Os perigos do deslumbramento

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O regresso da I Liga de futebol trouxe de novo uma enchente ao Estádio do Dragão, e sobretudo teve o condão de trazer o bom futebol de regresso ao palco azul e branco. No meio das 48 000 pessoas que praticamente encheram o anfiteatro portista, admito que não estava à espera de tão bons pormenores e ideias de jogo nesta fase tão prematura da temporada. Antes do início da partida, o primeiro “pormenor” que me fez “saltar da cadeira” foi ver a titularidade de Rúben Neves em detrimento de Casemiro. Admito que não estava à espera de ver o jovem formado no clube portista no onze titular e que a decisão de Lopetegui foi uma boa surpresa. Não sou daqueles “obcecados” pela formação, que acham que todos os anos devem existir nos plantéis meia dúzia de jogadores. Sinceramente, ao olhar para a formação de um plantel, pouco me importa se o jogador é da formação ou se vem do campeonato espanhol, italiano, francês ou alemão. Enquanto adepto, o importante é que época após época, cheguem ao clube jogadores de qualidade reconhecida, que venham acrescentar qualidade ao plantel. Por isso mesmo, não consigo caraterizar o ato de Lopetegui ao colocar Rúben Neves no onze inicial simplesmente como um ato de “coragem”, como se tivesse algo de corajoso colocar na equipa titular um jogador que cumpre nos treinos, nos jogos e que é, neste momento, melhor do que o seu concorrente direto ao lugar, mesmo que ele tenha vindo do campeão europeu.

Quanto à exibição portista, como não podia deixar de ser, teve altos e baixos, e por consequência, houve jogadores que estiveram em melhor plano comparativamente com outros. Quanto a boas surpresas, admito que não estava à espera de um Óliver tão interventivo no jogo ofensivo portista, com constantes trocas de posição com o jogador que para mim foi a figura maior do encontro: Brahimi. De processos simples, sempre privilegiando a progressão no terreno e com um sentido posicional de fazer inveja: tudo isto são qualidades por demais evidentes do argelino, que, ainda assim, parece um “corpo estranho” na equipa. Isto porque tendo em conta o estilo de jogo que Lopetegui quer privilegiar é difícil imaginar o FC Porto com um falso extremo, o que poderá fazer com que o jogo pelas alas não seja tão produtivo. Bem sei que a posse de bola está no centro da ideia de jogo preconizada pelo treinador espanhol, mas tendo em conta as caraterísticas do futebol português, onde as equipas teoricamente mais pequenas colocam muitos jogadores na zona central, o jogo pelas faixas é fundamental. Por isso, não é difícil imaginar que, na grande maioria dos jogos, os portistas precisem de dois extremos puros que derrubem as muralhas defensivas contrárias. Por esta razão, e com Óliver Torres a mostrar-se tão decisivo no jogo ofensivo portista, resta saber se Lopetegui continuará com a colocação do argelino na ala, remetendo Tello para o banco. Ainda assim, e porque Herrera parece ter lugar garantido no onze, torna-se complicado perceber como será possível, tendo em conta as exibições do espanhol e do argelino, retirar um dos dois do onze titular azul e branco.

Jogando a extremo, Brahimi foi o melhor em campo no jogo de estreia do campeonato  Fonte: MSN
Jogando a extremo, Brahimi foi o melhor em campo no jogo de estreia do campeonato
Fonte: MSN

Quanto a exibições menos coloridas, vi um Alex Sandro com uma irregularidade preocupante e um Herrera que continua a definir mal em muitas ocasiões no último terço do terreno. Ainda assim, para primeiro jogo do campeonato, devo admitir que não estava à espera de um futebol tão rendilhado e agradável como o que se viu em muitos momentos na sexta-feira no Dragão. Ainda a precisar de muitos retoques, sobretudo na primeira fase de construção, onde Maicon e Martins Indi necessitam de ser mais práticos a construir jogo, ficou claro que este é um FC Porto que quer dominar, ter bola e sobretudo, tal como diz Lopetegui, ser protagonista.

Esta quarta-feira, na deslocação a Lille, os portistas têm o primeiro teste de fogo, num encontro decisivo para o apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Por isso, e porque o adversário é bem diferente do Marítimo, será preciso um Porto diferente, uma equipa que guarde melhor a bola, que não permita transições ao adversário, e sobretudo que saiba vestir o “fato de macaco” quando o jogo assim o exigir. A exibição contra o Marítimo deve ser vista como sinal positivo, mas não mais do que isso, até porque os madeirenses raramente conseguiram incomodar a baliza de Fabiano Freitas. Contra o Lille, a música será outra e os oponentes também. Por isso, Lopetegui terá como principal desafio levar os jogadores a perceber que o duelo contra os franceses é essencial para o futuro do clube nesta época, sob pena de (quase) tudo se perder em poucos dias. Na eliminatória contra o Lille, dificilmente o FC Porto estará sempre com bola e sempre por cima do jogo. É, então, essencial perceber se figuras como Óliver e Brahimi continuam como figuras de destaque ou mostram ainda inexperiência face à pressão. É que nem sempre se consegue ser protagonista. É bom que Lopetegui entenda isso. Até para o seu futuro.

Redação BnR
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