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Bipolares, somos nós, somos nós…

Nuno Almeida · 7 min

Foto: Sporting CP

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Ora bem, e agora que acabou a nossa participação na Champions e nas competições europeias, já posso perceber o que correu mal.

Sim, agora que acabou vai ser muito mais fácil perceber o que poderia ter sido feito de diferente. Sim, agora é fácil. Difícil é decidir antes de tudo acontecer, antes de saber que aquela vai ser a melhor táctica, ou aquele vai ser o melhor jogo para jogar determinado jogador, ou aquele jogador não pode jogar porque vai falhar de baliza aberta. É por isto que os grandes comentadores desportivos nunca seriam grandes treinadores, nem sequer têm essa ambição por saberem que não têm os skills, senão os de avaliar e criticar as decisões de outros.

Digo isto dos comentadores, posso dizê-lo também do comum adepto que tem agora o poder de se fazer ouvir por muita gente, tendo unicamente de vir escrever algo para uns amigos, que por sua vez os partilham com mais amigos, e de uma forma exponencial se faz ouvir por umas centenas ou milhares. Eu também o faço, e não critico a situação, simplesmente estou a constatá-la. Pois bem, concentrando-me nos adeptos sportinguistas, devo dizer que se pode chegar a uma de duas hipóteses. Ou estes adeptos são bipolares, ou simplesmente os que criticam só aparecem nos momentos menos bons.

Passo a explicar. Desde o início da época, a equipa do Sporting teve alguns percalços que permitiram o distanciamento da equipa que se encontra no primeiro lugar, e aí começaram a aparecer os agoirentos, dizendo que nunca mais conseguiríamos chegar ao primeiro lugar, e em cada novo empate surgiam manifestações digitais contra equipa, treinador e/ou presidente, querendo  despedir  toda a gente (seria uma bela continha pagar as cláusulas dos contratos de toda esta gente).

No fim de semana passado, como que por milagre (diriam os tais agoirentos que tinham a certeza que nunca mais teríamos hipótese de lutar pelo título) ficámos com o primeiro lugar ao alcance.  Então, logo após a nossa vitória contra o Vitória de Setúbal, aparece uma nova manifestação de euforia, de louvor a tudo e todos, a uma equipa que passava a ter agora o melhor treinador do mundo, uma equipa recheada de jogadores candidatos a bolas de ouro… e um presidente que tinha tudo para ser o maior, até a ganhar processos atrás de processos que lhe vão sendo interpostos.

Tudo parecia agora novamente um mar de rosas, em que nada tem defeito ou algo a apontar. O problema é que isso não existe, e muito menos numa equipa constituída por seres humanos cujso desempenhos físico e psicológico podem ser  influenciados por vários tipos de situações. O treinador não está interessado na Liga Europa, e os jogadores perceberam isso. O próprio presidente já tinha dito que, primeiro teremos que consolidar-nos internamente, depois conseguir jogar competições europeias – Liga Europa primeiro, Champions depois – e como sabemos ainda não estamos consolidados internamente, o que será prioridade dos dois para já.

Ora bem, quem acompanhe minimamente o futebol, e possa ver de uma forma racional as possibilidades, poderia perceber que o Sporting tem melhor equipa que o Légia, porque tem jogadores com mais qualidade técnica, só que o jogo ia ser disputado num campo quase gelado (percebeu-se pelas várias quedas e escorregadelas), isto consequência do tempo frio que se fazia sentir. Estas condições atmosféricas, para quem não joga e treina diariamente  adaptado às mesmas, podem cansar um jogador mais rapidamente, porque esses atletas sentem até dificuldade em respirar esse tipo de ar gelado (vão lá fazer uma corrida de 1 ou 2 quilómetros na Serra da Estrela com um habitante que viva lá, e veremos quem se aguenta mais). Juntando a isso o facto de estar do outro lado um conjunto de adversários mais fortes e pesados, o que é uma vantagem neste tipo de tempo e relvado. Ou seja, com o relvado gelado e escorregadio, a vantagem é para quem gera mais pressão no chão, e consequentemente reacção mais rápida para recuperar bola.

A equipa do Sporting CP precisa agora de ter foco total no campeonato e Taça de Portugal Fonte: Sporting CP
A equipa do Sporting CP precisa agora de ter foco total no campeonato e Taça de Portugal
Fonte: Sporting CP

Isto percebeu-se e notou-se mais até ao golo do Légia, em que os seus jogadores chegavam sempre primeiro à bola, e conseguiam pressionar alto os jogadores do Sporting. Ora, os jogadores portugueses, em constante choque com adversários bem mais fortes e o cansaço criado pelo ar frio, tornou os jogadores e o jogo dos leões mais lento. Também sei que a táctica dos três centrais talvez não tenha sido a melhor opção para este jogo (sei-o agora que se confirmou pelo resultado, JJ não teve essa vantagem), mas entendo-a pelo facto desta equipa polaca ter marcado três golos ao Real Madrid e quatro ao Dortmund. Essa mesma táctica, que agora vejo tão criticada pelos adeptos, quando utilizada contra o Dortmund já era considerada por muitos a mais indicada para a maioria dos jogos que o Sporting ainda iria disputar (lá está a bipolaridade).

Mas mais que esta bipolaridade, o que me incomodou foi ver adeptos do Sporting escrever coisas como “é por coisas assim que somos gozados”. Mas que raio de argumento ou demonstração de amor ao clube é esta? E a esses digo que quem se rege pelo que os outros pensam, é porque não acredita em si e nas suas convicções. Pois se não estão convictos de terem escolhido o clube indicado para apoiar e defender, já sabem que têm toda a liberdade de mudar de clube, de convicções, do que quiserem. Ninguém os prende. E já agora, para os que levam com os dos outros clubes nestes momentos, é porque também já foram autores de acções idênticas (pelo menos a maioria, porque parvos há em todo o lado).

Vi também alguns a quererem organizar-se para fazerem uma espera aos jogadores, e tenho a certeza que pelos menos os vinte ou trinta do costume lá vão aparecer, de cara tapada aos gritos e a fugir da polícia para aparecer no dia seguinte em todos os jornais e noticiários como os representantes da vontade e método do universo leonino. Não os critico, porque de certeza que é convicção desses que será a melhor forma de motivar os seus jogadores a lutarem e correrem mais no próximo jogo. Mas antes de tentarem desestabilizar ainda mais os jogadores que, com certeza, já vêm insatisfeitos pelo que não conseguiram fazer, pensem que ainda andam a chorar a perda do último campeonato por um jogo idêntico ao que vai ser disputado no próximo domingo.

Mas agora, se pudesse falar directamente para os jogadores, só diria que não ligassem muito às críticas sobre este jogo, porque esses mesmos vinte ou trinta estarão misturados na avalanche que os costuma receber em festa nas chegadas aos estádios, e eu nem com essas concordo. Não quero vir justificar uma derrota que custou a todos os adeptos do Sporting, mas não quero também ver um trabalho que tem sido bem feito, pelo menos comparado com o que foi feito nos últimos quinze anos, por um mau resultado no meio de uma recuperação que se poderá materializar no próximo jogo do campeonato.

O que quero dizer é que, para termos legitimidade de criticar o que está a ser feito por esta equipa e direcção, nunca deveríamos ter deixado entrar no clube muitos outros que por lá andaram a destruir e a minar. O problema é que também aí não o podíamos prever, apesar de agora facilmente percebermos que errámos em deixá-los lá entrar e ficar durante tantos anos. E por falar nisso, surgiu-me uma ideia há uns tempos, sobre um senhor que andou pelos corredores de Alvalade, que até foi bastante elogiado por tentar combater o sistema instalado. É que, ao vê-lo agora a criticar o actual Sporting e a jantar com presidentes rivais, só me leva a pensar que foi mais um fantoche usado para ajudar a derrotar um sistema e criar o actual. E agora que, como tudo na vida, tudo passa, e os objectivos se têm de reconfigurar devido às circunstâncias, só quero ter os jogadores da minha equipa totalmente concentrados e motivados a lutar pela vitória em todos os próximos jogos. E de certeza que não o conseguirão com pedidos de despedimento ou esperas.

Esperemos voltar a ver o festejo de Bryan na Luz Fonte: Sporting CP
Esperemos voltar a ver o festejo de Bryan na Luz
Fonte: Sporting CP

Para terminar, e porque nunca se pode tentar justificar uma derrota sem falar de árbitros, devo dizer que, mais uma vez, um artista da UEFA decidiu fechar os olhos a dois cortes com a mão no mesmo lance. Ele viu-as, mas não as quis assinalar. A culpa certamente não é dele, porque já outros colegas nos eliminaram em anos anteriores com situações semelhantes, e por isso não o culpo. Mas costuma-se dizer que as coincidências não existem, e não me parece coincidência estes lances nunca serem assinalados, e em todos os casos terem sido decisivos. Por tudo isto, sempre apoiei e desejo que se torne mais efectiva a manifestação de insatisfação dos adeptos do Sporting sempre que toca o hino da Champions. Não podemos assobiar o hino da Liga Europa porque não toca, essa grande competição, de prestígio internacional.

Diria mais: se o clube não sofresse consequências graves (é o problema de não termos alternativas), nem me incomodaria que o Sporting se recusasse a jogar competições da UEFA. Quero lá saber de prestigio internacional. Quero é que respeitem o meu clube, e essa instituição não o faz. Se estamos a colaborar com uma instituição que prefere reger-se por interesses políticos e financeiros, e não defende valores com que o nosso clube se rege, então não tem lógica pertencermos à mesma. Aguardo ansiosamente que surja uma alternativa, e o Sporting se associe à mesma.

Foto de capa: Sporting Clube de Portugal

Nuno Almeida

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