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Ensaio sobre mais uma cegueira?

Xavier Costa · 4 min

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Os ventos sopravam todos a favor de Francisco Geraldes, depois de um empréstimo bem sucedido no Moreirense, onde venceu a Taça da Liga e se afirmou como um valor emergente, seguiu-se o Rio Ave, onde o criativo encontrou o contexto perfeito para exponenciar o seu crescimento.

Miguel Cardoso implementou uma ideia de jogo arrojada e ofensiva, na qual Geraldes encaixou que nem uma luva e acabou por se tornar numa das figuras de proa da formação, que logrou um sensacional quinto lugar no campeonato. Chico Geraldes explanou todas as suas já reconhecidas qualidades, demonstrando ainda uma regularidade exibicional assinalável.

Desta forma, o criativo acabou a época em Vila do Conde com números impressionantes: somou 38 jogos (33 como titular), marcou quatro golos e fez onze assistências. Acima dos números, o que sobressaiu no jogar de Geraldes foi a sua forma de tratar a bola e a sua inteligência também sem ela.

A sua fantasia e criatividade aliadas a uma tomada de decisão acima da média tornaram o médio num dos principais motores do carrossel ofensivo, montado por Miguel Cardoso, que impressionou Portugal.

Geraldes tornou-se uma peça fulcral para Miguel Cardoso
Fonte: Rio Ave Futebol Clube

Como consequência, Francisco Geraldes regressou à casa-mãe, que por sua vez estava mergulhada numa crise com a qual perdeu vários dos seus ativos mais importantes, escancarando ainda mais as portas do plantel principal para o jovem criativo.

Além disso, o jogador formado na Academia aproveitou os particulares realizados em solo helvético para se tornar num dos nomes em maior destaque já com a verde e branca vestida. Tudo indicava que Francisco Geraldes iria ter a sua verdadeira oportunidade e finalmente integraria a formação principal do Sporting CP para 2018/19. No entanto, o jovem médio acabou emprestado ao Eintracht Frankfurt e a surpresa foi geral.

Ficou a ideia, posteriormente confirmada por José Peseiro, de que Chico Geraldes sentiu que não ia ter os minutos de jogo que ambicionava e acabou por tomar a decisão de sair. Mas será que a estrutura leonina não podia ter feito mais para manter o criativo no plantel?

Aliciando Geraldes não só com uma preponderância maior na equipa mas também com uma melhoria merecida de contrato adequada ao patamar de desenvolvimento em que se encontra, desta forma, talvez Geraldes se sentisse mais reconhecido e importante no seio da equipa mas a estrutura de Alvalade voltou a desviar o olhar e mais uma vez optou-se pela saída como solução mais fácil. Cada vez mais, o talentoso médio tende a tornar-se uma espécie de génio incompreendido em Alvalade…

Outro dos motivos para este desfecho pode ter sido o regresso de Bruno Fernandes, com a chegada do melhor jogador do campeonato passado, a titularidade para Geraldes complicou-se mas, ainda assim, a pérola formada em Alcochete poderia ser uma mais valia para os leões.

Tendo em conta o desenho tático ao qual Peseiro tem dado primazia, um 4-2-3-1 bem definido, o Sporting CP, neste momento, conta unicamente com um médio de características mais ofensivas capaz de ligar o meio campo e o ataque, com capacidade de fazer a diferença entre linhas e que se sinta como “peixe na água” a jogar por dentro da estrutura do adversário. Na época passada foi evidente a dependência da equipa leonina em Bruno Fernandes e agora com Geraldes nas fileiras, o jovem médio podia muito bem ser uma alternativa válida para assumir a batuta das manobras ofensivas quando necessário.

Aliás, Francisco Geraldes até poderia ser compatível no onze titular com Bruno Fernandes, jogando este último como “oito” tal como fez com Jorge Jesus diversas vezes. Principalmente em jogos nos quais o Sporting tenha que assumir a iniciativa de jogo de forma mais incisiva, principalmente contra equipas que jogam com as linhas muito baixas e fecham bem os espaços, o jovem médio seria uma grande ajuda para descobrir espaços onde não os há, graças à sua visão de jogo privilegiada e à sua velocidade de pensamento e de execução.

Parece que Peseiro estará a pensar em Nani para assumir esse papel mais interior também quando necessário, mas intérpretes com esta magia que entusiasma as bancadas e que ao mesmo tempo são capazes de desbloquear qualquer partida ao encontrar todo o tipo de caminhos diferentes para a baliza adversária são opções que nunca são demais no plantel.

Médio leonino em bom plano no estágio realizado na Suíça
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Desde os oito anos de idade na Academia, Francisco Geraldes é considerado uma das promessas mais entusiasmantes a saírem de Alcochete nos últimos anos mas ainda não será desta que o jovem jogador terá a oportunidade de se afirmar no seu clube do coração.

Um jogador talentoso e inteligente, que não deixa ninguém indiferente com o seu comportamento dentro e fora dos relvados e que sempre expressou publicamente a sua vontade de vingar com o leão rampante ao peito. Estará a estrutura do Sporting a fechar os olhos outra vez à qualidade de Geraldes? O pior cego é aquele que não quer ver e tal como questiona Saramago na sua aclamada obra “Ensaio sobre a Cegueira” e de cujo autor Geraldes é confesso admirador: “Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira?”.

Por agora parece que a cegueira que tomou conta da estrutura leonina em relação ao talentoso médio continua e não será para já que o jovem criativo irá espalhar o seu futebol na relva de Alvalade.

Foto de Capa: Eintracht Frankfurt

Artigo revisto por: Jorge Neves

Xavier Costa

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