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FC Porto 2-3 FK Krasnodar: Era uma vez a justiça, a injustiça e a crueldade

Ricardo Anselmo · 6 min

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O relógio marcava as 20h. A justiça, a injustiça e a crueldade – por esta ordem – entravam num bar para assistirem à glória azul e branca na Europa. Não sabiam, contudo, que os ‘nomes’ que lhes foram atribuídos seriam a história ipsis verbis do jogo que estavam ali prestes a assistir.

Primeiro, a justiça…

A tarefa era muito simples e passava por defender, gerindo, uma vantagem preciosa conquistada na Rússia há uma semana. Os sinais de alerta era muitos mas, mesmo assim, não os suficientes para que aos três minutos o fosso começasse a ser cavado. Vilhena causou os primeiros calafrios, mas a coisa estava apenas empatada. Nada de mais…. Ainda assim, um tal de Suleymanov, em dois momentos, deixou tudo e todos sem saber muito bem como reagir. O que é certo é que ao fim de meia hora, em pleno Estádio do Dragão, o FC Porto via-se a perder por 3-0, através de um lance fortuito após um canto e de dois contra ataques que exploraram muito bem as gritantes debilidades defensivas dos azuis e brancos. Nem nos maiores sonhos o FK Krasnodar imaginava o que lhe estava a acontecer e nem nos piores pesadelos o FC Porto poderia sequer pôr a hipótese de ter um pé fora da Liga dos Campeões no primeiro terço do jogo.

Aqui entra a justiça, impiedosa, a castigar tamanhos erros, impraticáveis no futebol de alto nível. Os russos precisaram de três remates para deixar o dragão atordoado. Fizeram por isso e foram felizes. Os azuis e brancos não se encontravam e a única saída possível parecia ser o futebol aos repelões.

Depois, a injustiça…

Wanderson explicara, na véspera, que a equipa tinha estudado bem os pontos fracos do FC Porto e agarrar-se-ia a isso para conquistar a vitória. Nem pelo aviso os portistas foram capazes de acautelar. Borrada a pintura, foi hora de minimizar os estragos, mas esta foi uma noite não. Nakajima foi uma das novidades que Sérgio Conceição lançou no onze inicial (Danilo foi titular e Saravia estreou-se em jogos oficiais) e, apesar de estar sempre muito envolvido na manobra atacante da equipa, ainda demonstra alguma falta de conhecimento e entendimento com os colegas. Também Luis Díaz jogou a titular e, salvo alguns excessos, foi conseguindo criar algum frisson na defesa contrária.

Díaz foi um dos melhores do FC Porto numa noite “trágica” no Estádio do Dragão
Fonte: Bola na Rede

A ver-se num beco sem saída, o FC Porto partiu para cima, sempre mais com o coração do que com a cabeça e colecionou algumas oportunidades, seja de bola parada ou bola corrida. O problema? O mesmo de sempre: a eficácia. Os fantasmas foram-se apoderando de algumas cabeças e o desespero, extensível à bancada, não ajudou.

Safonov, guardião russo, fazia o seu papel, seja a defender o que vinha na sua direção, seja a recolocar a bola em jogo com toda a calma deste mundo. Marega tentou num par de ocasiões, assim como Nakajima e Sérgio Oliveira, sempre com remates desenquadrados. A cabeça de Pepe também saltou mais alto que as restantes para responder às solicitações de Alex Telles, mas o destino da bola eram todos menos o fundo das redes.

Por fim, a crueldade…

O intervalo trouxe um FC Porto revigorado e a entrada de Uribe logo nos primeiros minutos do segundo tempo ajudou a balançar a equipa para a frente. Pedia-se um golo cedo e ele acabou por chegar, de forma relativa. Alex sacou um dos muitos cruzamentos e, no meio dos centrais, o também recém entrado Zé Luís saltou mais alto para devolver a esperança. O Dragão explodiu e os assobios deram lugar à crença.

A um quarto de hora do final, Luis Díaz diminuiu ainda mais as distâncias, com um belo remate seco, a puxar da esquerda para o meio. Um grande golo que ajudava a combater com força anímica o cansaço que se ia acumulando nas pernas. Marega e Zé Luís desenvolveram logo de seguida uma bela combinação, que só não acabou em golo porque o guardião russo não quis que se escrevesse uma das mais belas epopeias da história do desporto.

O FC Porto cai com estrondo para a Liga Europa, mas os sinais de vida que se viram no segundo tempo, aliados às afinações que um outro jogador novo tem para fazer, é um dos pontos positivos que se podem extrair desta noite. Estar a perder 0-3 aos 30 minutos e chegar a meio da segunda parte com chances claras de revogar um resultado tão negativo, só está ao alcance de uma equipa com alma e em crescimento. A crueldade acontece no momento em que uma mão cheia de oportunidades não são concretizadas, depois de o FC Porto ter renascido do inferno em que se deixou cair. Disso não teve culpa, naturalmente, o FK Krasnodar, que aproveitou de forma exímia todas as oportunidades de que dispôs.

Os dragões somam a segunda derrota consecutiva, mostraram duas caras bem distintas e aquela que os adeptos quererão ver exposta no futuro é, claramente, a da segunda parte. Há muito a melhorar, mas os indícios, – ainda que seja difícil dizer isto depois de um segundo desaire que compromete as aspirações europeias -, são um tanto ou quanto animadores.

ONZES INICIAIS E SUBSTITUIÇÕES

FC Porto – Marchesín, Saravia (Zé Luis, 37’), Pepe, Marcano, Alex Telles, Danilo, Sérgio Oliveira (Uribe, 49’), Corona (Aboubakar, 86’), Luis Díaz, Nakajima e Marega.

FK Krasnodar – Safonov, Martynovich, Spajic, Ramirez, Cabella (Stotsky, 80’), Wanderson, Namli (Ignatjev, 73’), Tony Vilhena, Kambolov, Suleymanov (Fjoluson, 65’) e Petrov.

A FIGURA

Fonte: FK Krasnodar

Suleymanov (FK Krasnodar) – O avançado russo elevou o nível da escalada a que o FC Porto ficou sujeito, com dois golos a castigar duas falhas defensivas dos azuis e brancos. Com apenas 19 anos, mostrou a frieza necessária para bater Marchesín no 0-2 e a qualidade técnica que se lhe reconhece para tirar Alex Telles do caminho e sentenciar a eliminatória com um remate rasteiro e colocado que deixou o Dragão incrédulo.

Do lado do FC Porto, nota para uma exibição em cheio de Pepe, que escapa ao marasmo do colega do lado. O luso-brasileiro limpou todos os lances, antecipou-se aos avançados e até na velocidade mostrou estar em forma. O ‘velho’ Pepe está aí para as curvas.

O FORA DE JOGO

Fonte: FC Porto

Marcano (FC Porto) – Toda a manobra defensiva da equipa foi uma autêntica mediocridade, mas Marcano esteve uns furos mais abaixo que os restantes companheiros de setor. Com a experiência que tem exigia-se mais tranquilidade e competência na abordagem aos duelos com os avançados da equipa russa. Ao invés, o que se viu foi um central muito errático e temeroso a complicar lances que exigiam ação rápida e eficaz.

 BNR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

 Declarações Sérgio Conceição (FC Porto)

“É ingrato e cruel sofrer logo aos dois minutos. Houve uma falta de atenção, depois o segundo golo, estamos a atacar e nasce de dois ressaltos e de uma transição rápida. Não devíamos sofrer. Com o terceiro golo fica difícil. A conversa que tivemos ao intervalo fez os jogadores reagirem de forma fantástica. Entramos na segunda parte muito fortes, com uma qualidade acima da média, com determinação e querer”.

“A sintonia é total. O presidente sabe que está a vontade comigo. Eu tenho uma força enorme. Eu cheguei quando o FC Porto não ganhava nada há quatro anos. Fomos campeões, ganhamos a supertaça. Fomos às finais das taças e chegamos aos quartos e oitavos de final da Liga dos Campeões. Estamos desiludidos, porque vamos para a Liga Europa e o lugar do FC Porto é na Liga dos Campeões. Eu nunca serei um problema. A intoxicação que têm criado à equipa do FC Porto é inédita. Tentaram virar a estrutura e os adeptos contra a equipa. Estou aqui com toda a força do mundo, para ganhar mais títulos. A desilusão dos adeptos é a mesma que a nossa”.

“Os adeptos e os jornalistas não percebem estas opções porque não veem os treinos. E não, não vou explicar”.

Foto de capa: Bola na Rede

Revisto por: Jorge Neves

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