Escolhi díficil. O fácil é de todos

O primeiro mandamento – e o mais importante, portanto – é que o futebol é um jogo colectivo e essa deve ser sempre a primeira preocupação: o colectivo. O todo tem de ser invariavelmente maior e mais importante do que a soma ou qualquer uma das partes. E este exercício de hierarquias em que o todo se sobrepõe às partes é fácil de se fazer: no dia em que o colectivo se sente incomodado ou, pior, injustiçado, é hora de repensar a forma como se tratou uma ou mais individualidades. Para evitar esse (grande) problema existe uma medida simples, tratar todos de acordo com um conjunto de regras aceites e iguais para todos… a que também se chama regulamento interno.

Posto isto, há a esclarecer e sublinhar o perigo de qualquer tipo de seguidismo. Bruno de Carvalho tem feito, de forma geral, um trabalho muito positivo mas isso não lhe confere um estatuto que lhe permita deixar de ser posto em causa… sempre que assim se justifique. O que mais importa em qualquer tipo de comunidade é saber que debater ideias é sempre mais proveitoso do que debater pessoas. Assim devem fazer os Sportinguistas.

Na última semana, tem-se assistido na praça pública a dois casos internos em que se encontram dois mundialistas no epicentro da questão. Duas individualidades, leia-se. Slimani e Rojo são dois casos com muito em comum mas ainda assim distintos em pontos suficientes para que se avaliem de forma separada.

Slimani, ao que indica, pretende sair ou ver o contrato revisto de acordo com aquilo que lhe foi oferecido noutro clube. Acredito que, pelo estatuto com que chegou no ano passado, o argelino não tenha um salário de acordo com a importância que mostrou ter na época anterior. Mesmo tendo noção de que a revisão salarial é normal no futebol quando os jogadores o justificam, o avançado assinou o actual contrato de livre e espontânea vontade e por isso não está no direito de desrespeitar os regulamentos e, por consequência, o grupo com que trabalha. O todo, portanto. 

Tendo em conta as características do jogador e o modelo de jogo que Marco Silva pretende implementar no clube, tenho sérias dúvidas de que Slimani fosse assumir a preponderância que tantos lhe atribuem. O 9 do Sporting é um jogador muito bom naquilo em que é forte mas muito limitado em tudo o resto. Forte no ar, no contacto, nas bolas divididas e razoável a segurar entre os centrais e a finalizar com os pés. Banal em tudo o resto: apoios frontais, tabelas, capacidade de servir os colegas, progressão com bola, drible, procura de espaços na profundidade. É um ponta-de-lança que assenta num futebol de muitos cruzamentos, de chuveirinho, como era o de Leonardo Jardim a partir dos 70 e poucos minutos quando os jogos não estavam desbloqueados. Admito que nesse contexto pode vir a fazer falta. Mas se o Sporting estiver neste contexto muitas vezes, dificilmente lutará pelo título. Será sinal de que colectivamente não foi capaz de ultrapassar os adversários e precisou de recorrer ao recurso para os resolver. Com o dinheiro que se encaixaria com a venda de Slimani, encontrar-se-ia outro avançado com características mais úteis ao modelo de Marco Silva. Solução: não abrir uma excepção a uma individualidade e refortalecer o todo com um exemplo forte.

Rojo e Slimani são dois jogadores que não podem ser postos à frente do grupo  Fonte: chuto.pt
Rojo e Slimani são dois jogadores que não podem ser postos à frente do grupo
Fonte: chuto.pt

Marcos Rojo, por outro lado, é um indiscutível há dois anos e em 2013/2014 fez uma época muitíssimo boa. A juntar a isso tem a desvantagem de quase nada render monetariamente com a sua venda, dada a diminuta percentagem do passe que o clube detém e ainda uma outra percentagem do lucro que se deve ao Spartak. Por fim, a saída de Dier torna a presumível saída de Rojo ainda mais preocupante. Por tudo isto e porque o jogador se mostrou sempre correcto nos anos de Sporting, sendo inclusive um daqueles em que mais se sentia a garra e vontade de lutar pela camisola verde-e-branca, a melhor solução passaria sempre por uma reconciliação. Mas esta só deve acontecer se o jogador tiver noção de que errou na forma como pressionou para a saída, sob pena de perder o todo em detrimento de uma individualidade. Neste caso é importante perceber que em questão não está apenas dinheiro: o argentino “só” mostrou uma atitude incorrecta quando surgiu uma proposta de 20 milhões de euros do Manchester United. Ou seja, o central só quis sair quando um clube de topo apresentou uma boa proposta ao Sporting. 

De forma a finalizar toda esta questão do todo e das individualidades, nada melhor do que recorrer à história para verificar a sua veracidade. A melhor equipa do presente século – se não de toda a história – foi o Barcelona de Guardiola… cuja primeira medida foi dispensar Ronaldinho, Deco e Eto’o (embora este último só tenha saído no final da época por razões distintas), três das principais estrelas do conjunto catalão. No entanto, três individualidades que na opinião de Guardiola colocavam o conjunto em risco. Os resultados são conhecidos por todos. Com as devidas distâncias ressalvadas, aqui não está em questão mais do que o primeiro mandamento do futebol, por que comecei a falar neste artigo.

Bruno de Carvalho, com a entrevista que deu ontem, mostrou ser aquilo que tanto faltou ao Sporting e que falta um pouco por todo o universo futebolístico: um dirigente que percebe como se vive no futebol! Mostrou, pelo menos, que sabe que se o primeiro mandamento do futebol for violado todos os restantes são completamente irrelevantes.

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