Antes de mais, o que aqui vou descrever nunca será por apoiar qualquer tipo de violência, mas apenas para comparar duas formas de comportamento completamente diferentes para situações similares. Todos se lembrarão de uma invasão que aconteceu nas instalações de Alcochete em que houve violência verbal e física, e em que um dos jogadores ficou ferido na cabeça com um corte. O resultado disso foi um aparato mediático que levou alguma comunicação social a fazer programação de 24 horas com debates constantes sobre o tema, chegando a ser comentado e repudiado por Presidente da República, primeiro-ministro e Presidente da Assembleia da Républica.

Consequentemente os adeptos e sócios do Sporting CP vieram a terreiro pedir a cabeça do presidente. E não me digam que foram só 200 ou 300 porque depois desses houve uma Assembleia que resultou em destituição e que não terá resultado apenas dos votos desse grupo.

Ora, há uns dias atrás alguns adeptos que não são afetos ao clube em questão – porque eles dizem (talvez até tenham sido adeptos do Sporting CP) – atacaram o autocarro que transportava a equipa levando a que dois jogadores ficassem feridos. Será fácil perceber que enviar contra um veículo que hipoteticamente fosse a 50km/h, transformaria qualquer pedra num projéctil potencialmente mortal. Então onde se enquadrará mais o cenário de terrorismo/tentativa de assassinato?

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Mas vendo bem, quando toca a determinadas cores, qualquer atropelamento, facada ou outro tipo de violência são relativizados, sendo em último caso imputada culpa à vítima, “que se pôs a jeito”.

Já os sócios e adeptos do clube vieram imediatamente condenar os energúmenos que atacaram a equipa, elevando o nome do presidente por não reconhecer as claques. Daqui podemos tirar a lição de que por cá, o melhor é manter as coisas numa zona de “lusco fusco”, em que qualquer situação se possa enquadrar e seja defensável. Não está dentro da lei? Se calhar também não fere a lei, dependendo da qualidade argumentativa.

Quanto às ameaças em casa dos jogadores, será mais ou menos grave que no local de trabalho como aconteceu em Alcochete? Os dois casos são graves, mas se tivermos que quantificar, e sendo que estão a colocar e risco não só o jogador mas também as famílias, parece mais grave o caso desta semana.

Mesmo assim, em vez de deixarem comunicados colectivos contra o presidente, os jogadores feridos vieram apenas dividir as águas, ou separar o trigo do joio, dizendo que quem os atacou não pode ser considerado adepto do clube, mostrando total apoio à instituição que lhes paga o salário. O que poderá isto ensinar a alguns jogadores que aproveitaram uma situação semelhante para rescindir com o clube que os formou e pagou ordenado durante anos?

A verdade é que neste caso uma mensagem de repúdio resolve a situação, enquanto que por outros lados já teriam rolado cabeças – ah não, espera, isso era se fosse o Bruno de Carvalho na presidência.

Esta situação serve pelo menos para mostrar o tipo de militância entre os adeptos do nosso clube e de outros. Somos os mais fervorosos, que seguem o clube onde e como for? Somos. Mas somos também os mais voláteis. Passamos do 8 ao 80 em menos de nada. E também por isso o nosso clube se torna ingovernável. É o tipo de relação de amor impulsivo e louco que fica no limiar da obsessão e ódio.

Eu não quero vir reclamar que este caso seja tratado como foi o de Alcochete. Eu queria era que o caso de Alcochete tivesse sido encarado como este está a ser.

A culpa de estarmos como estamos não é só deste ou daquele. É do presidente sim, que poderia ter gerido a situação de outra forma (mas que com outros presidentes em outros clubes, parece resultar), é dos jogadores que aproveitaram uma situação que acontece em muitos outros clubes para conseguir sair para campeonatos mais competitivos sem qualquer contrapartida para o seu clube de coração (dei aqui uma gargalhada, desculpem), é também dos adeptos que não tinham que ir a Alcochete (apesar de outros o fazerem sem que haja este tipo de mediatismo, mas se queremos ser diferentes temos que nos portar como tal), e dos sócios que se deixaram levar pela lavagem cerebral da comunicação social. A comunicação social não terá culpa porque só foi paga para fazer aquele papel.

Só para fazer mais uma comparação, parece que o presidente também exigiu empenho aos jogadores e ao treinador. Como não foi no Facebook talvez se safe sem uma assembleia destitutiva. Porque o do Sporting CP foi destituído por causa dos posts de Facebook, certo? Não teve nada a ver com Alcochete, certo?

Somos diferentes? Deve ser por isso que somos tratados de forma diferente até nestes casos. Se calhar a culpa é nossa.

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