foi decisivo na assistência para o derradeiro tento de Ghilas; e os médios Herrera e Josué terão de ser nomeados como os principais responsáveis pela dinâmica metamorfoseada do meio-campo nesse período – o mexicano pela verticalidade, intensidade e capacidade de transporte de bola; o português pela qualidade de passe e leitura de jogo.

Herrera fez de tudo para justificar a aposta de Paulo Fonseca e destacou-se.  Fonte: Zero Zero
Herrera fez de tudo para justificar a aposta de Paulo Fonseca. 
Fonte: Zero Zero

De resto, na segunda parte, Quaresma foi indubitavelmente dos elementos mais perigosos, tendo até marcado o primeiro golo, mas não se mostrou tão inspirado quanto em desafios anteriores; Jackson voltou a dar uma pálida imagem do que costuma ser, apesar de nunca ter deixado de trabalhar, como é habitual; Varela entrou com vontade de mostrar serviço e ofereceu mais à equipa do que Licá; Defour, mesmo sem deslumbrar, cumpriu o seu papel; Danilo envolveu-se bem sobre a faixa direita e até foi dos mais rematadores; Reyes beneficiou do balanceamento ofensivo da equipa para mostrar a sua qualidade na saída para o ataque, sacudindo a pressão inicial; e Fabiano correspondeu sempre que foi chamado a intervir.

Não posso terminar sem uma referência muito especial para Mangala, que hoje envergou a braçadeira de capitão: honrou a morte do seu pai, falecido poucas horas antes do jogo, ao entrar em campo para liderar a defesa azul e branca. Merece o respeito e a admiração de todos os adeptos do FC Porto e do futebol pela sua digníssima postura.

Com esta vitória, três anos depois o FC Porto volta a estar nas meias-finais da Taça de Portugal. O próximo alvo a abater é o Benfica, numa eliminatória a duas mãos, agendadas para o final de Março (no Dragão) e meados de Abril (na Luz). Agora é tempo de recarregar baterias e preparar a recepção ao Paços de Ferreira, penúltimo classificado do campeonato, no próximo Domingo.

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