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Meu caro Amigo,

Apetece-me, antes de tudo, começar esta carta com uma gracinha, até porque tenho esse direito. Se reparares, na língua deste país que já te acolheu duas vezes, o teu primeiro nome rima com a palavra “azar”, facto que não posso deixar impune neste momento, devendo fazer-lhe o devido reconhecimento.

Estava eu em conjunto com a maioria dos Sportinguistas longe de perspetivar, no entanto, que essa palavra falsa e feia acabaria por determinar a tua passagem por Alvalade, desde logo porque nos surgiste em modo surpresa, ao cair do pano das transferências, exaltando ainda mais os ânimos e levando-nos mais uma vez a pensar que este ano, meu caro, seria “o ano”. Provar do teu veneno não fora agradável. Grande golo, diga-se. Foram instantes como aqueles que ilibavam as dúvidas e que te retiravam o espectro da incógnita que costuma acompanhar os reforços. Nesse dia de Agosto estávamos nós, então, satisfeitos com a tua vinda enquanto aqueles que festejaram contigo no passado fingiam não estar preocupados. Ninguém merece aquilo que te fizeram em Inglaterra, que é o pior que se pode fazer a alguém como tu, que vive para atacar a baliza do adversário e não para evitar que cheguem à sua, e quem sabe se não terá sido essa ressaca de infelicidade táctica que te foi tirando o jeito.

Bem sei que não é fácil correr atrás da forma quando a equipa não está bem, e que por isso também não é justo condenar-te pelo falhanço de uma missão quase impossível. Ainda assim agradeço-te; sei que vieste muito por culpa do nosso Treinador, que, segundo os jornais, falou contigo numa ocasião informal no Ritz. Deixa-me adivinhar o diálogo: ele disse-te que caso viesses voltarias ao topo, que isso em circunstâncias normais seria canja para ti e que o lugar no onze estava ali mesmo ao lado. Pois, eu disse-te que adivinhava. Deixa-me reforçar mais uma vez o agradecimento por teres vestido a camisola mais bonita de Portugal. Só um ingénuo não acredita que o Liverpool facilmente te colocaria a rodar num qualquer outro recanto da Europa, mas tu preferiste o nosso Sporting. O Treinador ajudou, eu sei, e o conforto nestas coisas também conta.

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Markovic já veste a camisola do Hull City, treinado pelo português Marco Silva Fonte: Hull Tigers
Markovic já veste a camisola do Hull City, treinado pelo português Marco Silva
Fonte: Hull Tigers

Porém retenho a tua coragem, essa interessa-me neste momento, já que não temeste os insultos e a pressão. O caminho mais difícil às vezes é só para Heróis, e aquele que te calhou agora não é menos afável. Parece-me que mais uma vez a palavra de Treinador te foi fundamental, o que só vem provar o teu circunstancialismo emocional. Mais do que para qualquer outra coisa, esta carta serve para te desejar a melhor das sortes. Sem rancores ou recordações de amargura, assuma-se que as coisas não correram bem, mas que essa razão não elimina a existência do jogador tremendo que ainda és, mesmo que a tua passagem por Alvalade apenas seja recordada no leque episódico do historial que une os dois grandes da capital.

À parte de tudo isto, relembrar-te que tens 22 anos e que, ao contrário daquilo que vão dizendo, não pode haver sentenças definitivas quando ainda se tem a carreira no início. Não te posso dar muitos conselhos porque sinceramente não os sei para o efeito. Só espero que continues a persistir para que no próximo ano estejas nesse campeonato terrível a lutar para ser campeão e não para permanecer na divisão. Caso as coisas não corram bem de novo, talvez o truque esteja em jogar num país cujo idioma permita rimar o teu primeiro nome com a palavra sorte.

Foto de capa: Sporting Clube de Portugal