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A Oprah devia ser sportinguista e gerir o futebol português

Nuno Almeida · 3 min

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Um dos temas mais discutidos internacionalmente é o facto de durante anos e anos muitas mulheres terem sido assediadas por homens, seus superiores hierárquicos, que aproveitando o seu poder associado à posição profissional, conseguiam favores sexuais. Apesar de tudo, elas mantiveram o silêncio, não conseguindo ter a coragem de denunciar todos os abusos que sofriam.

Acontece que, a determinado momento, uma dessas mulheres denunciou o seu caso, o que deu coragem a todas as outras que, ao verem que não eram as únicas com aquele problema, vieram expor algo que até ali as poderia envergonhar ou expor.

Quanto à primeira que tomou a iniciativa, fosse por ter ganho coragem, por não aguentar mais a humilhação, ou porque já não estava dependente daquele homem que a tinha subjugado psicológica e fisicamente, deve ser aplaudida por ter decidido não continuar a ir contra os seus valores e princípios, e ter-se libertado das correntes de medo e vergonha que lhe tinham sido impostas pelo real criminoso.

Bruno de Carvalho foi o primeiro a mostrar provas de "lembranças" a árbitros Fonte: Sporting CP
Bruno de Carvalho foi o primeiro a mostrar provas de “lembranças” a árbitros
Fonte: Sporting CP

Ora, o futebol português vive um pouco sob esse principio. Não quero de forma nenhuma equiparar a gravidade de uma e outra situação, mas o principio de decência, valores, omissão de situações de imposição de uma vontade pelo poder é similar, e ainda estamos à espera que surja o corajoso que se liberte da vergonha de qualquer favor que tenha aceite ou tenha feito, e possa motivar outros a seguir o seu exemplo.

É verdade que o Sporting já tentou motivar alguns a revelarem-se, no entanto não tem o mesmo impacto que o movimento surja de alguém de fora, como seria se surgisse de alguém que estava preso aos jogos de poder e influência. O discurso do Sporting, por muito eloquente que possa ser, nunca terá o mesmo impacto que teve o da Oprah, uma vez que tem a desvantagem de, neste caso, ainda nenhum dos envolvidos ter vindo a terreiro dar a cara, e efectivar que tudo o que já percebemos ter acontecido e continua a acontecer realmente aconteceu.

O futebol português e as suas instituições estão ainda numa fase de negação e fuga para a frente, tentando manter-se quietos e calados com esperança que tudo passe e nada aconteça. E esta é outra grande diferença quanto ao caso que descrevo no início do texto, que é o facto de quem é assediado efectivamente gostar de o ser por não se importar, desde que retire benefícios do mesmo. No fundo, é uma situação win-win que ninguém quer desmontar. E enquanto essa mentalidade não mudar, teremos de continuar à espera de um qualquer corajoso que viu os seus valores, princípios de decência conspurcados dê a cara, ou esperar e ver ruir toda a estrutura do futebol português de uma forma que nem se possa comparar a qualquer bancada dos nossos estádios.

Também neste dia podíamos ter ganho sem jogar? Fonte: geracaobenfica.blogspot.com
Também neste dia podíamos ter ganho sem jogar?
Fonte: geracaobenfica.blogspot.com

No meu caso, preferiria que houvessem corajosos que aceitassem o repto que o Sporting tem vindo a lançar e a tentar manter vivo, porque não me daria gosto nenhum ver desabar um desporto que tanto gosto. O Sporting não faz isto pelos outros, nem tem que fazer porque mesmo eles não o fazem por si mesmos. O Sporting tenta lutar pela sobrevivência do futebol português porque também faz parte dele.

Mas se, ainda assim preferirem deixar o futebol continuar apoiado nestes pilares mal-amanhados, acho que o Sporting deverá ser dos que menos terá que se preocupar, porque continuaremos a ter as vitórias e as alegrias das vitórias de todas as outras modalidades. E como vibrei com as vitórias no atletismo de estrada. Vibrei mais que com o sismo de Arraiolos. E esse tipo de vibração reforça pilares, dos que nos darão garantias que, depois do futebol, o Sporting continuará a existir e a prosperar.

Foto de capa: goalcast.com

Nuno Almeida

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