Publicidade

Nuno Espírito Santo e a rudimentaridade tática do FC Porto

Francisco Sampaio · 5 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

fc porto cabeçalho

Um dos maiores pecados de qualquer adepto de futebol passa por avaliar o trabalho dos treinadores tendo por base os resultados que estes alcançam no final de cada época. Tal avaliação ignora, por completo, que o futebol é jogado por aqueles que estão dentro de campo e que, por muita qualidade que tenha um treinador, “não se fazem omeletas sem ovos” (sendo que o contrário também se aplica). O que habitualmente se verifica é que os resultados são otimizados por uma combinação equilibrada entre a qualidade do treinador e a qualidade individual que este tem ao seu dispor.

Por se acreditar que não são os resultados que ditam a qualidade dos treinadores (caso contrário, na época passada, teria que se assumir algo tão absurdo como “Claudio Ranieri é melhor treinador do que Mauricio Pochettino”), é antes do final da época e independentemente da classificação final da Liga NOS 2016/17 que importa analisar o trabalho de Nuno Espírito Santo no comando do FC Porto. Para esta análise importa considerar, acima de tudo, os únicos dois aspetos que o treinador pode controlar: o modelo de jogo e estratégia.

Os resultados poderão levar a acreditar que o trabalho de Nuno Espírito Santo tem sido muito bom ou, pelo menos, bom. Contudo, olhando atentamente para “o jogar” do FC Porto, pode observar-se que quem faz a diferença, tanto no momento defensivo como no momento ofensivo, são as individualidades e não as dinâmicas coletivas da equipa. Diz-se na gíria que as equipas se constroem de trás para a frente mas, no caso do FC Porto, é essencial analisar primeiramente o momento ofensivo da equipa para que se consiga compreender o sucesso (no que concerne ao número de golos sofridos) do momento defensivo.

Fonte: geralforum
Fonte: geralforum

A organização ofensiva do FC Porto é tão simples que chega a poder considerar-se rudimentar. Traz consigo um aroma ao velho kick and rush britânico (ao jeito do Leicester City FC da temporada transata): bola colocada na lateral e, aí, Maxi Pereira e Alex Telles (ou outro que surja naquela zona) têm ordem para esticar o jogo na frente em busca de Soares ou André Silva. Destes espera-se que, em duelos individuais, sejam capazes (habitualmente em péssimas condições) de receber a bola e dar algum sentido à jogada. Mesmo os movimentos dos avançados sem bola são extremamente redutores: estes raramente surgem entre linhas para permitir à equipa praticar um futebol mais apoiado ou para provocar desequilíbrios a partir do corredor central; a tendência é sempre o ataque à profundidade, para que possam tentar ganhar no choque, no duelo individual, as bolas que lhes são lançadas pelos colegas de equipa que atuam em posições mais recuadas.

Das (poucas) vezes em que os avançados conseguem vencer estes duelos individuais (sempre extremamente difíceis porque os defesas se encontram posicionados de frente para a bola), a ordem é para procurar os corredores laterais e cruzar a bola para a área, independentemente das condições existentes para que desses cruzamentos possa surgir a criação de verdadeiras oportunidades de golo. A estatística do FC Porto x CD Feirense retrata bem esta realidade: 50 ataques realizados pela equipa azul e branca, dos quais 37 culminaram com cruzamentos para a área (situação incrementada pela ausência de Brahimi da equipa).

Fonte: Facebook oficial de NES
Fonte: FC Porto

Se no momento ofensivo a equipa de Nuno Espírito Santo é “muita luta e pouco cérebro”, defensivamente a realidade também não é muito melhor. Elogia-se muito o FC Porto pelos poucos golos que a equipa sofre; porém, tal resulta mais dos conservadores posicionamentos adotados no momento ofensivo do que da qualidade das dinâmicas coletivas no momento defensivo. Os princípios defensivos apresentados pelo FC Porto são pobres e a equipa, nesta capítulo, vale sobretudo pela qualidade individual (nos duelos que vão travando) dos cinco futebolistas mais recuados (com principal destaque para Danilo, muito importante pela forma como se posiciona e como se antecipa no momento de transição defensiva). Para além disso, o facto de ofensivamente o FC Porto funcionar (quase) sempre numa lógica de “esticar o jogo na frente” faz com que a equipa, quando perde a bola, raramente se encontre particularmente desequilibrada ao nível dos posicionamentos e mantenha sempre muitos jogadores atrás da linha da bola.

Questiona-se muito, atualmente, se Óliver Torres vale os 20 milhões de euros que o FC Porto desembolsou para adquirir o seu passe. Porém, a questão deveria ser outra: é aceitável que o modelo de jogo e a estratégia do FC Porto sejam de tal forma rudimentares que não permitam potenciar a (extraordinária) qualidade de Óliver?

Quando se diz que o médio centro espanhol tem estado aquém da sua primeira época de dragão ao peito importa que se compreendam bem os contextos: com Lopetegui o FC Porto praticava um futebol apoiado, de posse de bola, beneficiando assim as caraterísticas de Óliver; atualmente, com um futebol no qual o meio-campo é mais importante para “morder os adversários” no momento de transição defensiva do que para pensar o jogo ofensivamente, é natural que o jovem espanhol perca influência na organização ofensiva da equipa.

Fonte: Facebook ofiial de NES
Fonte: Facebook oficial de NES

Nuno Espírito Santo tem dois méritos: 1) trabalhou bem a equipa nos lances de bola parada ofensivos, situação de jogo na qual o FC Porto tem uma taxa de aproveitamento acima da média; 2) conseguiu que os jogadores, muitos deles com grande qualidade individual (Óliver, Corona, Brahimi, Diogo Jota, André Silva, etc.), conseguissem acreditar no treinador e no seu modelo de jogo pese embora as grandes debilidades do mesmo. Porém, e por muito que tal seja quase inconcebível para muitos dos adeptos do FC Porto, a equipa é hoje mais pobre ao nível do modelo de jogo e da estratégia do que quando era treinada por Julen Lopetegui.

Com o treinador espanhol o futebol praticado era demasiado lento e previsível, a circulação de bola tinha pouca progressão, a tendência (sobretudo na segunda época, sem Óliver) passava demasiado pela procura dos corredores laterais, mas era evidente que a equipa tinha, podendo ser-se mais ou menos apreciador do mesmo, um modelo de jogo bem definido. Atualmente esses princípios praticamente não existem, o futebol praticado pelo FC Porto foca-se sobretudo na garra, nos duelos individuais, na capacidade de Brahimi para desequilibrar no ataque e de Danilo para equilibrar na defesa. O individual sobrepõe-se ao coletivo e assim, de jogo em jogo, o FC Porto vai conseguindo obter resultados que só são possíveis dado o significativo desnível entre os clubes ditos “grandes” e as restantes equipas que alinham no campeonato nacional de futebol.

Foto de capa: Fcabook oficial NES

Francisco Sampaio

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.