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Coentrão, o linguisticamente incorreto

Simão Mata · 4 min

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Advertência inicial: Este texto não pretende ser uma justificação de nenhum ato linguístico ou não linguístico que tenha ofendido quem quer que seja. Pretende apenas lançar a reflexão sobre o papel dogmático e algo desmesurado da “linguagem correta” e do “bem falar” nas questões que dizem respeito ao estigma e ao preconceito, algo que, como todos deveríamos saber, vai muito além das palavras ditas.

Vivemos tempos em que o politicamente correto se converteu numa espécie de dogma que invade as nossas vidas a toda a hora e momento. E a mim, que sempre convivi mal com dogmas e verdades absolutas, pensar que há coisas sobre as quais não posso discutir dá-me azia e má-disposição. Uma das formas em que se exerce esse “politicamente correto” tem sido por via da linguagem, ou, melhor dito, pelo uso da palavra. À custa dessa ditadura do polimento das palavras que hoje vivemos, não podemos dizer palavrões nem jargões de qualquer espécie. Isso pode até dar jeito aos pais e educadores em relação às crianças. Acredito que aí tenha uma grande utilidade. Mas no que ao mundo adulto diz respeito, esse “polimento” pode esconder algo de mais profundo, como se sob a aparência ou o manto dessa linguagem limpinha, limpinha, limpinha sobre o que se diz sobre algo ou alguém, se escondesse a cólera e o ódio que se nutre nas nossas profundezas. Mas em vez de olharmos para esses sentimentos vis que se ocultam, ficamo-nos pela crosta: a linguagem, aquilo que dizemos e, por consequência, aquilo que ouvimos.

Querem exemplos do “politicamente correto” na linguagem? Hoje não podemos dizer “prostituta(o)” mas sim “trabalhador(a) do sexo” porque a palavra anterior era instigadora de estigma; não podemos dizer “toxicodependente” mas sim “pessoa utilizadora de drogas”, pois isso inflige uma ferida deveras profunda a quem tem problemas com drogas; não podemos dizer “doente mental” mas sim “pessoa portadora de doença mental” pela mesma ordem de razão. Se me querer alongar neste assunto – pois dava todo ele uma crónica, peça de investigação jornalística ou dissertação académica – também ouvi por aí uns zuns zuns acerca de criminalizar os “piropos”. A pureza da linguagem, a pretexto da “defesa da dignidade humana” vai a este ponto, vejam lá ao que chegámos.

Em todos estes exemplos mudamos a linguagem, mas será que operámos uma mudança na forma como sentimos e percecionamos o problema das prostitutas, dos toxicodependentes e dos doentes mentais? Como estão organizadas as respostas sociais para fazer face aos desafios dos toxicodependentes e dos doentes mentais? Mudam-se os nomes, ficam-se as vontades…

Depois do sucedido com o jogador Moussa Marega do FC do Porto nas Meias-Finais da Taça da Liga, Fábio Coentrão partilhou na sua conta oficial do Facebook uma fotografia abraçado ao “negro” William Carvalho Fonte: Facebook oficial de Fábio Coentrão
Depois do sucedido com Moussa Marega do FC Porto na Taça da Liga, Fábio Coentrão partilhou na sua conta oficial do Facebook uma fotografia abraçado ao “negro” William Carvalho
Fonte: Facebook oficial de Fábio Coentrão

Este relambório todo sobre a linguagem, bem como os seus efeitos e defeitos seria escusado se não estivesse em causa o facto do jogador do Sporting CP Fábio Coentrão ter chamado “Preto do Car****” ao jogador do FC Porto Moussa Marega no jogo das meias-finais da Taça da Liga em Braga. As câmaras apanharam o mover de lábios do caxineiro e pumba! – eis que caiu o Carmo e a Trindade nos jornais, rádios e televisões.

O FC do Porto deu logo um “ar da sua graça” ante tamanho insulto de Coentrão ao seu jogador maliano Moussa Marega. Escreveram assim na edição do passado dia 26 de janeiro de 2018 do Dragões Diário: “O tema é de 1993, mas Fábio Coentrão fez questão de o tornar atual enquanto se dirigia a Moussa Marega nestes termos (remetem para link), durante o Sporting-FC Porto de quarta-feira. Gabriel o Pensador sugere e interpreta “Lavagem Cerebral” (remetem para link), uma espécie de técnica psicológica em verso para mudar crenças e comportamentos, com a punchline “racismo é burrice” a dominar o refrão.”

Ora, estas declarações, vindas de um grande clube como é o FC Porto e para quem está tão preocupado com a linguagem usada pelo caxineiro, incorrem no mesmo registo (para eles tão difamatório) que o jogador do Sporting realizou quando chamou “Preto do Ca****” a Marega. Como? Dizem o seguinte mais à frente dessa edição do Dragões Diário: “Mas se o tratamento e a oxigenação for exterior, aplicados apenas por fora, como parece ser o caso, então aí a música é outra, apesar de igualmente célebre do mesmo rapper e compositor. Sim, é “Lôraburra” (remete para link)”.

Mas a questão parece ter ficado em saber se o Carmo e a Trindade caíram pela palavra “Preto” ou pelo jargão “Car****”. Mas, de uma maneira ou de outra, estamos perante uma encenação através da linguagem: o que ele disse é mais importante do que aquilo que ele fez ou faz. Culpamos o jogador do Sporting por dizer aquilo a Marega quando no Futebol só ouvimos – quer das bancadas, quer de todos os intervenientes do jogo – palavras esbeltas, espúrias e do mais fervoroso requinte linguístico que alguma vez se produziu à face da Terra. Os estádios são, não hajam dúvidas, os santuários plenos da palavra, anfiteatros da palavra bem-dita, dos bem-comportados e dos bem-falantes.

Estou certo que enquanto perdurar esta política do “bem-falante” nos estádios, no futebol, na política, na academia, nas escolas, estamos a ocultar os nossos sentimentos mais hostis e vis, sob o manto da aparência e da capa dos “bons costumes”, das “boas maneiras” e das “boas linguagens”. Um dia, se a moda pega, teremos música clássica nos estádios de futebol e seremos obrigados a ir de fato e gravata ver o “desfile dos cisnes” enquanto soltamos risadas tímidas e dizemos coisas como por exemplo “que esbelto movimento daquele atleta” , “estou entusiasmado com a performance daquele jogador” ou ainda “que pouca educação tem aquele atleta”.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

artigo revisto por: Ana Ferreira

Simão Mata

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