Chegou ao fim a era “Marcel Keizer” no Sporting Clube de Portugal. A SAD verde e branca e o treinador holandês chegaram a um acordo para a rescisão do contrato de trabalho que o prendia à estrutura de Alvalade desde a época transata. Esta saída é a segunda chicotada psicológica esta temporada no principal escalão do futebol nacional, depois de Filó ter abandonado o Paços de Ferreira ainda esta semana.

Keizer foi sempre Keizer e isso tanto deu para o bem como para o mal. Do lado do bem, esteve a injeção na equipa de alguns princípios táticos que eram verdadeiros oásis no futebol luso, uma autêntica lição e interpretação do que deve ser o mágico “triângulo na posse de bola”, a base onde assentam grande parte dos princípios da escola holandesa de Cruyff, que nos valeu as goleadas surpreendentes na sua primeira fase ao comando da equipa e que, aliada às exibições de encher o olho, deixavam-nos felizes por finalmente termos encontrado um treinador “à Sporting”. Convém não esquecer isto, principalmente na altura do adeus.

Este estilo abanava fortemente com a mentalidade enfadonha do seu antecessor, José Peseiro, sempre muito sóbrio e pouco ligado a um futebol de risco. Contudo, este futebol vertiginoso de Keizer durou pouco: ao longo do tempo, o holandês foi sentindo e percebendo que o futebol marcadamente ofensivo que queria implementar em Alvalade não era compaginável nem com os jogadores que comandava, nem com a estrutura, muito menos com a generalidade das mentalidades táticas enraizadas na maior parte das equipas portuguesas.

A insegurança de alguns jogadores, particularmente dos centrais, levava a que este futebol atacante rapidamente caísse num precipício sem fim, transformando-se numa autêntica avalanche de desgraças. E, neste particular, foram particularmente penosas as goleadas diante do SL Benfica em casa ainda na época passada por quatro bolas a duas e, mais recente e mais vida na memória dos adeptos, a última por cinco bolas a zero diante do mesmo rival para a Supertaça. É que nos adeptos leoninos perder jogos contra o Benfica é e sempre será o indicador mais refinado de analisar a segurança de um treinador. Os adeptos, pura e simplesmente, toleraram sempre muito pouco as derrotas diante dos encarnados e, quanto a goleadas e humilhações, quando acontecem, então a linha vermelha, literalmente vermelha, é claramente ultrapassada.

Chegou ao fim o tempo de Marcel Keizer no Sporting Clube de Portugal
Fonte: Sporting CP

Foi assim que o desaire em Alvalade diante do Rio Ave para a Liga NOS representou a gota de água num copo que há muito vinha a ficar cheio de água. Os adeptos, comentadores e até eventualmente a própria Direção do clube começaram a não perceber a razão, por exemplo, do holandês se socorrer, em certos jogos, de um sistema tático de três centrais quando durante toda a pré-temporada jogou praticamente todos os jogos em 4x4x2. O 3x4x3 era um modelo que carecia de maior afinação na máquina.

Além disso, se o estilo pacífico de Keizer perante as vitórias transmitiam confiança aos jogadores e adeptos, o mesmo não se podia dizer quando a sua calma se verificava perante derrotas e goleadas da equipa. Foi sendo difícil engolir a paciência platónica de Keizer quando tudo parecia estar descontrolado em campo e quando os jogadores mostravam clara apatia e desnorte. Exigia-se uma sacudidela na mentalidade dos jogadores – um berro para dentro do campo, caramba! – e não aquela paciência nórdica que tanto o caracterizava, que nos foi irritando profundamente e que lhe cavou a sepultura em Alvalade.

Em jeito de síntese, recordo-me que o primeiro jogo de Keizer ao leme do Sporting para o campeonato foi diante do Rio Ave, no Estádio dos Arcos. Estive lá com o meu cachecol a apoiar a equipa, querendo ver com os meus olhos aquilo que as exibições europeias do Leão mostravam pelas televisões: um Sporting goleador e de inclinação claramente ofensiva. Ganhámos por três um, com um dos golos a ser marcado por Jovane Cabral – uma bomba! – sendo posteriormente considerado o melhor golo da Liga NOS da época passada.

Jornadas mais tarde, fiz o rescaldo aqui para o Bola na Rede da deslocação do Sporting ao D. Afonso Henriques para defrontar o Vitória SC, num jogo que quebrou a veia goleadora e vencedora de Keizer. Agora, meses depois, e já com a temporada 2019-2020 a iniciar-se, estou a escrever o texto de despedida do holandês do Sporting. Entre estes três momentos fui destacando os perigos que o jogo keizeriano ia demonstrando, nomeadamente nas dificuldades da equipa em, atingir um equilíbrio técnico-tático que segurasse o carro nas alturas de maior aceleração e velocidade. Hoje, o carro, despistou-se e todos dizemos “Bye, bye, Mr. Keizer”.

Nota final: Numa altura em que se fala da importância do Sporting olhar para a formação no que aos jogadores diz respeito, talvez também esteja na altura de olhar para o treinador dos sub-23, Leonel Pontes, e da enorme eficácia que tem mostrado ao leme deste escalão da estrutura de futebol dos Leões. Quem sabe se não estará, também aí, um talento escondido.

Foto de Capa: Sporting CP

Revisto por: Jorge Neves

Comentários